Tenho escrito vários artigos sobre tendências de inovação em bibliotecas públicas, defendendo a necessidade de tornar as bibliotecas modernas, vivas e dinâmicas. Além disso, a ideia de inovação em bibliotecas traz a necessidade de introduzir novos serviços para os públicos que as frequentam. Neste sentido, é importante olhar para as bibliotecas como espaços de serviços direcionados para o perfil do público que circunda o espaço onde a biblioteca está implantada.
Neste artigo, gostaria de abordar a questão do humor como instrumento de inovação em bibliotecas públicas do século XXI. Precisamos olhar para as bibliotecas modernas como lugares de leitura, descanso, aprendizado, busca de informação qualificada, lugares de encontro entre pessoas, mas também como espaços onde o humor e diversão são parte intrinseca para atração de público ou para a divulgação dos seus conteúdos.
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Hoje em dia, as redes sociais como o Instagram ou o Facebook utilizam o humor de forma eficaz na atração dos seus públicos e para a divulgação de informação de forma atrativa. Neste sentido, a biblioteca deve integrar as redes sociais e a internet como instrumentos de extensão dos seus serviços ou como meios de divulgação dos seus conteúdos e programas oferecidos ao público. Tenho dito várias vezes que a biblioteca moderna é física e digital, ou seja, a biblioteca atual deve ser híbrida, oferecendo serviços de forma física e digital, livros em papel e em formato digital, para atender às necessidades particulares e específicas dos leitores da era digital.
Berit Glanz, em seu artigo intitulado “Bibliotecas em ótimo clima”, fala sobre a presença das bibliotecas em redes sociais. Ele demonstra como as bibliotecas estão ficando atrás na vanguarda da inovação na forma de midiatização dos seus serviços e conteúdos. As bibliotecas públicas precisam despertar para a importância das redes sociais como parceiras cruciais no processo de transmissão do conhecimento, de divulgação dos seus serviços e conteúdos, e de existir como equipamentos de serviço público na era digital e da Inteligência Artificial.
Berit, diz que “as redes sociais prosperam com exageros e emoções fortes – algo que não é da alçada de bibliotecas e outras instituições públicas”. Isto significa que as bibliotecas ainda olham para as redes sociais como instrumentos à parte do processo de transmissão do conhecimento e de comunicação. Para ele, “essa tendência está atualmente em alta no TikTok e no Instagram. A piada se baseia na suposição de que as pessoas que são tema de livros são particularmente interessantes, inteligentes, engraçadas ou atraentes — heroínas únicas, em resumo. Em vez disso, os vídeos dessa tendência geralmente terminam com títulos de livros que desafiam essa expectativa: entre eles, livros infantis como Eu Odeio Todo Mundo, de Naomi Danis, ou O Monstro Mais Feio do Mundo, de Luis Amavisca e Erica Salcedo; clássicos como O Idiota, de Fiódor Dostoiévski, ou O Avarento, de Molière; ou livros de não ficção como A Louca no Sótão, de Sandra Gilbert e Susan Gubar”.
De fato, os livros presentes nas bibliotecas apresentam gêneros diferentes, desde o romance, a poesia, o conto, o humor, a sátira e outros. Desse modo, a biblioteca precisa refletir a diversidade do seu acervo, conteúdos e serviços, de forma criativa.
Nas bibliotecas modernas, as estantes de forma bem humorada. “É também notável que essa tendência funcione particularmente bem quando os protagonistas dos vídeos caminham pelos corredores da biblioteca, pegam livros das prateleiras e os mostram para a câmera. Inúmeras instituições de países de língua inglesa já participaram, com seus funcionários apresentando livros de forma bem-humorada, que servem como caricaturas autodepreciativas. Como bônus, esses vídeos mostram a incrível variedade de tesouros literários encontrados em bibliotecas públicas”, acrescenta Glanz.
Os mangás são, por exemplo, considerados um gênero mais conectado com o público mais jovem. No mesmo artigo, Glanz apresenta um caso bem interessante de uma idosa que foi pegar emprestado um livro em uma biblioteca de uma cidade pequena. O caso foi na Biblioteca Pública de Milwaukee, cujo vídeo de 2022 , no qual uma senhora idosa escolhe seu mangá, foi visualizado mais de 800 mil vezes. No vídeo viral, ela contradiz a afirmação de que não se deve ler mangá aos 78 anos, retrucando que tem 90 e mostrando o dedo do meio (pixelizado).
Glanz conclui afirmando que “é justamente essa alegria cotidiana e paixão pelo trabalho que parece ser particularmente atraente para muitas pessoas online neste momento. O fato de serem bibliotecas, que em muitos países enfrentam atualmente considerável pressão financeira, são afetadas por debates sobre a proibição de livros e, ao mesmo tempo, desempenham uma função pública extremamente importante, torna esses vídeos ainda mais cativantes.”
Num artigo sobre o XXIII Seminário Nacional de Bibliotecas Universitárias, Igor Falce Dias de Lima defende a mesma ideia de que o humor faz parte da biblioteca. Na introdução do artigo ele diz que “nos últimos anos, as mídias sociais se consolidaram como ferramentas fundamentais para o marketing nas bibliotecas, transformando a maneira como divulgam seus produtos e serviços. Por meio de plataformas como Instagram, Facebook e TikTok, as bibliotecas ampliaram seu alcance, aproximando-se de seus respectivos públicos e fortalecendo sua presença no ambiente digital. Nesse contexto, a escolha da linguagem utilizada nas publicações tornou-se uma estratégia essencial de engajamento. Isto porque, adotar uma comunicação acessível, atrativa e alinhada às características da mídia e do público-alvo é decisivo para despertar o interesse, promover a interação e construir uma imagem moderna e dinâmica da biblioteca.”
É imprescindível entender que a forma de comunicação e de compartilhar a informação mudou, e a biblioteca precisa se integrar neste novo modelo de comunicação, sob pena de não conseguir prestar de forma eficiente e eficaz os serviços a que se pretende prestar ao público. Lima e Castro (2016), ao analisarem a linguagem na cibercultura, apontam que as formas de comunicação estão sempre se expandindo: a utilização de mídias sociais digitais para a divulgação da biblioteca e de seus acervos não modificou a comunicação de maneira radical, apenas trouxe uma adaptação das abordagens tradicionais usadas para a divulgação da biblioteca e de seus serviços, atualização da linguagem adotada nas mensagens, disponibilização de imagens, tanto estáticas quanto dinâmicas, utilização de mensagens em forma de áudio e músicas, enfim, houve apenas um enriquecimento dos recursos disponíveis e uma adequação desses recursos aos meios que os distribuem. Esse rearranjo é a base do sucesso da comunicação (Gottschalg-Duque, 2016, p. 172).
Nesse novo modelo de comunicação e de informação, o bibliotecário deve estar atento às interações de seus usuários para que a produção de conteúdo seja mais estratégica. O papel do bibliotecário deixou de ser estático, em que o profissional atende as demandas solicitadas pelo usuário da biblioteca, e passou a ser dinâmico, proativo e com espírito de iniciativa, indo ao encontro do usuário nos espaços em que ele se encontra e procura informação. Em outras palavras, precisamos estar atentos ao que nossos usuários estão consumindo culturalmente no ciberespaço.
De Lima acrescenta que assim as bibliotecas precisam se adaptar no espaço digital, criando conteúdos que dialoguem com essas novas dinâmicas. O uso de novos recursos textuais, como posts interativos, vídeos e memes são respostas a essas mudanças, permitindo que a biblioteca se mantenha relevante, engaje seu público e acompanhe a constante evolução das formas de comunicação e interação nas redes sociais. Esse novo papel da biblioteca, é crítico, se a biblioteca quiser continuar relevante e presente no atendimento ao leitor da sociedade digital.
Os memes, nesta conjuntura, podem ser compreendidos “como conteúdos que viralizam em conversações e em postagens nas mídias sociais digitais […] e, a partir disso, vão se tornando conhecidos e, ao mesmo tempo, sendo recriados pelo público.” (Souza, 2019, p. 32). Para Lima e Castro (2016, p. 41), “o próprio ciberespaço é um ambiente que favorece […] a criação e circulação dos memes digitais, possibilitando aos interlocutores criarem e editarem esses textos, não só retextualizando-os, mas também proporcionando novas versões.”
Portanto, a biblioteca pública precisa do ciberespaço como ambiente de atuação e de sobrevivência. É nas mídias sociais que a biblioteca se encontra e se conecta com o leitor e oferece os seus serviços, conhecimento e informação de forma humorada, dinâmica e eficaz. Nesta perspectiva, ao incorporarem os memes à sua estratégia de marketing, as bibliotecas adquirem a oportunidade de adaptar seus conteúdos tradicionais nas mídias sociais, os tornando mais atrativos e alinhados com os novos comportamentos comunicativos de seus usuários.
Que a biblioteca moderna seja bem humorada, presente e viva, como instrumento indispensável de cidadania e de informação qualificada para atender o usuário do século XXI.
Bibliografia
De Lima, Igor Falce Dias. Os memes como estratégia de marketing na biblioteca de Manguinhos: abordagem de humaniza e engaja.
Glanz, Berit. Bibliotecas em ótimo clima. Disponível aqui.