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Guerra às drogas reduz aprendizado e aumenta evasão em escolas do Rio, aponta estudo

Pesquisa inédita associa tiroteios com policiais a quedas no desempenho em português e matemática e a maiores taxas de reprovação e abandono no 5º ano do ensino fundamental
Forças Armadas e policiais fazem operações na comunidade da Gardênia Azul, região de Jacarepaguá, na zona oeste do Rio de Janeiro.

Forças Armadas e policiais fazem operações na comunidade da Gardênia Azul, região de Jacarepaguá, na zona oeste do Rio de Janeiro.

— Tomaz Silva/Agência Brasil

19 de agosto de 2025

Crianças que estudam em áreas marcadas por operações policiais no Rio de Janeiro aprendem menos e têm maior risco de abandonar a escola. É o que mostra o artigo “O impacto da guerra às drogas na educação das crianças das periferias do Rio de Janeiro”, publicado na Revista Dados, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Segundo os pesquisadores, a exposição a tiroteios reduz em até dois terços o aprendizado esperado em português para alunos do 5º ano do ensino fundamental. Em matemática, os efeitos anulam completamente o ganho previsto para um ano letivo. Além disso, escolas localizadas em territórios com maior número de confrontos registraram taxas mais altas de reprovação e de abandono.

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Para estudantes do 9º ano, os efeitos não se mostraram estatisticamente significativos, o que pode estar relacionado à evasão precoce de alunos mais afetados ou a uma maior resiliência dos adolescentes.

A pesquisa foi conduzida pelos pesquisadores Ignacio Cano e Rachel Machado, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), e por Tiago Bartholo e Mariane Koslinski, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em parceria com Mariana Siracusa, também da UERJ.

O trabalho utilizou dados de 2019 e cruzou informações da plataforma Fogo Cruzado, que mapeia disparos de armas de fogo, com relatórios enviados por diretores escolares à Secretaria Municipal de Educação do Rio (SME). Essa combinação permitiu estimar, de forma inédita, como a violência ligada à repressão ao tráfico impacta o desempenho de crianças da rede pública municipal.

Cotidiano interrompido pela violência

A análise mostra que os tiroteios frequentemente ocorrem em horário escolar. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública revelam que, em 2019, 61% das operações policiais letais no estado do Rio de Janeiro aconteceram durante o dia, metade delas pela manhã. Essa coincidência de horários interrompe aulas, impede o deslocamento de estudantes e funcionários e compromete o funcionamento das unidades escolares.

Os impactos aparecem em diferentes frentes. No nível dos estudantes e de suas famílias, a exposição constante a situações de risco gera estresse pós-traumático, distúrbios do sono e dificuldades de concentração, fatores que reduzem a capacidade de aprendizagem. Muitas famílias, diante do medo, optam por não enviar os filhos à escola em dias de confronto.

Entre os profissionais, a violência provoca ausência e rotatividade de professores e diretores, além de desistência da carreira em casos de maior pressão. Para as escolas, os efeitos incluem fechamento temporário, deterioração do ambiente e queda no engajamento pedagógico.

Na conclusão do estudo, os autores apontam que a guerra às drogas produz efeitos duradouros na educação básica. Ao afetar a trajetória escolar de milhares de crianças, o modelo atual de segurança pública amplia desigualdades sociais e compromete o futuro de jovens das periferias.


A pesquisa com os dados numéricos completos pode ser consultada na íntegra neste link.

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  • Giovanne Ramos

    Jornalista multimídia formado pela UNESP. Atua com gestão e produção de conteúdos para redes sociais. Enxerga na comunicação um papel emancipatório quando exercida com responsabilidade, criticidade, paixão e representatividade.

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