Moçambique completa, nesta quarta-feira, 25 de junho, 50 anos da sua independência do domínio colonial português, após mais de uma década de luta armada. O cinquentenário da libertação coincide com os seus congêneres – Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau (em 1973) e São Tomé e Príncipe – refletindo o caráter articulado dos processos de libertação diante de um inimigo comum. Tal como esperado, a efeméride tem sido assinalada com a devida pompa e circunstância, acompanhada de diversos eventos alusivos, como espetáculos artísticos, debates acadêmicos, competições esportivas, homenagens, etc. e devido ao seu caráter simbólico, o principal evento de comemoração deu-se no Estádio da Machava, o local onde, em 1975, Samora Machel proclamou a “independência total e completa de Moçambique e a sua constituição em República Popular de Moçambique”. Daí em diante, o estádio tornou-se um dos principais patrimônios culturais nacionais, ainda que não tenha sido oficialmente classificado como tal.
Nos anos e décadas seguintes, o local abrigou diversas competições ao nível nacional e internacional, sobretudo do campeonato e da seleção nacional de futebol, consolidando-se como a principal praça esportiva do país. Apelidado como o “cemitério dos estrangeiros”, o campo localizado nos arredores da cidade de Maputo, capital do país, recebeu partidas consideradas históricas como as qualificações para a Copa Africana de Nações no Egito (1986), África do Sul (1996) e Burkina Faso (1998), para além de diversos clássicos nacionais.
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Entretanto, a despeito da sua relevância histórica, um aspecto chama a atenção: o quase completo desconhecimento acerca da sua inauguração, ocorrida sete anos antes da independência do país. No dia 30 de junho de 1968, o estádio foi inaugurado com uma partida de futebol entre as seleções nacionais de futebol do Brasil e de Portugal, à época consideradas duas das melhores do mundo. Efetivamente, trata-se daquele que foi considerada por muito tempo como a melhor formação portuguesa de sempre, após a conquista do terceiro lugar na Copa de 1966, disputado na Inglaterra, sob o comando de dois jogadores nascidos em Moçambique: Mário Coluna (“Monstro Sagrado”, capitão da seleção e do Benfica) e Eusébio Ferreira da Silva (a “Pantera Negra”), artilheiro e vencedor da Bola de Ouro de 1965. Já do lado brasileiro, atuou a mítica equipe que veio a se consagrar campeã mundial dois anos depois, em 1970, no México. A partida terminou com vitória brasileira pelo placar de 2×0, com gols de Rivellino abrindo o marcador e Jairzinho. Assim foi inaugurado aquela que foi então considerada uma das mais modernas estruturas poliesportivas em todo o continente africano, como símbolo de “progresso e desenvolvimento”.

Apesar do caráter um tanto inusitado do evento, está longe de se tratar de uma mera curiosidade futebolística, dados os contornos políticos que o envolvem. Acima de tudo, a inauguração do estádio foi um grande ato de propaganda do regime colonial português, num momento em que este vinha sofrendo pesadas críticas na opinião pública global. Efetivamente, em fins da década de 1960, a maioria dos países africanos já havia conquistado a sua independência, na esteira de uma onda iniciada em 1957, no Gana. E em Moçambique não era diferente: desde 1964 já havia sido desencadeada a chamada “Luta Armada de Libertação Nacional”, liderada pela Frelimo – Frente de Libertação de Moçambique (força política que governa o país desde a independência aos dias de hoje). E assim era também em outras colônias, sobretudo em Angola e Guiné-Bissau, onde se travaram os mais duros combates, com grande baixas para as tropas portuguesas.
Bastante significativo do caráter propagandístico da inauguração, foi o nome atribuído à obra: “Estádio Salazar”, em homenagem ao então primeiro-ministro de Portugal, líder do regime colonial-fascista desde o ano de 1926. Entretanto, este não compareceu ao evento como estava anteriormente programado, alegadamente por razões de saúde. Outros ilustres ausentes ao evento foram as principais estrelas: Eusébio, do lado português e, do lado brasileiro, ninguém menos que o seu jogador mais celebrado, Pelé. Apesar dos grandes desfalques, a então cidade de Lourenço Marques teve a oportunidade de presenciar um espetáculo de classe mundial proporcionado pelas duas equipes, embora a imprensa local da época tenha registrado um jogo morno diante do público estimado em cerca de 90 mil pessoas, que lotou o estádio.
Como resposta às críticas internacionais por conta da manutenção de colônias em África, o regime português lançou mão de uma narrativa ideológica baseada na ideia de continuidade identitária entre a então “Metrópole” e as suas “províncias ultramarinas”, conforme a nomenclatura oficial. Trata-se de um discurso que pregava tal unidade sob o argumento de uma certa aptidão inata do povo português para se relacionar, se misturar e se adaptar aos povos e territórios sob seu domínio, num ambiente de convivência cordial. É importante registrar que tal falácia ideológica contou com a colaboração ativa do eminente sociólogo brasileiro Gilberto Freyre que, inclusive, realizou um périplo pelas tais “províncias” entre os anos de 1951 e 1952, financiado pelo governo de Salazar. Como resultado destas viagens, Freyre publicou diversas obras apologéticas do regime, baseando-se nas suas obervações de campo enviesadas, feitas em ambientes controlados pela administração colonial.
Desta fase da sua trajetória intelectual, surgiu o conceito de “lusotropicalismo”, nada mais que um discurso ideológico produzido com o objetivo de legitimar o colonialismo tardio português e que, de certa forma, constitui uma consequência lógica da ideia de “democracia racial” atribuída à sua visão sobre o próprio país. Mas esta é uma outra e longa discussão. O fato é que, estranhamente (ou não), a parte lusotropicalista da obra de Freyre é bastante desconhecida no Brasil, mesmo nos meios acadêmicos mais conceituados. No entanto, além de ser fartamente documentada e editada, foi largamente utilizado como instrumento ideológico do regime salazarista ao longo das décadas de 1950 e 1960. Um dos seus argumentos de força era a contraposição discursiva com o regime do apartheid praticado na vizinha África do Sul, considerado, esse, sim, com uma verdadeira prática racista devido ao caráter formal e explícito com que se apresentava. Ao contrário, o lusotropicalismo pregava uma falsa convivência harmoniosa entre colonizador e colonizados, facilmente desmentida pelos fatos evidentes de discriminação, violência e exploração das populações sob seu domínio em África.

Em aparente contradição com este aspecto, o convidado de honra para a inauguração do estádio foi justamente a África do Sul, presente ao evento com uma performance artística das suas “marjorettes”. Na realidade, a troca de gentilezas entre os dois regimes é antiquíssima e tem como um dos principais símbolos a Rosa dos Ventos presente no Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa, uma oferta do governo sul-africano no ano de 1960. Ainda mais contundente foi o regime de exploração da mão-de-obra dos trabalhadores moçambicanos nas minas de ouro e diamante da África do Sul, cujo salário era retido em parte pela administração portuguesa. Tal prática de trabalho forçado, conhecida localmente como “chibalo”, era o principal mecanismo da exploração colonial e, durante décadas, a sua principal fonte de receita.
Voltando ao jogo, a questão que se coloca é o seu amplo silenciamento nos três países envolvidos. Como tentativas de explicação, podemos avançar algumas hipóteses: no caso do Brasil (que vivia então sob uma ditadura militar), provavelmente o incômodo de associar um importante símbolo nacional – a seleção brasileira de futebol – a um ato de propaganda de um regime fascista; e no caso português, a notória dificuldade por parte da sociedade em lidar com o seu passado colonialista. Já no caso moçambicano, trata-se de um esforço deliberado de apagar referências históricas do colonialismo como mecanismo de construção de uma identidade nacional, sobretudo nos primeiros anos após a independência. Se por um lado, tal esforço justificou-se pela necessidade de contraposição à força histórica do discurso colonial legitimada pelo cristianismo e pelo racismo científico, também é verdade que o desconhecimento sobre fato tão importante da História recente do país não contribui para o seu melhor entendimento, especialmente para as novas gerações.
Existe, portanto, uma grande necessidade de resgatar esta história do esquecimento a que foi relegada, pelas diferentes razões apontadas nos três países. No caso brasileiro, trata-se de um importante registro histórico sobre a mítica seleção de 70 e, provavelmente, o primeiro jogo da equipe canarinha em território africano (berço ancestral de parte significativa da sua população); no caso de Portugal, a rememoração do evento ocorre num momento em que há, em certos setores da sociedade, uma reflexão crítica sobre o passado colonial. E, por último — e mais importante — no caso de Moçambique, não se pode sonegar à sociedade o conhecimento profundo acerca do seu próprio patrimônio cultural, mesmo que parte deste tenha se construído (literalmente) durante o período colonial.
Enfim, desde 2011, o famoso estádio deixou de ser a principal praça esportiva do país, passando a posição para o Estádio do Zimpeto, construído para abrigar as competições dos XI Jogos Africanos, disputados em Maputo. Atualmente, depois da reforma para a cerimônia oficial da celebração do cinquentenário da Independência, o estádio se prepara para voltar a receber jogos do campeonato nacional de futebol, a partir de outubro. Porém, sem condições de receber jogos de classe internacional, em flagrante contraste com a sua origem “nobre”.