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Em 4 anos, Brasil registra 822 mil partos resultantes de crianças vítimas de estupro

Segundo pesquisa do Observatório Criança Não é Mãe, cerca de 74% das meninas de 8 a 14 anos que deram à luz no período analisado eram negras
Mulheres seguram cartazes contra projeto de lei que impede o aborto legal em crianças e adolescentes, em Brasília (DF), em junho de 2024.

Mulheres seguram cartazes contra projeto de lei que impede o aborto legal em crianças e adolescentes, em Brasília (DF), em junho de 2024.

— Reprodução/Valter Campanato/Agência Brasil

4 de junho de 2026

Um estudo do Observatório Criança Não é Mãe indica que, entre 2019 e 2023, o Brasil registrou mais de 822 mil nascidos vivos de mães de 8 a 17 anos. A informação foi divulgada pela Folha de S. Paulo, nesta quinta-feira (4). 

O número representa cerca de 450 crianças e adolescentes parturientes por dia. Dessas, ao menos 45 tinham menos de 15 anos. Entre as meninas de 8 a 14 anos que deram à luz no período observado, 74,67% eram negras. 

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De acordo com a pesquisa, as crianças e adolescentes negras possuem 3,75 vezes mais chances de gravidez do que as brancas. Elas também são a maioria entre os casos que resultam em óbitos, com quase 70% das 529 mortes registradas. 

Leia mais: Meninas negras são 56% das vítimas de violência sexual de 0 a 17 anos, diz estudo

No Brasil, toda gestação antes dos 14 anos é considerada resultado de estupro de vulnerável e risco para a vida da gestante. A legislação concede o direito ao aborto legal nesses casos, mas o acesso ao procedimento é um dos principais desafios para as jovens grávidas. 

Segundo o relatório, mesmo sendo legal, apenas uma em cada 19 meninas com gestação resultante de violência sexual conseguiu realizar o procedimento. A pesquisa ainda destaca a dificuldade na busca do aborto legal em locais próximos, classificada como “peregrinação”. 

Entre 2019 e 2024, 1.214 meninas realizaram trajetos, inclusive intermunicipais ou interestaduais, acima de 1.600 quilômetros. O levantamento aponta que, em 2024, houve uma média de 40 internações por dia em decorrência de complicações associadas à gestação, parto ou aborto. Das internações, 70,94% dos casos eram de meninas negras. 

A pesquisa, encomendada pelo Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde e pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), utilizou dados de quatro bases públicas do Sistema Único de Saúde (SUS): o Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc), o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) e o Sistema de Informações Hospitalares (SIH). 

Ao longo de cinco anos, o Sinan contabilizou 399,4 mil casos de violência contra meninas de 8 a 17 anos, dos quais 137,8 mil correspondem a agressões sexuais. O relatório ainda ressalta que, atualmente, existem cerca de 34 mil crianças de até 14 anos vivendo em uma união conjugal no Brasil. 

Leia mais: ‘PDL da Pedofilia’: projeto que dificulta aborto para crianças vítimas de estupro avança no Senado

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  • Verônica Serpa

    Formada em Jornalismo pela UNESP e caiçara do litoral norte de SP. Acredito na comunicação como forma de emancipação para populações tradicionais e marginalizadas. Apaixonada por fotografia, gastronomia e hip-hop.

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