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Copa do Mundo: jogadores negros, entretenimento branco

O jornalista e diretor de investigação e dados da Alma Preta, Pedro Borges, discorre nesta coluna sobre a contradição entre seleções que refletem a diversidade de seus povos, como a do Brasil, e o público majoritariamente branco nas arquibancadas da Copa do Mundo de 2026
Torcedores antes da partida entre Haiti e Brasil pelo Grupo C da Copa do Mundo, na Filadéfia, Estados Unidos, 19 de junho de 2026

Torcedores antes da partida entre Haiti e Brasil pelo Grupo C da Copa do Mundo, na Filadéfia, Estados Unidos, 19 de junho de 2026

— AP Photo/Matt Rourke

24 de junho de 2026

Uma cena se repete ao longo da Copa do Mundo, sobretudo quando as nações em campo são latino-americanas e, em alguns casos, europeias. Em campo, homens negros, indígenas ou árabes correm, driblam, se machucam, gritam e às vezes comemoram. Nas arquibancadas, famílias brancas, com sorriso no rosto e copo de cerveja na mão vibram o prazer de assistir no estádio o torneio.

Esse contraste sempre me chamou atenção em jogos do Brasil, mas durante a Copa do Mundo foi possível perceber que esse padrão tem se repetido entre países vizinhos e os antigos colonizadores europeus.

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A Colômbia, que não tem mais de 20% de afrodescendentes, tem uma equipe majoritariamente negra. Nas arquibancadas, contudo, um país praticamente europeu. O mesmo padrão se repetiu em jogos de times como Panamá e Equador.

Um dos principais motivos é a grana. Os ingressos dessa Copa do Mundo tornam o acesso ao espetáculo um privilégio, que só as elites de cada país podem alcançar. E privilégio nas Américas sempre estará relacionado à branquitude, que construiu seu status social sobre negros e indígenas, grupos vítimas de processos de aniquilação, exploração e empobrecimento.

Algumas seleções europeias reproduzem a mesma lógica. Se antes tinham times majoritariamente brancos, hoje têm equipes com craques negros e árabes, sobretudo. Isso no mesmo período em que políticas anti-imigração ganham cada vez mais força na Europa. Bem-vindos às equipes nas quais entregam resultados, os imigrantes sem qualidades excepcionais são excluídos do país, mandados de volta, discriminados no dia a dia.

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Os países africanos, por outro lado, demonstram uma maior sintonia entre o que se enxerga em campo e na arquibancada. Talvez por isso sejam as equipes que contam com menores porções de torcedores, alvos da política imigratória estadunidense.

O futebol hoje parece ser cada vez mais um esporte para ser apreciado pelas elites. O mesmo jogo que se tornou popular no mundo por conta da atuação de Pelé, um homem negro retinto, que talvez nem pudesse assistir aos jogos caso se apresentasse na imigração como Edson.

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A editoria Quilombo reúne textos opinativos. Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a visão da Alma Preta sobre quaisquer temas.

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  • Pedro Borges

    Pedro Borges é cofundador, editor-chefe da Alma Preta. Formado pela UNESP, Pedro Borges compôs a equipe do Profissão Repórter e é co-autor do livro "AI-5 50 ANOS - Ainda não terminou de acabar", vencedor do Prêmio Jabuti em 2020 na categoria Artes.

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