No dia 13 de maio de 1888, o Brasil assinou a Lei Áurea e colocou oficialmente fim à escravidão. Oficialmente. Porque, na prática, o Estado brasileiro nunca garantiu ao povo negro aquilo que deveria vir junto da liberdade: terra, moradia, trabalho digno, educação, reparação e cidadania. A abolição aconteceu no papel, mas abandonou milhões de pessoas negras à própria sorte.
Mais de um século depois, ainda é possível enxergar os rastros da escravidão na forma como o trabalho é organizado neste país. E talvez um dos exemplos mais cruéis disso seja a escala 6×1.
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Enquanto parte da sociedade debate qualidade de vida, lazer e saúde mental, milhões de trabalhadores negros seguem vivendo uma rotina que mal permite existir para além do trabalho. Trabalha-se seis dias para descansar um. Quando descansa.
Não é coincidência que a maioria das pessoas submetidas a essa lógica seja negra. Um levantamento do Núcleo de Estudos Raciais do Insper mostra que trabalhadores negros são maioria justamente nos setores com as jornadas mais exaustivas e os menores salários. Estamos falando da construção civil, do comércio, da limpeza, da alimentação, do transporte, do trabalho terceirizado e precarizado — os mesmos espaços historicamente ocupados pela população negra desde o pós-abolição.
Mudaram as correntes. Permaneceram as estruturas. A verdade é que o Brasil nunca rompeu completamente com a lógica da exploração dos corpos negros. Apenas modernizou seus mecanismos.
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A escravidão acabou sem reforma agrária, distribuição de renda, inclusão econômica e sem reparação histórica. E isso produziu um país em que a população negra continua concentrada nos trabalhos mais precarizados, mais mal pagos e desgastantes. Por isso, o fim da escala 6×1 não é apenas sobre jornada de trabalho. É discutir dignidade, saúde, direito à convivência familiar e quem tem direito ao descanso neste país.
Quando uma trabalhadora negra passa quase toda a vida entre ônibus lotado, trabalho exaustivo e tarefas domésticas, sem tempo para estudar, cuidar da saúde, viver a cidade, acompanhar os filhos ou simplesmente existir com dignidade, estamos falando da continuidade de um projeto histórico de exploração.
A população negra construiu este país com trabalho forçado. E ainda hoje sustenta grande parte da economia brasileira recebendo menos, trabalhando mais e vivendo sob maior vulnerabilidade.
Não existe democracia racial possível enquanto o povo negro continuar sendo tratado como mão de obra descartável. É importante dizer: defender o fim da escala 6×1 não significa ignorar a importância do trabalho, mas sim defender que o trabalho seja digno, com direitos e que não adoeça física e emocionalmente as pessoas.
Quem é contra a redução da jornada quase sempre parte do lugar de quem nunca precisou escolher entre descansar ou garantir o alimento do mês. Mas a trabalhadora do supermercado, o entregador, a auxiliar de serviços gerais, a atendente e a mãe solo periférica conhecem.
Como mulher preta e periférica, eu aprendi cedo que o racismo no Brasil também se organiza pelo controle do tempo da população negra. Nos tiraram o direito à terra, depois o direito às oportunidades e agora seguem tentando nos tirar até o direito ao descanso.
Por isso, a luta pelo fim da escala 6×1 também é uma luta abolicionista. Uma abolição verdadeira exige condições reais de viver com dignidade.
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O 13 de maio não pode ser tratado como ponto final da escravidão enquanto milhões de pessoas negras continuarem submetidas a jornadas desumanas, salários insuficientes e ausência de perspectiva. A abolição segue inacabada porque a liberdade sem justiça social é apenas outra forma de abandono. E enfrentar isso exige coragem para mexer nas estruturas que mantêm privilégios históricos intactos.
O Brasil tem uma dívida histórica com o povo negro, que não será paga com homenagens vazias ou discursos protocolares. Será paga com reparação, distribuição de direitos e valorização da vida de quem sempre carregou este país nas costas.