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Moçambique anseia por uma biblioteca pública

A busca pela biblioteca pública é uma luta diária dos profissionais das bibliotecas no país africano
Biblioteca na Universidade Pedagógica de Maputo.

Biblioteca na Universidade Pedagógica de Maputo.

— Reprodução/Universidade Pedagógica de Maputo

7 de dezembro de 2025

Recentemente estive em viagem por Moçambique, meu país de origem. Estive dez dias em Maputo e oito dias na Beira. Em abas as cidades, vivi experiências únicas, especialmente em relação a projetos com bibliotecas públicas.

Ministrei uma palestra em uma universidade privada em Maputo, com a presença de profissionais das bibliotecas do distrito de Maputo. A palestra foi sobre formação de leitores, onde a biblioteca pública era o centro do desenvolvimento de projetos de formação dos hábitos de leitura. Fiquei impressionado com a presença de jovens profissionais das bibliotecas na palestra, vindos de perto, e outros de longe; e fascinado com o fato de que não apenas estavam ali para me ouvir, mas também para compartilhar experiências incríveis de dedicação e engajamento em prol do fortalecimento das bibliotecas públicas no processo de formação de leitores.

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Ficou muito claro para mim que Moçambique segue à procura de biblioteca pública, como espaço de formação de leitores! Ali, entre aqueles profissionais, ouvi experiências de projetos que se formam, crescem e se expandem apesar das difíceis condições de trabalho, de acesso ao transporte público, da infraestrutura precária das bibliotecas, da escassez de livros e de equipamentos de trabalho. 

Existem projetos de formação de leitores com crianças, onde os profissionais das bibliotecas vão até as casas levar a biblioteca pública para as famílias pobres das periferias, contar histórias para as crianças e incentivar à leitura e ao amor pelos livros.

Existem também bibliotecas públicas móveis, onde profissionais das bibliotecas levam livros pelos bairros e periferias de Maputo, incentivando à leitura, emprestando os poucos livros que têm, buscando estabelecer vínculo com as pessoas para que possam ajudá-las a entender a importância da leitura.

Alguns profissionais trabalham nas suas bibliotecas na criação de clubes de leitura. Mesmo sem experiência e conhecimentos de mediação, sem literatura para auto-aprendizagem, sem cursos para aprender sobre mediação de clubes de leitura e também sem recursos financeiros. Eles se esforçam para tornar as suas bibliotecas públicas lugares de leitura e de incentivo ao desenvolvimento de hábitos de leitura para a população.

Existem profissionais que alimentam sonhos de ter livros de literatura nas prateleiras de suas bibliotecas públicas no lugar de livros técnicos e didáticos. A busca pela biblioteca pública é uma luta diária dos profissionais das bibliotecas em Moçambique. Eles querem que a sua biblioteca seja um lugar vivo e dinâmico, um espaço de acolhimento, de experiências lúdicas e didáticas para crianças e jovens, um lugar de criação e de inovação, de aprendizagem, de encontros e de troca de experiências, um lugar de leitura onde todos possam encontrar obras de escritores moçambicanos, africanos e de outros países do mundo; onde possam participar de uma atividade literária, de um bate-papo com escritores e escritoras e de atividade artística ou cultural. 

Em Moçambique, o público procura por uma biblioteca pública onde possa entrar e descansar, acessar a internet e ouvir música tradicional moçambicana, pesquisar sobre notícias, sobre eventos que acontecem no mundo, procurar uma vaga de emprego, um tema da escola ou da universidade, jogar um jogo com um amigo, acessar um site para fazer um cadastro ou uma inscrição, buscar uma informação útil para resolver um problema, sentirem-se gente como qualquer pessoa na sociedade e no mundo contemporâneo.

Lá todos querem uma biblioteca pública que exista de verdade, que esteja aberta de verdade, que funcione de verdade, que tenha conteúdos de verdade, que seja biblioteca pública de verdade.

Quando pensamos em biblioteca pública, pensamos em um lugar de encontros, de experiências únicas, de liberdade; pensamos em um espaço vivo e dinâmico, em um lugar de leitura e de acessibilidade para todos, em um espaço de interação de pessoas e de experiências com livros, em um lugar de acolhimento para todos sem excepção.

Ricardo Queiroz Pinheiro, em artigo publicado no Jornal da USP, escreveu sobre a biblioteca pública o seguinte: “Essa é a falha que o discurso tecnocrático jamais reconhece: educação sem o cruzamento com a cultura não existe. A mediação da leitura — aquilo que a biblioteca pública fazia de modo silencioso e persistente — é o elo que a escola sozinha não alcança. Ler, no sentido pleno, nunca foi apenas decodificar letras; é participar de uma experiência coletiva, um gesto de partilha simbólica. É por isso que o desaparecimento das bibliotecas fere algo mais fundo do que o hábito: corrói o espaço onde a educação encontrava o mundo, onde o conhecimento se tornava vida comum.”

A biblioteca pública é um ecossistema de leitura, mas também de aprendizagem. É um parceiro da escola e da universidade, cujo papel na mediação do conhecimento ultrapassa a fronteira da aula e da leitura obrigatória. 

A biblioteca pública é também uma parceira do Estado, que através de políticas públicas exequíveis e financiamento adequado ajuda a criar oportunidades de desenvolvimento de cidadania para a população, de fortalecimento do conhecimento para os jovens, e da busca por informação de qualidade para todos. 

A biblioteca pública é parceira tambpem do mercado editorial. Ela contribui para promover o livro e a leitura, para criar oportunidades de descoberta sobre o valor e a importância do gosto pela leitura, para e estimular a produção literária, a escrita e a compra de livros. 

A biblioteca é o parceiro das famílias e da sociedade como um todo. É o espaço de acolhimento para as crianças nas horas livres da escola, da proteção dos jovens desempregados através da oferta de atividades e de experiências saudáveis, de apoio aos mais velhos na aprendizagem e no desenvolvimento de competências básicas para o dia a dia.

A biblioteca pública é o lugar de todos e para todos! 

Moçambique procura biblioteca pública, como ela também procura Moçambique! 

Que todos os que, como eu, amam esse país, se juntem e ajudem Moçambique a encontrar a biblioteca pública de verdade, a biblioteca que contribua para melhorar a vida de todos os cidadãos moçambicanos! 

A biblioteca pública sempre foi, continua a ser e sempre será o melhor parceiro da sociedade para acolher as pessoas, formar comunidades de interesse, instruir os jovens, oferecer oportunidades, criar cidadãos livres e críticos, disponibilizar acesso à informação e à leitura de qualidade.

A editoria Quilombo reúne textos opinativos. Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a visão da Alma Preta sobre quaisquer temas.

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  • Joaquim Matusse
    Atua na gestão de projetos e consultoria de bibliotecas e livros digitais. Trabalhou por mais de dez anos na área de museus e outros espaços culturais.

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