Na última quarta-feira (4) o babalorixá Daniel Pereira denunciou ter sido vítima de racismo em uma publicação no Instagram, onde discutia a conduta discriminatória do Estado no contexto da prisão de MC Poze do Rodo.
Além de autoridade religiosa, Pereira é pesquisador, criador de conteúdo e militante de direitos humanos e educação antirracista. A postagem da liderança utilizava o recente caso do funkeiro como contexto para um debate sobre narrativas que criminalizam e violentam sistematicamente corpos negros.
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Em um dos comentários, um usuário declarou que o MC Poze e o cantor Oruam, citado na publicação do professor, seriam “favelados bandidos” e deveriam morrer.
Ao ser confrontado pelo babalorixá, o homem declarou em outro comentário que “quem gosta de preto é chicote e senzala”.
Em entrevista à Alma Preta, o líder religioso contou que é auxiliado por uma equipe jurídica e que vai registrar um boletim de ocorrência sobre o caso em breve.
“Já tenho esse trabalho de ativismo contra o racismo e contra a LGBTfobia há algum tempo na internet, né? E eu sei que a gente se posicionar acaba atraindo ódio. Mas a gente nunca está totalmente preparado para isso. Apesar de que a vivência de quem já está na militância há bastante tempo é ter que lidar com esse tipo de pessoas o tempo inteiro”, explica.
O professor conta que também foi criticado por algumas pessoas na rede social por defender a necessidade de debater a desumanização de pessoas negras na mídia. Essas pessoas o acusaram de defender criminosos.
“Tentei explicar que eu não estava defendendo bandido nenhum e sim falando de corpos pretos, da desumanização que a sociedade brasileira segue praticando. Mas fui chamado de enviesado, de protetor de bandido”.
Para Daniel Pereira, a discordância é comum e faz parte do debate. No entanto, o usuário que o discriminou já teria iniciado a conversa com agressividade e desrespeito.
“Foi quando ele deu a resposta racista. Claro que isso dá um baque. Independente da gente estar acostumado ou não, mexe com as nossas emoções”, completa.
Cyberracismo
O bacharel em Direito e pesquisador do racismo religioso, Gabriel Henrique de Jesus, destaca que esse tipo de ataque realizado nas redes sociais é comum devido à falta de atuação do Estado no controle das plataformas.
“Elas se sentem à vontade através do anonimato, porque estão atrás de uma tela que permite que elas exerçam e pratiquem o seu ódio e o seu racismo, né? E o Estado é conivente com isso. Porque o Estado não cobra das redes sociais um posicionamento”.
O especialista, que também é líder religiosa, reforça que a falta de mecanismo para a identificação das pessoas nas plataformas é consequência de uma aplicação ineficaz da legislação que equiparou o crime de injúria racial ao racismo.
“O Estado não efetiva a sua lei, cobrando que as redes sociais tenham mecanismos suficientes para possibilitar a denúncia dessas pessoas. Isso não deveria nem ser algo condicionado”, defende o pesquisador.
Gabriel Henrique argumenta que a própria plataforma do Instagram não oferece opção para denunciar casos de racismo, comuns no Brasil e nos Estados Unidos, país de origem da rede social.
“O Instagram não oferece essa opção porque também é uma rede social racista. Ele promove esse ódio e o Estado brasileiro não cobra nem efetiva sua própria legislação, o que impede a geração de dados que levem a inquéritos ou investigações”.