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Carolina de Jesus, Conceição Evaristo e tradições afro-brasileiras: negritude é tema de 14 dos 28 enredos do Carnaval do Rio

Grupo Especial tem seis escolas com narrativas negras, enquanto a Série Ouro leva oito; escritoras, líderes religiosos e resistência periférica serão celebrados na Sapucaí
Combinação de duas imagens das escritoras Carolina Maria de Jesus (à esquerda) e Conceição Evaristo (à direita).

Combinação de duas imagens das escritoras Carolina Maria de Jesus (à esquerda) e Conceição Evaristo (à direita).

— Reprodução e Fernando Frazão/Agência Brasil/Arquivo

12 de fevereiro de 2026

O Carnaval do Rio de Janeiro de 2026 terá um grande número de enredos negros na Sapucaí. Das 28 escolas que desfilam entre o Grupo Especial e a Série Ouro, 14 desenvolvem temas que têm a negritude como eixo central. As narrativas abordam autoras negras, lideranças religiosas, intelectuais, artistas e territórios periféricos, além de ritos de matriz africana e manifestações culturais historicamente marginalizadas.

Os desfiles oficiais ocorrem entre 13 e 21 de fevereiro na Marquês de Sapucaí. Pelo segundo ano consecutivo, o Grupo Especial mantém o formato de três noites de apresentações. Cada escola dispõe de dez minutos adicionais para seus enredos. 

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A Série Ouro abre a programação na sexta (13) e no sábado (14), com 16 agremiações. O Desfile das Campeãs encerra o evento em 21 de fevereiro.

Grupo Especial tem seis enredos negros

A Portela desenvolve “O Mistério do Príncipe do Bará – A oração do Negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande”. A escola leva para a avenida o Príncipe Custódio, figura histórica e espiritual do Rio Grande do Sul. Nascido na África, trazido como escravizado e posteriormente alforriado, Custódio organizou os fundamentos do Batuque no século XIX, religião de matriz africana que se estruturou em terras gaúchas. O enredo rompe com a centralidade das narrativas afro-brasileiras no eixo Rio-Bahia e ilumina a ancestralidade negra no Sul do país.

A Mangueira apresenta “Mestre Sacaca do Encanto Tucuju – O Guardião da Amazônia Negra”. A escola exalta Mestre Sacaca, curandeiro e liderança afro-indígena do Amapá. O desfile recupera o Turé, ritual de agradecimento a entidades espirituais, e apresenta Sacaca como xamã e babalaô. O enredo celebra os saberes das populações da floresta, a cura por folhas e raízes e a resistência cultural dos povos tucujus, como se denominam os habitantes do Amapá.

A Beija-Flor leva “Bembé” para a Sapucaí. A escola apresenta o Bembé do Mercado, cerimônia realizada em Santo Amaro da Purificação, na Bahia, considerada o maior Candomblé de rua do mundo. Criado em 1889, um ano após a abolição formal da escravatura, o evento reúne mais de 60 terreiros de matriz africana para rememorar a luta pela liberdade do povo negro no Recôncavo Baiano. A edição de 2026 marca 137 anos da celebração.

A Unidos da Tijuca escolheu “Carolina Maria de Jesus“. A escola homenageia a escritora mineira e propõe um desfile que afirme sua identidade como “a escritora que foi favelada” e não o contrário. Autora de “Quarto de Despejo”, um dos livros mais impactantes da literatura brasileira, Carolina teve sua trajetória marcada por apagamento histórico e por rótulos que reduziram sua obra à condição de miséria. 

Já a Paraíso do Tuiuti aposta em “Lonã Ifá Lukumi“. A escola aborda a religião afro-cubana Ifá Lukumi, redescoberta no Brasil nas últimas décadas. O enredo parte do jogo de búzios e do cordão de Orumilá, divindade que conhece passado, presente e futuro. As oito peças do cordão, ao serem lançadas, desenham sinais que revelam caminhos. O desfile propõe uma reflexão sobre destino e ancestralidade a partir dessa tradição religiosa.

A Unidos de Vila Isabel apresenta “Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um Sambista Sonhou a África”. A escola homenageia Heitor dos Prazeres, figura central na formação do samba carioca. Fundador de cinco escolas (Mangueira, Portela, Unidos da Tijuca, Vizinha Faladeira e Deixa Falar), Heitor foi também compositor, pintor, costureiro e cenógrafo. 

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A Unidos do Jacarezinho homenageia Xande de Pilares com o enredo “O ar que se respira agora inspira novos tempos!“. Compositor e intérprete, Xande é reconhecido como um dos grandes nomes do samba contemporâneo. O desfile percorre sua carreira, das interpretações marcantes às composições vencedoras em disputas de samba-enredo, e destaca sua contribuição para a cultura do samba carioca e brasileiro.

A Unidos de Bangu celebra Leci Brandão em “As coisas que mamãe me ensinou“. Cantora, compositora e deputada estadual, Leci construiu uma trajetória de resistência e afirmação negra no samba e na política. O enredo parte dos ensinamentos transmitidos por sua mãe para percorrer sua vida e obra, marcadas pela luta por igualdade e justiça social.

A Em Cima da Hora exalta as Pombagiras em “Salve Todas as Marias – Laroyê, Pombagiras!”. As entidades femininas das religiões afro-brasileiras, historicamente estigmatizadas, são tratadas no enredo como símbolos de transgressão e autonomia. O desfile recupera a imagem das Pombagiras como mulheres livres, independentes, que desafiaram normas sociais e conquistaram espaço de poder e respeito na Umbanda e na Quimbanda.

O Arranco do Engenho de Dentro recupera a trajetória de Maria Eliza Alves dos Reis, a Palhaça Xamego, em “A Gargalhada é o Xamego da Vida“. Em uma época que impedia mulheres de atuarem como palhaças, Maria Eliza se apresentou trajada de homem e construiu uma carreira de três décadas no Circo Teatro Guarany sem revelar sua identidade. 

O Império Serrano homenageia Conceição Evaristo com “Ponciá Evaristo – Flor do Mulungu”. Professora e escritora mineira, Conceição foi eleita para a Academia Mineira de Letras em 2024. O enredo parte do conceito de “escrevivência“, criado pela autora, que valoriza as experiências pessoais e coletivas das mulheres negras como matéria literária. O desfile percorre sua obra e sua trajetória, marcada pela passagem de empregada doméstica a doutora em Literatura Comparada.

Já Estácio de Sá celebra Tancredo da Silva Pinto em “Tata Tancredo – O Papa Negro no Terreiro do Estácio”. Escritor e compositor, Tata Tancredo é reconhecido como organizador do culto Omolocô no Brasil. Nascido em Cantagalo em 1905, ele sistematizou práticas e fundamentos que aproximaram o candomblé da umbanda. O enredo recupera sua contribuição à cultura afro-brasileira e seu papel como liderança religiosa.

A União de Maricá aborda a joalheria negra no Brasil colonial e imperial com “Berenguendéns e Balangandãs“. Os balangandãs — conjuntos de berloques e correntes produzidos e usados por mulheres negras — são apresentados como mais do que adornos. O enredo trata esses objetos como símbolos de resistência, identidade e cultura, produzidos em ouro e prata por ourives negros e utilizados em contextos de escravidão e pós-abolição.


A Unidos da Ponte exalta os bailes black e o tamborzão em “Tamborzão – O Rio é Baile, o Poder é Black!”. O enredo parte da estética dos bailes funk, historicamente marginalizada, para afirmá-la como expressão de realeza e identidade das favelas. O desfile percorre a trajetória do tamborzão, ritmo periférico que atravessa gerações, territórios e fronteiras, e consolida os bailes como protagonistas da história cultural do Rio de Janeiro.

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  • Giovanne Ramos

    Jornalista multimídia formado pela UNESP. Atua com gestão e produção de conteúdos para redes sociais. Enxerga na comunicação um papel emancipatório quando exercida com responsabilidade, criticidade, paixão e representatividade.

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