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Apagamento negro no Sul e a memória de João Cândido, o Almirante que desafiou a Marinha

Nascido no Rio Grande do Sul há 146 anos, João Cândido sofreu tortura e uma internação forçada; sua trajetória expõe o racismo estrutural que ainda invisibiliza a população negra na região
Na imagem da esquerda, João Cândido lê manifesto com reivindicações. Na da direita, posa para fotografia.

Na imagem da esquerda, João Cândido lê manifesto com reivindicações. Na da direita, posa para fotografia.

— Domínio Público

24 de junho de 2026

O racismo moldou tanto o imaginário social de maneira que a população negra residente na região Sul do Brasil foi apagada. Imagina-se apenas um território indiscutivelmente branco, pessoas parecidas com europeus e nascidas nas mais diversas colônias: francesa, alemã, polonesa. Quando olhamos para as estatísticas constatamos que os autodeclarados negros totalizam menos que 30% do total de habitantes sulistas.  Algumas pessoas até consideram esse dado um fato concreto que justifica o  apagamento, porém o problema é mais profundo.

Quem conhece sabe que até existem comunidades quilombolas no Sul. Portanto, não falar da história do negro sulista é ignorar o processo de resistência para a existência, e os meios utilizados que mantém a cultura negra no território estranho à identidade africana e afro-brasileira. E haja história.  

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Hoje aproveito para lembrar de um nome importante no combate ao racismo institucional na primeira década de 1900. Nesse território nasceu um herói negro a quem todas as pessoas comprometidas com a luta pelos direitos humanos devem respeito. Seu nome de registro é João Cândido Felisberto, mas tornou-se conhecido como Almirante Negro. Nasceu em 24 de junho de1880 em Encruzilhada do Sul – RS.

Leia mais: União é condenada por ofensas da Marinha a João Cândido, líder da Revolta da Chibata

O legado heroico carrega a abolição da violência física na Marinha do Brasil. Liderou um movimento que tinha mais de dois mil marinheiros insurgindo contra os baixos soldos e chibatadas como método de punição na marinha. Essa mobilização aconteceu em novembro de 1910 e colocou sob a ameaça de bombardeio a capital do Brasil caso as reivindicações não fossem atendidas. O governo se comprometeu na teoria; na prática não cumpriu inicialmente o acordado. Houve perseguições, expulsões e violências contra os  participantes do movimento. 

João Cândido sofreu muito. Não só foi preso. Ele passou por torturas. E chegaram a considerá-lo com problemas psiquiátricos e o internaram no Hospital Nacional dos Alienados. A luta pessoal para se manter vivo foi árdua e culminou na sua expulsão da Marinha em 1912. As consequências nas ruas seguiram a tradição racista de tratamento  a todas as pessoas negras, no seu caso em especial um homem negro que enfrentou o  sistema.

Sabemos que neste país essa atitude é algo imperdoável, consequentemente, a pobreza fez parte até os seus últimos dias de vida. Ao longo dos anos tinha adquirido câncer que culminou na sua morte física em 1969.

Quanto à sua memória, continua viva graças à luta de todos que reconhecem o papel das pessoas que sonharam um país onde a igualdade das raças seja uma realidade. Mesmo sofrendo censura na ditadura militar, a canção “Mestre Sala dos Mares”, composta em 1975 por Aldir Blanc e João Bosco,  homenageando João Cândido, nos convoca: “Glória a todas as lutas inglórias”. Viva o Almirante Negro! 

Leia mais: ‘Abjeto marinheiro’: Marinha é contra João Cândido no livro de Heróis da Pátria

A editoria Quilombo reúne textos opinativos. Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a visão da Alma Preta sobre quaisquer temas.

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  • Ricardo Correa

    Estudante de Matemática, graduado em Tecnologia Industrial e pós-graduado em Educação. Ex-líder comunitário na periferia da zona leste de São Paulo e consultor na área de eletrônica.

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