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Em meio à COP30, queda de casa na Vila da Barca expõe racismo ambiental em Belém

Na residência, moravam quatro pessoas, entre elas uma criança e uma pessoa com deficiência. Estalo antes da queda permitiu que todos se salvassem.
Fernando Assunção/Alma Preta

Casa desaba na Vila da Barca, em Belém. Local é uma das maiores favelas de palafitas da América Latina.

— Fernando Assunção/Alma Preta

14 de novembro de 2025

Atualizado às 11h33

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Uma casa de madeira desabou na Vila da Barca, uma das áreas de palafitas mais vulneráveis de Belém, nas primeiras horas desta sexta-feira (14). Moradores acreditam que força da maré pode ter influenciado na deteriorização da base de madeira.

A residência, onde moravam quatro pessoas, entre elas uma criança e uma pessoa com deficiência, teve a estrutura comprometida pela deterioração da base de madeira. O estalo percebido pelos moradores pouco antes da queda permitiu que todos conseguissem sair a tempo.

Apesar de ilesos, os moradores perderam tudo: móveis, roupas, documentos e os poucos pertences que tinham. Eles foram acolhidos por vizinhos, enquanto a Defesa Civil permanece no local durante a manhã avaliando riscos.

A queda atingiu a estrutura de pelo menos outras duas casas que estavam próximas.

A Vila da Barca é uma das maiores comunidades em palafitas da América Latina e mantém áreas em que estruturas de madeira sustentam casas diretamente sobre o rio.

O desabamento expõe as condições precárias de moradia na capital paraense, justamente no momento em que Belém recebe a COP30 e experimenta uma onda de megainvestimentos em infraestrutura, mobilidade urbana e requalificação de espaços públicos.

‘Política de violência ambiental’

O urbanista Tuyuka Carvalho Lara, professor no departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), classifica as obras recentes de infraestrutura em Belém como uma “política de violência ambiental”.

Conforme revelado em primeira mão pela Alma Preta em março deste ano, a Vila da Barca não tem saneamento básico adequado, mas recebeu esgoto e entulho das obras da Nova Doca, obra da COP30 na zona nobre de Belém.

“O que acontece na Vila da Barca é justamente o extremo de você estruturar esse centro às custas da população daquela comunidade. Isso é escandaloso”, avalia Lara. “A infraestrutura urbana para as periferias não só é deixada de lado. Como no caso específico da Vila da Barca, ela é totalmente direcionada uma política de violência ambiental mesmo. A gente vê um caso explícito do racismo ambiental que tanto se discute hoje na sociedade”.

Enquanto avenidas são reformadas, novos terminais são construídos, hotéis recebem recursos para ampliar sua capacidade e prédios históricos e centrais são revitalizados, milhares de famílias seguem vivendo em condições de moradia precárias, vulneráveis a desabamentos, incêndios e alagamentos.

“É uma pena que a gente não tenha, num momento como esse, governantes comprometidos com atitudes e projetos para mitigar essa concentração de renda, transformar Belém. Infelizmente, não foi dessa vez que a gente conseguiu aproveitar a oportunidade, literalmente, de ouro, de ter bilhões de reais à disposição para amenizar a realidade da população menos economicamente favorecida na cidade”, lamenta o urbanista.

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  • Fernando Assunção

    Repórter do Alma Preta Jornalismo na Amazônia paraense. Foco na cobertura de temas como direitos humanos, meio ambiente, política e questões relacionadas a povos e comunidades tradicionais.

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