No livro “Terapia cognitivo-comportamental para a população negra: contribuições para a prática clínica sensível às questões étnico-raciais”, lançado pela Editora Senac São Paulo, o psicólogo Bruno Reis aborda a importância de descolonizar a psicologia para melhor atender a população negra.
O autor reúne um vasto referencial teórico, em especial os fundamentos da terapia cognitivo-comportamental (TCC). O livro é dividido em três partes: a primeira explora por quê é preciso haver uma psicologia sensível às questões étnico-raciais; a segunda comenta os possíveis caminhos para tornar a psicologia clínica mais sensível às questões étnico-raciais; e, a terceira, aponta como se aprofundar sobre a prática clínica sensível às questões étnico-raciais baseada na TCC.
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Entre as três partes, o texto se distribui em dez capítulos que abordam desde a chegada dos afrodescendentes ao Brasil, até a construção da identidade do negro a partir do ponto de vista do outro e aquilo que o autor chama de colonização da psicologia.
Em entrevista à Alma Preta, o autor explica que historicamente a grade curricular dos cursos de psicologia é formada majoritariamente por autores europeus e norte-americanos. Essa falta de diversidade faz com que os estudos excluam as vivências das populações racializadas.
“Isso não significa que a psicologia que praticamos não tem valor. Ela realmente tem condições de ajudar a população brasileira, mas essa psicologia não estuda tão a fundo as demandas dos grupos minorizados como os povos negros e indígenas, e precisa se tornar mais sensível para não ter pontos cegos”, afirma.
De acordo com Reis, uma psicologia com “pontos cegos” pode resultar no que chama de iatrogenia, quando é feita uma intervenção para melhorar algo, mas acaba piorando. “A pessoa pode ir para a terapia para cuidar da saúde mental e o terapeuta pode, de alguma forma, reproduzir racismo e prejudicar o paciente”.
Por isso, o profissional defende a descolonização da psicologia. “Existe uma colonização dos saberes como um todo no Brasil. A gente é muito referenciado, por exemplo, pela mitologia grega, mas raramente respeitamos e citamos a mitologia Iorubá. A gente fala muito da filosofia e de teóricos como Descartes e Foucault, mas não falamos sobre Cheikh Anta Diop e de outros teóricos que são bem importantes também”, detalha.
A obra de autoria do psicologo propõe ainda a navegação por uma jornada de sensibilização entre estudos críticos, decoloniais, afrocentrados e antirracistas, e pelas demandas clínicas relacionadas às questões étnico-raciais e os caminhos para manejá-las.
Entre os benefícios de uma psicologia descolonizada, o autor destaca o fortalecimento da autoestima da população negra. “A psicologia pode ser uma ferramenta de combate ao racismo de diferentes formas. Uma delas é contribuir para que as pessoas negras entendam que, por mais que pareça que elas não são bonitas, que não são adequadas ou que não mereçam cargos importantes, muitas vezes elas pensam isso por causa de crenças que fizeram parte da formação de suas identidades, com um referencial racista”.