Audre Lorde fala, em “A Transformação do Silêncio em Linguagem e Ação”, sobre as tantas vezes que se calou. No artigo da década de 1970, a escritora retrata seu drama diante de um diagnóstico de câncer e, numa tentativa de revisitar os momentos vividos, vê-se arrependida de ter se silenciado. Em dado momento do artigo, ela pergunta: “quais são as tiranias que você engole, dia após dia, e tenta tomar para si, até adoecer e morrer por causa delas, ainda em silêncio?”.
Uma grande referência para mim como mulher e escritora, Audre, com esse artigo, também ganhou o status de revolucionária, pois eu também vivia um diagnóstico médico e, diante dele, me questionei sobre o que havia somatizado ao longo dos meus quase 35 anos.
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Num exercício de compreensão dos meus silêncios, o que vi, através da minha lente interna, foi uma esmagadora quantidade de vezes em que, ao receber um “não”, eu o acatei e, em forma de amargor, o internalizei. Ali compreendi que continuar calada diante das recusas não me fortaleceria, como tantas vezes me disseram, mas, sim, me adoeceria. Foi nesse momento que escolhi, assim como Audre, “reconhecer dentro de mim um poder cuja fonte é a compreensão de que, por mais desejável que seja não ter medo, aprender a vê-lo de maneira objetiva é o que me fortalece”.
O medo de desagradar e decepcionar, ao questionar ou contrapor um “não”, é latente em nós; diante de uma escolha, deixamos muitas outras possibilidades para trás e, por isso, eu me escolhi. Em vez de aceitar que a recusa alheia defina meus limites, foi uma questão de sobrevivência fechar portas e escolher caminhos pelos quais os meus “sins” fizessem sentido. Como mulher sob a filosofia de terreiro, aprendi também que certos “nãos” são desvios de cuidado ancestrais, sinais que nos afastam de rotas que não nos cabem.
E então entendi o que Conceição Evaristo, outra referência, um dia disse: “eles combinaram de nos matar, mas nós combinamos de não morrer”. Recusar o roteiro da obediência, da gratidão forçada, da sobrevivência sem horizonte é sustentar a vida em outro compasso: o nosso.
E, para além de um impulso que soa ingênuo e individual numa realidade esmagadora, trata-se do mesmo impulso que pulsa nos quilombos formados em fuga, nos cadernos de Carolina Maria de Jesus, na voz de Maya Angelou. Está nas escolhas de mães pretas periféricas que transformaram ausência em revolução e semearam futuros. São gestos engenhosos de sobrevivência, uma vez que dizer sim a nós é, em sua maioria, dizer não a um projeto político reducionista.
Também não se trata de pedir aquilo que o mundo nos deve de volta. Trata-se de não esperar autorização para ser. Quando dizemos sim a nós mesmos, estamos decepcionando quem se acostumou com nossas constantes negações de identidade e, nesse vácuo que se abre com o afastamento, há expansão e transcendência para sermos algo além do que a dor disse sobre nós.
Eu sei que soa utópico. Sei que o sistema, muitas vezes, não nos permite romper com essa realidade. Mas cito Audre, mais uma vez: “As ferramentas do senhor nunca derrubarão a casa-grande”. Por isso, insisto e garanto: a vida muda de lugar quando o primeiro sim é para nós mesmos.