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Guerra aumenta o preço dos alimentos e impacta a vida de congoleses

Produção agrícola local e importação de alimentos está sendo afetada pela tomada do transporte por grupos armados. Fechamento de aeroporto no leste prejudica abastecimento de mercado do outro lado do país, em Kinshasa.
Pedro Borges/Alma Preta

Mulher repousa no chão no campo de refugiados em Kalemie enquanto vende peixes.

— Pedro Borges/Alma Preta

24 de agosto de 2025

Enviado especial a Kalemie, na República Democrática do Congo.

“Eu vejo as pessoas comprarem os alimentos com muita dificuldade”, conta Bibi Mwayuma, 53 anos, comerciante na cidade de Kalemie, que fica a 380 Km de Uvira. Nessa região, a leste da República Democrática do Congo, há uma tensão bélica entre os militares congoleses e o M23. 

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O medo de uma invasão foi maior no início do ano, quando o M23 avançou com velocidade, conquistando as capitais Goma (Kivu do Norte), em 27 de janeiro, e Bukavu (Kivu do Sul), em 15 de fevereiro. Mas, além desse temor, a guerra está trazendo outro prejuízo à população congolesa de todo o país: a alta dos preços dos alimentos. 

Mwayuma gere um negócio com a ajuda dos filhos, Lunga Mikeni Jean Paul, 27 anos, e Witanene Kitatenge Lionel Jospin, de 26 anos. Os três passam o dia no comércio atendendo clientes com produtos variados, desde frutas, como banana e mexerica, até itens gerais de uma “vendinha”, como bolos, whisky, sabão, margarina, entre outros.

Ela relata que diversos alimentos básicos vinham de Bukavu, hoje controlada pelo M23. Antes, os alimentos produzidos lá eram transportados até Uvira e, de lá, iam de barco para Kalemie. Com as estradas tomadas pelo M23, o transporte ficou impossível. 

Uma lata de leite de 2,5 quilos antes custava US$ 26, hoje custa US$ 43. O mesmo vale para um saco de açúcar de 50kg, vendido a US$ 30 antes da guerra; agora custa US$ 50.

Os ataques também paralisaram a produção de agricultores. Alguns tiveram as terras ocupadas pelo M23 e outros se refugiaram com medo da violência, deixando a produção para trás.

Conflitos étnicos locais impactam nos preços dos alimentos

Mulher no preparo de farinha no campo de refugiados Tanganyika. Foto: Pedro Borges/Alma Preta.

Para além da interferência direta de Ruanda, os conflitos étnicos generalizados na região Leste são outro complicador. Na província de Tanganyika, bantus e pigmeus têm uma disputa territorial. 

As áreas de agricultura de Kyalwe Mudimba, por exemplo foram tomadas desde janeiro, e ele não tem acesso a sua produção.

“O acesso aos campos se tornou praticamente impossível para a maioria dos agricultores, em razão da ocupação ilegal das suas terras por pigmeus e criminosos. Essa situação gera insegurança alimentar crescente e compromete gravemente a produção agrícola local”, afirmou. 

Ele listou que as consequências são “grandes” e “deterioram” a vida das pessoas todos os dias, exigindo “medidas concretas urgentemente necessárias para restaurar a ordem”.

Segundo dados das Nações Unidas, em 2025, 27 milhões de pessoas (um quarto da população congolesa) enfrentarão severa insegurança alimentar, sobretudo no leste do país.

O economista Cush Ngonzo Luwesi, especializado em desenvolvimento sustentável, acredita ser normal a situação em Kalemie. “Kalemie está sob a área controlada pelo governo e depende do Kivu do Sul, controlado pelo M23, para algumas commodities”. 

Ele acredita que o problema não é restrito a Tanganyika, mas atinge outras províncias da parte central e leste, como Kasai, Bandundu, Katanga e Kisangani.

Bancos fechados e estratégias de sobrevivência

Desde o início da ocupação de Goma e Bukavu, os bancos nas duas cidades estão fechados. O governo do país nega que tenha interferido nessa decisão. Na versão oficial de Kinshasa, os bancos estão fechados por questões de segurança, por conta da incapacidade de garantir o dinheiro. Os bancos, por sua vez, afirmam que só vão reabrir com a autorização do governo central de Kinshasa.

Com isso, o dinheiro ficou escasso em Goma, e as pessoas passaram a comprar e vender a partir de trocas, como latas de óleo. Para driblar a situação, algumas pessoas vão para Ruanda, o país vizinho, para sacar dinheiro.

Mesmo funcionários públicos e trabalhadores de organizações internacionais que recebem salário por meio dos bancos não conseguem sacar.

Sem bancos, os congoleses passaram a utilizar as companhias de telefonia (como Artel, Orange e M-pesa) para pagamentos. Contudo, reclamam das taxas excessivas, entre 6% e 10%. 

Serviços prestados pelas empresas de telefonia no Congo. Foto: Pedro Borges/Alma Preta.

Essa alta demanda fez com que o franco congolês se desvalorizasse em Goma (de 2.800 para 3.300 FC por dólar), e as pessoas passaram a utilizar mais o franco ruandês. 

A falta de dinheiro em espécie é um problema grave num país onde as pessoas não costumam usar outros meios de pagamentos.

Guerra nunca foi um impeditivo para a economia em Goma

Apesar das dificuldades, a guerra nunca imobilizou totalmente a população local. De acordo com Bisa Michel, professor da Universidade de Kinshasa, entre 1994 e 2025 a cidade conviveu com ao menos quinze episódios de guerra, o que não impediu seu desenvolvimento.

“Ao contrário do senso comum, a guerra jamais impediu os habitantes de Goma de trabalhar, produzir e construir a sua cidade. Hoje é a cidade mais bem construída do país”, afirma. 

Ele destaca que a economia da região não se restringe à mineração, como em outras províncias. “Existem outros setores dinâmicos, como a economia da guerra e das ações humanitárias, a agricultura e a pecuária”.

Além disso, o setor hoteleiro e a presença de militares de diferentes nacionalidades também estimulam a economia local.

“Goma ilustra uma realidade ignorada: as sociedades em guerra não são congeladas. Elas se adaptam, inovam e às vezes se desenvolvem mais do que as cidades que estão em paz”, afirmou.

Impacto em Kinshasa

Mesmo no outro extremo do país, a capital Kinshasa também sofre com a alta de preços. A cidade, que tem 17 milhões de habitantes, depende de produtos básicos vindos de Goma e de Bukavu, como maçãs, feijão, arroz, queijo, carne bovina e peixe.

Além disso, a maior parte dos produtos vendidos nos mercados congoleses são importados. Por isso, com o fechamento do aeroporto de Goma, produtos do leste do país e de nações vizinhas (Quênia, Uganda, Burundi e Ruanda) deixaram de chegar à capital. 

“O aeroporto de Goma era o principal porto para os empresários de Kinshasa que importavam desses países”, explica o economista Cush Ngonzo Luwesi. “Trigo, milho, painço, sorgo, batata, feijão, carne bovina, peixe, etc. vêm dessas áreas. O aeroporto de Goma era o principal porto para os empresários de Kinshasa que importavam desses países”, conta Luwesi.

Peixes que custavam 100 FC agora custam 10 vezes mais. O aumento de produtos importados, como a farinha de origem tanzaniana, alterou o preço final do pão (de 100 FC para 500 FC). Frutas importadas, como uma caixa de uvas que custa em média US$ 6 (cerca de R$ 33), são inacessíveis à maioria da população.

Um morador de Bukavu, em condição de anonimato, afirmou que o problema de alimentação na cidade é grande devido à ocupação das áreas de agricultura. 

Ele deposita esperança na assinatura de um acordo de paz para melhorar a situação. O fechamento de empresas na região diminuiu o acesso ao trabalho, deteriorando ainda mais a vida dos congoleses.

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  • Pedro Borges

    Pedro Borges é cofundador, editor-chefe da Alma Preta. Formado pela UNESP, Pedro Borges compôs a equipe do Profissão Repórter e é co-autor do livro "AI-5 50 ANOS - Ainda não terminou de acabar", vencedor do Prêmio Jabuti em 2020 na categoria Artes.

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