As mulheres sempre estiveram presentes no cenário das artes e das letras, inclusive atuando como escritoras, e entre as pioneiras no Brasil está Maria Firmina dos Reis (1822-1917), “[…] a primeira mulher brasileira a ter um romance publicado”, segundo o pesquisador, artista e intelectual Nei Lopes, em a Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana.
Natural de São Luís/MA, em 1859 ela publicou ‘Úrsula’ e, assim, sem pretensão, acabou por abrir caminho para que muitas outras mulheres, negras e não negras, pudessem, por meio da ficção ou da realidade, dizer como enxergam o mundo.
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Nas primeiras páginas do livro – no prólogo, que ficou amplamente conhecido por não só dar voz e sentimentos profundamente humanos aos escravizados — o que, para a época e, infelizmente, para os dias atuais, ainda é um desafio —, ela parece questionar ou não acreditar na força de sua obra.
“[…] Sei que pouco vale este romance, porque escrito por uma mulher, e mulher brasileira, de educação acanhada e sem o trato e a conversação dos homens ilustrados, que aconselham, que discutem e que corrigem, com uma instrução misérrima, apenas conhecendo a língua de seus pais, e pouco lida, o seu cabedal intelectual é quase nulo”.
Prefiro acreditar que, apesar de transparecer pouca confiança no seu próprio texto, ela também faz uma dura crítica à liberdade masculina e à erudição da época. Aliás, pensamento crítico e erudição não parecem que lhe faltam. “[…] O sol é como o homem maligno e perverso, que bafeja com hálito impuro a donzela desvalida, e foge, e deixa-a entregue à vergonha, à desesperação, à morte! – e depois, ri-se e busca outra, e mais outra vítima”. E, um pouco mais adiante, também nas primeiras páginas, quando introduz a figura do Túlio, ela deixa esse rojão: “[…] Senhor Deus! Quando calará no peito do homem a tua sublime máxima – ama teu próximo como a ti mesmo – , e deixará de oprimir com tão repreensível injustiça o seu semelhante, aquele que também era livre no seu país… aquele que é seu irmão?’.
Entre as muitas análises sobre a obra e a importância de Maria Firmina dos Reis para a literatura brasileira está o posfácio assinado pela pesquisadora e professora Ana Flávia Magalhães Pinto, em uma edição lançada em 2018 pela editora Taverna. Ela comenta: “[…] o modo como a escritora incorpora em sua narrativa a experiência da escravidão faz de Úrsula um texto singular entre os romances abolicionistas, tido em conta até mesmo como obra inaugural. Na trama que tem ao centro os percalços do amor romântico entre Úrsula e Tancredo − dois jovens brancos de família de tradição escravista −, mulheres e homens livres e escravizados estão submetidos e em constante confronto com o autoritarismo masculino de escravistas chefes de família”.
Isso só me faz pensar que Maria Firmina dos Reis bem que poderia ter sentado entre os imortais da Academia Brasileira de Letras, fundada em 1897, mas a presença de mulheres naquele espaço é algo recente — mulher e negra é coisa só do ano passado, quando Ana Maria Gonçalves, autora do célebre ‘Um defeito de cor’, assumiu a Cadeira nº 33, na sucessão de Evanildo Bechara.
Apesar do reconhecimento tardio de sua importância, o próprio Nei Lopes ainda acrescenta, no verbete dedicado a ela em sua enciclopédia, que toda mulher inteligente e bem-informada, lá no Maranhão, é identificada como uma “Maria Firmina”.
Lançamentos de mulheres no março das negras
Afrofeministamente, de Yolanda Arroyo Pizarro, publicado pela Editora Malê. Em Afrofeministamente, a escritora porto-riquenha Yolanda Arroyo Pizarro articula poesia, memória e política para confrontar o apagamento das contribuições africanas na cultura antilhana. A obra mobiliza uma escrita lírica e insurgente que reivindica a centralidade das mulheres negras na história de Porto Rico e propõe um processo de “autoafro-reparação”, no qual a linguagem poética funciona como instrumento de cura frente às violências do racismo e do machismo. Alternando entre canções, invocações espirituais e manifestos políticos, o livro constrói uma cosmologia estética e afetiva da negritude — evocando referências históricas como Celestina Cordero e reafirmando identidades como a afroboricua. Na edição brasileira, traduzida por Jéssica Saraiva, o texto preserva termos em iorubá e espanhol regional, mantendo a musicalidade e a densidade cultural que marcam a obra e ampliando os diálogos entre a experiência afro-caribenha e a afrodescendência brasileira.
Palavras e Sabores, de Suzi Soares, publicado pelo selo Sarau do Binho, transforma a cozinha em linguagem narrativa para registrar memórias, vínculos e a potência dos encontros que atravessam a cena cultural periférica. O livro reúne 20 receitas — entre doces e salgadas — acompanhadas por textos que a autora chama de “afetos”, escritos por pessoas que compartilharam sua mesa ao longo dos anos. A obra funciona como um retrato da cultura construída nos territórios, onde comida, literatura e convivência se entrelaçam. Ao apostar em preparos simples e cotidianos, Suzi Soares reafirma o ato de cozinhar como gesto de cuidado, resistência e construção coletiva, deslocando a lógica utilitária da alimentação para um campo onde o que está em jogo é também memória, pertencimento e afeto.
Monstruosa, de Amanda Julieta, publicado pela ParaLeLo13S. Em Monstruosa, a escritora Amanda Julieta reúne contos que exploram as experiências de mulheres negras lésbicas e bissexuais a partir de narrativas que combinam prosa poética, fluxo de consciência e fragmentação narrativa. Ambientadas em contextos atravessados por racismo, lesbofobia, violência policial e precarização da vida, as histórias transitam entre o íntimo e o coletivo para retratar afetos, conflitos e estratégias de sobrevivência. O próprio título da obra funciona como um gesto de deslocamento crítico, questionando estigmas históricos atribuídos a mulheres que amam outras mulheres e propondo novas formas de leitura desses corpos e relações. Ao articular memória, desejo, cuidado e reinvenção, Monstruosa apresenta o amor entre mulheres não apenas como experiência afetiva, mas como força política e como tecnologia de sobrevivência em contextos de violência e exclusão.
Treze Mulheres Contemporâneas, Treze Poemas Cada, antologia organizada pela escritora e pesquisadora indígena Márcia Mura e publicado pela Georgois Livros, reúne autoras de diferentes territórios, gerações e identidades para refletir sobre a experiência das mulheres no Brasil contemporâneo. O livro destaca a presença de poetas negras, indígenas, ciganas e de outras origens que utilizam a poesia para denunciar violências, registrar memórias e afirmar formas de existência que resistem ao racismo, ao patriarcado e às desigualdades sociais. Os poemas dialogam entre si como um mosaico de vozes que abordam dor, revolta e esperança, reafirmando a escrita como instrumento de resistência, afirmação identitária e construção de novos horizontes coletivos.
A Festa da Cindy, de Jade Lyrio apresenta ao público infantil a história da festa organizada por Cindy Campbell em 1973, no Bronx, episódio frequentemente associado ao surgimento do hip hop. A narrativa recupera o protagonismo de uma jovem negra que, ao mobilizar sua comunidade para realizar um evento no bairro, acabou impulsionando um movimento cultural que se tornaria global. Com linguagem acessível e abordagem lúdica, o livro propõe ampliar as referências apresentadas às crianças, destacando o papel das mulheres negras na história da cultura urbana e evidenciando como criatividade, coletividade e experiências da diáspora — como a influência da cultura jamaicana — estiveram na base do nascimento do hip hop. A obra também dialoga com temas como pertencimento cultural, educação antirracista e valorização das expressões criadas nas periferias.