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Por uma luta antimanicomial radicalmente antirracista

A manicomialização é um dos braços fundamentais do projeto moderno-colonial que instituiu parâmetros de normalidade e anormalidade para gerir corpos e territórios
Instituto Municipal de Assistência à Saúde Nise da Silveira (IMAS Nise da Silveira), antigo Centro Psiquiátrico Pedro II.

Instituto Municipal de Assistência à Saúde Nise da Silveira (IMAS Nise da Silveira), antigo Centro Psiquiátrico Pedro II.

— Reprodução/Alessandra V. Santhos

19 de julho de 2026

Quem é reconhecido como humano e quais corpos são tratados como ameaça, excesso, descontrole ou desrazão? A compreensão do manicômio precisa ultrapassar a ideia de uma estrutura física para ser entendida como um dispositivo de manicomialização da vida: um apartheid social que opera por meio da patologização das diferenças, da medicalização excessiva, do encarceramento e da produção contínua de exclusão às subjetividades consideradas inadequadas à norma colonial.

A manicomialização é um dos braços fundamentais do projeto moderno-colonial que instituiu parâmetros de normalidade e anormalidade para gerir corpos e territórios. No Brasil, a psiquiatria pós-abolição esteve profundamente comprometida com um ideal de branqueamento da pólis. Discursos higienistas e eugenistas tinham como intuito eliminar a doença, a loucura e a pobreza dos centros urbanos, através de um intenso controle social.

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Os cientistas da época sinalizavam que o suposto atraso econômico se dava em decorrência do clima quente e das pessoas colonizadas e sua falta de civilização, ordem e progresso. O hospício, assim como a prisão, tornou-se parte de uma engrenagem de controle voltada à contenção daquelas pessoas consideradas entraves ao progresso nacional.

Torna-se necessária a compreensão de que a manicomialização e o racismo ancoram-se numa mesma estrutura: a produção da desumanização em nome de uma ideia universal de razão. A modernidade ocidental instituiu uma concepção de humano baseada na racionalidade europeia, branca e masculina.

O sofrimento psíquico, portanto, está atravessado pelo racismo estrutural. A violência racial atua também no campo psíquico, fabricando suspeição permanente, fragmentação de vínculos comunitários e produção de condições contínuas de sofrimento.

A psiquiatria tradicional participou diretamente dessa operação. A loucura deixa de ser percebida em sua singularidade para tornar-se figura social da incapacidade, do perigo e da improdutividade; o louco transforma-se em um doente. Discursos racistas supostamente científicos ganharam ainda mais ênfase nos séculos XIX e XX, associando pessoas negras à periculosidade e à loucura.

Colonialidade e manicomialização, portanto, operam conjuntamente na administração de vidas consideradas desviantes. A patologização da diferença torna-se, assim, uma tecnologia de disciplina colonial.

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Não é coincidência que manicômios brasileiros tenham sido ocupados majoritariamente por pessoas pobres, negras e marginalizadas. Tampouco é coincidência que o sofrimento de determinados grupos considerados desviantes siga sendo respondido prioritariamente por meio da contenção, da medicalização e da violência institucional. O manicômio não é um desvio da racionalidade moderna; ele é uma de suas expressões mais acabadas.

Por isso, a luta antimanicomial exige também uma crítica radical ao estatuto colonial da razão. Não basta fechar hospitais psiquiátricos se permanecem intactas as estruturas epistemológicas que determinam quais vidas possuem legitimidade para existir. O racismo atua igualmente pela destruição de saberes, cosmologias e formas não hegemônicas de produzir conhecimento. 

Descolonizar a razão implica questionar a centralidade de um sujeito produzido pela modernidade ocidental e abrir espaço para outras formas de existir, imaginar e produzir mundos plurais. Nesse movimento, a diáspora negra emerge como potência política de reinvenção da vida. A diáspora produz linguagens, territorialidades e modos de cuidado que escapam à lógica colonial da exclusão.

Há, nesse gesto, um exercício contínuo de desnortear o imaginário colonial, cujo objetivo é criar outras cartografias possíveis para a existência. Enfrentar o projeto colonial exige romper com formas únicas de humanidade e restituir a multiplicidade dos modos de vida sufocados pela racionalidade moderna.

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Aquilombar o cuidado torna-se, então, uma tarefa ética e política, como prática concreta de construção coletiva da vida, de fortalecimento comunitário e de defesa radical da diferença, buscando condições para que as diferenças subjetivas que nos constituem possam existir em sua plenitude.

A questão que permanece é: que modelo de sociedade é esse que continua produzindo sujeitos descartáveis para sustentar sua ideia de normalidade? Enquanto a razão seguir funcionando como instrumento colonial de classificação humana, a manicomialização de nossas vidas continuará produzindo separação, exclusão e morte.

A ruína desse projeto colonial pode ser entendida como linha de fuga. Uma aposta micropolítica na criação de outros mundos possíveis, inconcebíveis para a lógica excludente da colonialidade. É justamente nesse movimento que a luta antimanicomial encontra sua radicalidade: denunciando todas as formas de manicômios e afirmando possibilidades de vidas que escapem às políticas coloniais da desumanização.

Nenhum passo atrás! Manicômio nunca mais! 

A editoria Quilombo reúne textos opinativos. Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a visão da Alma Preta sobre quaisquer temas.

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  • Psicóloga antimanicomial com sólida experiência em liderança de projetos sociais, culturais e intersetoriais com foco no impacto comunitário através da justiça social, equidade racial e de gênero.

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