“Não é só sua palavra de homem que vale não, palavra de mulher preta também vale”.
Marielle Franco
Texto / Renata Martins | Imagem / Daisy Serena
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Contar histórias sempre foi uma estratégia de sobrevivência para população negra, ainda que a escrita tenha surgido no Egito, que também é África e negra. A oralidade foi um dos instrumentos de preservação da memória de um povo. Não contávamos histórias apenas com as palavras, mas com todas as tecnologias que tínhamos em mãos; corpo, olhar, sentidos e ancestralidade…
Quando começaram a mercantilizar a arte de contar histórias, sobretudo no cinema, a população negra foi afastada das novas tecnologias e se torna objeto de estudo e viram seus corpos sendo representados através de uma lente branca, que ampliava um olhar branco, sobre todos, inclusive os brancos. E esse olhar, que nos via de forma distorcida, transformou homens negros em animais, estupradores e mulheres negras em serviçais e boas de cama. Seres sem cérebros programados apenas para servir.
Hoje, após muita luta, sobretudo dos movimentos negros, de feministas negras e interseccionais, mulheres e homens negros têm a possibilidade de exercer funções diversas. Nem digo ocupar, pois o que ocupamos mesmo são as filas dos hospitais, desemprego, as vagas na prisão e nos cemitérios da quebrada.

Gravação do curta “Sem Asas”. Foto: Daisy Serena.
Tornamo-nos escritores, roteiristas, cineastas, músicos e dançarinos, entre outras tantas profissões e temos a possibilidade de ampliar nosso olhar, nossa fala e nossa visão de mundo por meio destas artes. Delas, o cinema é uma das mais cobiçadas e caras, e sua estrutura branca, elitista, masculina e cisgênera briga por se manter igual aos séculos idos.
Mas muitos cineastas e roteiristas, que sobreviveram às tentativas de extermínio, não querem mais ser objeto de estudo. Não querem carregar cabos, ou servir cafés e serem tokenizados nas produções audiovisuais brasileiras. Não querem sentir medo de perder o emprego. Não aguentam mais dar aula sobre racismo estrutural para quem acha que nada sofre com essa estrutura perversa! Querem trabalhar, serem respeitados e bem remunerados por isso.
O episódio da série sobre Marielle evidência esse ranço colonial que permeia as relações pessoais e profissionais. As falas da autora e produtora, Antônia Pellegrino, seguida do direito de resposta de Padilha, diretor escolhido, evidenciam a dificuldade cognitiva destas pessoas de olhar para o Brasil real, Brasil de “Marias, Mahins, Marielles, Malês”.
A resposta deles tenta nos jogar novamente nos porões da história e criminalizar a nossa incansável luta. Quando citam militantes negros assassinados, não à toa estrangeiros, como justificativa para um questionamento legítimo: Onde estão as mulheres e homens negros diretores e roteiristas do cinema brasileiro?. Eles nos matam mais e mais vezes.
Nós mulheres e homens negros não temos poder institucional para linchar ninguém. O que nós temos é voz e a única coisa que podemos fazer é gritar alto para quem sabe acordar esse branco colono que habita neles.
Quais foram as políticas implementadas no set e sala de roteiro que atuaram? Em qual momento abriram espaço para mulheres negras ampliarem sua voz de igual para igual? Em qual momento permitiram o protagonismo de mulheres negras? Falo de de protagonismo, salário e prestígio igual e não em oficina ou oportunidade, certo? Em qual momento isso aconteceu, agora? Num projeto específico? Num projeto cujo protagonista é uma mulher negra periférica, bissexual, mãe, filha, esposa, parlamentar e que lutava contra esse olhar que a recortava e silenciava?
Se o Brasil não produziu, segundo Pellegrino, profissionais negros de excelência é porque ninguém se importou ao ver um jovem talento desistir da carreira por conta do racismo institucional ao qual, mulheres e homens iguais a ela se beneficiam diariamente. Mesmo assim, mesmo com a tentativa de nos colocar a bola de ferro invisível no pé e mordaça na boca, mulheres e homens negros cis ou trans, estão fazendo história. Eles estão vivos, produtivos, escrevendo, curtas, novelas, longas, séries, que têm ganhando corações e mentes pelo mundo afora.
Essa movimentação é sim por conta da série e por todas as vozes que surgiram ao longo de anúncio da produção. É por conta da pouca melanina e periferia na chefia do projeto. É por todos os atores negros que se revezaram entre serviçais e escravizados nos produtos audiovisuais brasileiros.
Mas também sobre os profissionais negros que estão cansados de ficar com o farelo do bolo, sobre os jovens negros e negras que estão ingressando na profissão e serão utilizados como escudo para capitalizar em nome da diversidade, sobre acreditar que mulheres negras que dirigiram curtas são capazes de dirigir longa, novela, série, o que elas quiserem. É para que todos profissionais negros saibam que tem muita gente preta aqui fora e que eles não estão sozinhos.
E sim, “nós não seremos silenciados!
Renata Martins, Diretora e roteirista.