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‘Raça não é biologia, é um dispositivo social que produz desigualdades’, diz Bárbara Carine sobre novo livro

Em entrevista à Alma Preta, autora vencedora do Jabuti analisa a racialidade brasileira, a escravidão ontológica e o movimento que tenta desidratar as políticas de cotas no país
A autora e pesquisadora Bárbara Carine, em foto preto e branco.

A autora e pesquisadora Bárbara Carine, em foto preto e branco.

— Reprodução/Gabriel Cerqueira

28 de abril de 2026

A professora, escritora e pesquisadora Bárbara Carine lançou, em fevereiro, o livro “Raça Social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira”. A obra chega após o sucesso de “Como ser um educador antirracista”, vencedor do Prêmio Jabuti 2024 na categoria Educação. 

Na nova publicação, a professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA) aprofunda o debate sobre a construção da raça no Brasil e seus efeitos na estrutura social do país.

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O livro discute temas como a escravidão ontológica brasileira (a ideia de que a pessoa negra foi destituída de humanidade para justificar sua exploração), a ausência de políticas reparatórias após a abolição e os constantes ataques às cotas raciais. 

Carine também analisa o chamado “movimento neopardo”, grupo formado por pessoas que reivindicam o termo “pardo” fora do campo da negritude e que, segundo a autora, tensiona políticas públicas conquistadas historicamente.

Em entrevista à Alma Preta, Bárbara Carine fala sobre a distinção entre os termos “escravo” e “escravizado”, explica por que raça no Brasil é uma construção social e visual (não genética) e responde a quem ainda insiste na narrativa de que “raça não existe” — temas abordados em sua obra mais recente.

A autora também analisa o momento político atual, marcado por tentativas de desidratar as cotas raciais no país, e detalha os quatro grupos que compõem o chamado movimento neopardo.

A autora defende o conceito de raça social como chave para compreender o Brasil (Foto: Reprodução/Redes Sociais)

Escravidão ontológica e reparação

Em seu novo livro, Carine opta por diferenciar os termos “escravo” e “escravizado” e explica as razões dessa distinção. “O termo ‘escravo’ carrega uma marca ontológica. A palavra sugere que a essência da pessoa negra seria nascer para servir, como se essa condição fosse natural. A escravidão no Brasil foi construída a partir desse marcador ontológico, por meio de um processo de destituição de humanidade”, argumenta a autora.

Carine adota “escravizado” para indicar um sujeito que sofre uma ação praticada por outro agente. “O termo ‘escravo’ não explicita essa relação de ação e responsabilidade. Não aponta para quem praticou a violência, nem para a responsabilidade histórica de grupos sociais nesse processo.”

A autora conecta esse passado às lutas atuais citando que, após o fim da escravidão, os senhores tiveram reparação financeira, ao contrário da população escravizada. 

“Ainda hoje parece que patinamos no gelo quando estamos construindo esses processos a partir dos movimentos sociais negros organizados”, diz.

Para ela, ainda hoje se tenta provar a necessidade da cota no Brasil, principalmente em um momento de retrocessos como o governo de Santa Catarina, que tentou acabar com a política no estado. “Felizmente era inconstitucional. Mas a gente está ainda lutando por questões mínimas, que é o acesso ao espaço de poder.”

Leia mais: Preto, pardo, negro, branco, indígena: quem é o que no Brasil?

Raça como construção social e visual

Carine explica que o título do livro já estabelece uma posição conceitual sobre o debate racial brasileiro e suas especificidades: “Raça Social significa que, no Brasil, a raça é informada pela sociabilidade, e não por marcadores genéticos, como ocorreu em outros momentos da história, sobretudo no campo das ciências biomédicas.”

A autora recupera o debate iniciado pela filósofa Sueli Carneiro sobre o “dispositivo de racialidade”. Esse dispositivo se organiza a partir da aparência. 

“Trata-se do que se convencionou chamar de racismo de marca – um racismo fundamentado na dimensão estética. A população negra brasileira precisa compreender esse mecanismo. No Brasil, vive-se pela estética e, muitas vezes, também se morre por ela”, explica.

Carine explica que a racialidade no Brasil se estrutura a partir de uma leitura fenotípica. Para ela, a sociedade define a racialidade: “Mesmo que uma pessoa não se reconheça como negra, a sociedade pode identificá-la dessa forma e tratá-la como tal.” 

O mesmo pode acontecer com alguém que não se reconhece como branco, mas é lido socialmente como branco e tende a acessar os privilégios associados à branquitude.

O livro dedica dois capítulos a perguntas como quem é considerado branco no Brasil e o que é ser negro no país. Para a pesquisadora, ser socialmente branco implica ter livre circulação nos espaços sociais, não ser associado constantemente ao crime, ser alvo constante de abordagens policiais, não ser seguido em lojas ou ter pertences revistados. “Trata-se de estar, em certa medida, acima da suspeita social.”

A escritora aponta que pessoas negras enfrentam o que a literatura brasileira chamou de “defeito de cor”: “Elas carregam uma marca social que as associa, de forma injusta, à suspeita e ao descrédito. São mais frequentemente vigiadas, abordadas e têm sua competência e capacidade intelectual questionadas.”

O movimento neopardo

O livro “Raça Social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira”, segundo autora, foi construído para chegar ao debate sobre o chamado “movimento neopardo”, que ganhou um capítulo na obra. Carine identifica quatro grupos principais desse movimento.

O primeiro grupo é formado por pessoas brancas que buscam se beneficiar de políticas de ação afirmativa por meio da autodeclaração como pardas. O segundo grupo reúne pessoas brancas que, ao tomar contato com a história de violência associada à sua ancestralidade, sentem desconforto e deixam de se identificar como brancas.

O terceiro grupo inclui pessoas de fenótipo ambíguo, lidas de formas diferentes a depender do contexto territorial. O quarto grupo envolve pessoas classificadas institucionalmente como pardas, mas reconhecidas como indígenas por seus próprios povos.

Carine argumenta que, ainda que por motivações distintas, esses grupos contribuem para tensionar políticas públicas construídas historicamente. “Meu objetivo é desarticular esse movimento por meio de argumentos.”

A autora propõe diálogo com esses grupos. Para pessoas brancas que não desejam se identificar como tais, ela reconhece o desconforto histórico, mas ressalta que o passado não pode ser alterado. 

“O que pode ser transformado é o presente, por meio de uma atuação comprometida com a luta antirracista. A crítica não é à pessoa branca em si, mas ao sistema de privilégios associados à branquitude”, conclui.

Leia mais: Cores da identidade: desafios e complexidades do colorismo

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  • Giovanne Ramos

    Jornalista multimídia formado pela UNESP. Atua com gestão e produção de conteúdos para redes sociais. Enxerga na comunicação um papel emancipatório quando exercida com responsabilidade, criticidade, paixão e representatividade.

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