Moradores da Vila da Barca denunciaram a autoridades federais práticas de racismo ambiental em seu território nesta terça-feira (11). O diálogo aconteceu no segundo dia da 30ª Conferência do Clima da ONU (COP30), durante a Plenária Mundial das Juventudes.
O encontro, que integrou a agenda da COP, ocorreu no Núcleo de Oficinas Curro Velho, localizado no bairro do Telégrafo, mesmo bairro da comunidade da Vila da Barca, considerada uma das maiores favelas palafitas da América Latina.
Quer receber nossa newsletter?
Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!
Entre os presentes estavam a primeira-dama Janja Lula da Silva e os ministros Marina Silva, do Meio Ambiente, Márcia Lopes, das Mulheres, Anielle Franco, da Igualdade Racial, Guilherme Boulos, da Secretaria-geral da Presidência da República, e Margareth Menezes, da Cultura, além de representantes de juventudes e movimentos sociais.
Conforme revelado em primeira mão pela Alma Preta em março deste ano, a Vila da Barca não tem saneamento básico adequado, mas recebeu esgoto e entulho das obras da Nova Doca, obra da COP30 na zona nobre de Belém.
A professora e liderança comunitária Inêz Medeiros destacou a mobilização dos moradores diante da tentativa do governo estadual de instalar uma estação de esgotamento sanitário sem consulta prévia e sem estudos de impacto ambiental.
“A Vila da Barca se destacou nesse processo pré-COP, quando a gente denunciou as ações do governo do Estado, que decidiu levar uma estação de esgotamento sanitário para o nosso território, sem dialogar e sem apresentar os estudos técnicos que justificassem a decisão. Desde então, a gente luta para barrar essa obra e para que respeitem nosso território”, afirmou Medeiros.
Segundo ela, as decisões governamentais refletem um projeto de precarização das condições de vida com o objetivo de expulsar os moradores de suas terras.
“A gente não vai aceitar que governo algum queira nos expulsar do nosso território. Quando a gente luta pelo território, a gente está dizendo que quer viver aqui, com dignidade, com moradia, emprego e renda”, declarou.
Fortalecimento de coletivos e protagonismo das mulheres
A liderança também ressaltou que a comunidade tem buscado soluções próprias para melhorar a qualidade de vida local. Ela destacou o fortalecimento de coletivos e iniciativas lideradas por mulheres, especialmente mães solo e chefes de família.
Entre os projetos mencionados estão ações de qualificação profissional, geração de renda e incentivo à educação, cultura e lazer, como a Barca Literária, iniciativa que forma jovens líderes e promove o acesso à leitura e à arte como ferramentas de educação sociopolítica e ambiental.
Durante a COP30, a comunidade também participará de atividades como o Banquetaço da Cúpula dos Povos. Nesse evento, o projeto Roteiro Cozinha Periférica, formado por mulheres da Vila da Barca, irá distribuir sobremesas gratuitas para valorizar a culinária amazônica feita nas periferias.
Juventude em defesa do território
Durante a plenária, crianças, adolescentes e jovens da Barca Literária apresentaram uma carta pública às autoridades, denunciando o racismo ambiental e pedindo reconhecimento e respeito ao território da Vila da Barca.
“A Barca Literária é um projeto que desenvolve um trabalho contínuo com crianças e adolescentes da Vila da Barca, promovendo o acesso à leitura e à arte como ferramenta de educação sociopolítica e ambiental. No processo de formação de lideranças, nos apropriamos dos debates pautados pela COP. Por isso, falamos em justiça climática.
Queremos respeito, queremos ser enxergados como pessoas com direito ao saneamento básico, à sustentabilidade e à cultura”, dizia um trecho do documento.
“Não ficamos caladas diante de mais um caso de racismo ambiental, como o que ocorre aqui na Vila da Barca”, completou a carta.
Os jovens também denunciaram o desmonte de políticas públicas culturais, citando o Espaço Curro Velho, que há 35 anos fomenta arte e cidadania na capital paraense.
“Tenho orgulho em dizer que somos crias do Curro Velho. Nos últimos anos, essa casa, que é nossa e do povo, passou a ser algo de desmonte”, concluiu.