O Instituto Mãe Crioula, em parceria com Universidade do Estado do Pará (Uepa), lançou o relatório analítico “O Circuito Espacial do Garimpo Ilegal no Pós-Desintrusão”, que aborda as transformações socioespaciais ocorridas após operações de desintrusão em áreas de garimpo no município de Jacareacanga, no sudoeste do Pará em 2025.
O estudo também evidencia que essas transformações ocorrem em um contexto de forte dependência econômica da atividade garimpeira, que historicamente estrutura dinâmicas locais e regionais.
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Elaborado a partir de trabalhos de campo com diferentes métodos de investigação territorial, o documento busca compreender as dinâmicas sociais, econômicas e ambientais que emergem após a retirada de não indígenas de territórios tradicionais. Contextualiza o fenômeno do garimpo a partir do conceito de circuito espacial da atividade, detalhando seus fluxos, cadeias de abastecimento e conexões regionais, além de apresentar os diferentes tipos de garimpo, ferramentas utilizadas, marcos históricos da atividade na região e suas consequências ao longo do tempo.
Coordenada por Aiala Colares de Oliveira Couto, geógrafo e bacharel em Direito, doutor em Ciências do Desenvolvimento Socioambiental pela Universidade Federal do Pará (Ufpa), professor da Universidade do Estado do Pará (Uepa) e diretor-presidente do Instituto Mãe Crioula, a pesquisa reuniu uma equipe multidisciplinar e analisou o contexto da Região Amazônica marcada pela sobreposição de interesses econômicos, especialmente os ligados ao garimpo ilegal de ouro, e os territórios tradicionalmente ocupados pelos povos indígenas Munduruku.
De acordo com o estudo, a retirada de garimpeiros — processo conhecido como desintrusão — não representa, porém, o fim dos conflitos territoriais. Pelo contrário, a ação desencadeia novas dinâmicas de reorganização do território, influenciando relações sociais, políticas e econômicas tanto nas comunidades indígenas quanto nas áreas urbanas próximas. Também aponta que essas transformações podem intensificar vulnerabilidades sociais locais, sobretudo em contextos onde há ausência de alternativas econômicas estruturadas.
Diante da situação, o relatório afirma que, sem ações estruturais sobre essas redes, as operações estatais tendem a produzir efeitos temporários, com possibilidade de reorganização da atividade em outras áreas ou posterior retorno aos territórios desintrusados.
Embora as operações de desintrusão alcancem seus objetivos imediatos, a forma como vêm sendo conduzidas pode gerar episódios de violência que atingem inclusive populações indígenas, sem necessariamente desestruturar as bases econômicas que sustentam o garimpo ilegal.
Para compreender as transformações, objeto do estudo, os pesquisadores utilizaram diferentes metodologias, incluindo observação direta em campo, entrevistas, análise cartográfica, imagens de satélite e registros fotográficos, realizados com drones.
A combinação desses métodos permitiu uma análise multiescalar do território, observando-se desde dinâmicas locais até conexões regionais ligadas à atividade garimpeira. Esse conjunto indentificou padrões de mobilidade, fluxos econômicos e mudanças no uso do solo associados à expansão e retração do garimpo ilegal.
O relatório destaca que o garimpo atua como um agente de reordenamento territorial, capaz de alterar profundamente as estruturas sociais e econômicas da região. A atividade estimula processos de territorialização, desterritorialização e reterritorialização, nos quais diferentes atores — como comunidades locais, povos indígenas, agentes econômicos e o Estado — disputam o controle e o uso do espaço.
Nesse contexto, o estudo evidencia que o território passa a ser constantemente reconfigurado, mesmo após intervenções estatais, revelando a persistência de redes econômicas e logísticas associadas ao garimpo e sua capacidade de readaptação, enquanto há a falta de poder do Estado.
Igualmente evidencia que o garimpo ilegal se sustenta por meio de um circuito econômico mais amplo, composto por atividades formalmente legais, como postos de combustíveis, comércios, serviços de transporte e estabelecimentos financeiros. Ao viabilizarem a operação cotidiana do garimpo, acabam contribuindo para sua manutenção e para a construção de uma aparência de legalidade.
Nesse panorama, a ilegalidade não se apresenta de forma isolada, mas articulada a uma rede econômica que dificulta sua identificação, fiscalização e desestruturação, o que contribui para a naturalização da atividade no cotidiano local e para a sua reprodução mesmo após operações de fiscalização.
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O peso do garimpo – Itaituba (PA)
Outro ponto abordado pela pesquisa é a forte influência de municípios próximos, como Itaituba, considerado um dos principais polos econômicos do sudoeste paraense e historicamente associado à mineração de ouro na região do Vale do Tapajós. Essa centralidade regional contribui para manter fluxos econômicos e sociais relacionados ao garimpo, mesmo após a fiscalização e a retirada de atividades ilegais.
O relatório destaca que Itaituba funciona como um eixo estruturador dessas dinâmicas, concentrando serviços, comércio e infraestrutura que sustentam direta ou indiretamente a cadeia do garimpo.
Desta forma, o garimpo influencia fortemente a economia local, estimulando o comércio e a circulação de recursos financeiros. Com a saída dos garimpeiros, moradores e comerciantes relataram ter havido uma redução significativa no movimento econômico, refletida na diminuição das vendas em estabelecimentos comerciais e na retração de atividades ligadas ao abastecimento das áreas de mineração.
Esse cenário evidencia a fragilidade de economias locais altamente dependentes de atividades ilegais e pouco diversificadas.
Disso resultou uma situação de minero-dependência (modelo em que a economia urbana e rural passa a girar quase inteiramente em torno da extração mineral ilegal). Em algumas localidades, a própria estrutura urbana passou a refletir a centralidade da atividade mineral, como a presença de agências bancárias — uma unidade do Banco do Brasil de grande porte em Itaituba — cuja instalação está associada ao fluxo financeiro gerado pela mineração de ouro na região, além de lojas de fabricação e comercialização do ouro na cidade, e lojas de insumo de maquinários para garimpo no caso de Jacareacanga.
No entanto, essa a minero-dependência não é inevitável, assinala o estudo, indicando que poderia ser mitigada por meio da valorização dos saberes indígenas e de formas tradicionais de uso do território, que apontam caminhos para modelos econômicos mais sustentáveis e menos predatórios.
Ou seja, a ausência histórica de políticas que integrem esses conhecimentos contribui para a manutenção da dependência de atividades como o garimpo ilegal, conclui o relatório.

Propostas dos povos Munduruku
Do ponto de vista ambiental, foram apontadas alterações relevantes nas paisagens naturais, especialmente nos cursos d’água. A atividade garimpeira provocou modificações na dinâmica dos rios, incluindo mudanças no leito, processos de assoreamento e alterações na qualidade da água. Essas transformações afetam não apenas o equilíbrio ambiental da região, mas também as formas tradicionais de uso do território por populações locais e indígenas, que dependem diretamente dos rios para transporte, alimentação e atividades cotidianas.
Diz o estudo que esses impactos ambientais tendem a persistir mesmo após a interrupção das atividades ilegais, demandando ações contínuas de recuperação e monitoramento ambiental.
Por isso, o relatório incluiu, de forma sistematizada, as demandas levantadas em campo junto aos povos da Terra Indígena Munduruku, evidenciando um conjunto de questões estruturais diretamente relacionadas às transformações territoriais em curso.
Essas demandas abrangem áreas como educação, produção, segurança alimentar, meio ambiente, cultura e infraestrutura, entendidas de forma interdependente e fundamentais para a autonomia e permanência das comunidades em seus territórios.
A partir dessas demandas, são apresentadas proposições que apontam para a necessidade de fortalecimento de políticas públicas integradas e territorializadas, incluindo o incentivo à educação intercultural, o apoio a cadeias produtivas sustentáveis, a valorização dos saberes tradicionais, a ampliação da segurança alimentar e o investimento em iniciativas de recuperação ambiental em áreas degradadas. Destaca-se ainda a importância do protagonismo indígena na formulação e implementação dessas ações, como condição central para a construção de alternativas econômicas e sociais que reduzam a dependência do garimpo e garantam a proteção dos territórios.
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Presença do Estado
Aiala Couto declara que “esses impactos evidenciam como o garimpo atua como um importante agente de reorganização territorial, influenciando simultaneamente dimensões sociais, econômicas e ambientais da região”.
O estudo ressalta que compreender essas dinâmicas é fundamental para a formulação de políticas públicas multiministeriais voltadas à gestão territorial de municípios marcados pela minero-dependência, à proteção dos direitos dos povos indígenas e à promoção de alternativas de desenvolvimento sustentável na Amazônia.
Recomendação da análise é reforçar a importância do fortalecimento da governança territorial e da presença contínua do Estado, tanto para evitar a reocupação de áreas já desintrusadas quanto para garantir a preservação ambiental e a proteção cultural dos territórios indígenas.
Além disso, há necessidade de articulação entre diferentes níveis de governo e instituições, bem como a incorporação de conhecimentos tradicionais, para garantir a efetividade das ações de desintrusão e a construção de soluções estruturais e duradouras para a região.