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A abolição que nunca terminou: porque acabar com a escala 6×1 também é uma pauta racial

A verdade é que o Brasil nunca rompeu completamente com a lógica da exploração dos corpos negros. Apenas modernizou seus mecanismos
Trabalhadores protestam contra a escala 6x1, chamada em cartaz de "escravidão moderna".

Trabalhadores protestam contra a escala 6x1, chamada em cartaz de "escravidão moderna".

— Reprodução/Eline Luz/Andes

13 de maio de 2026

No dia 13 de maio de 1888, o Brasil assinou a Lei Áurea e colocou oficialmente fim à escravidão. Oficialmente. Porque, na prática, o Estado brasileiro nunca garantiu ao povo negro aquilo que deveria vir junto da liberdade: terra, moradia, trabalho digno, educação, reparação e cidadania. A abolição aconteceu no papel, mas abandonou milhões de pessoas negras à própria sorte.

Mais de um século depois, ainda é possível enxergar os rastros da escravidão na forma como o trabalho é organizado neste país. E talvez um dos exemplos mais cruéis disso seja a escala 6×1.

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Enquanto parte da sociedade debate qualidade de vida, lazer e saúde mental, milhões de trabalhadores negros seguem vivendo uma rotina que mal permite existir para além do trabalho. Trabalha-se seis dias para descansar um. Quando descansa.

Não é coincidência que a maioria das pessoas submetidas a essa lógica seja negra. Um levantamento do Núcleo de Estudos Raciais do Insper mostra que trabalhadores negros são maioria justamente nos setores com as jornadas mais exaustivas e os menores salários. Estamos falando da construção civil, do comércio, da limpeza, da alimentação, do transporte, do trabalho terceirizado e precarizado — os mesmos espaços historicamente ocupados pela população negra desde o pós-abolição.

Mudaram as correntes. Permaneceram as estruturas. A verdade é que o Brasil nunca rompeu completamente com a lógica da exploração dos corpos negros. Apenas modernizou seus mecanismos.

Leia mais: 5 figuras negras mais importantes que a princesa Isabel para a abolição da escravização

A escravidão acabou sem reforma agrária, distribuição de renda, inclusão econômica e sem reparação histórica. E isso produziu um país em que a população negra continua concentrada nos trabalhos mais precarizados, mais mal pagos e desgastantes. Por isso, o fim da escala 6×1 não é apenas sobre jornada de trabalho. É discutir dignidade, saúde, direito à convivência familiar e quem tem direito ao descanso neste país.

Quando uma trabalhadora negra passa quase toda a vida entre ônibus lotado, trabalho exaustivo e tarefas domésticas, sem tempo para estudar, cuidar da saúde, viver a cidade, acompanhar os filhos ou simplesmente existir com dignidade, estamos falando da continuidade de um projeto histórico de exploração.

A população negra construiu este país com trabalho forçado. E ainda hoje sustenta grande parte da economia brasileira recebendo menos, trabalhando mais e vivendo sob maior vulnerabilidade.

Não existe democracia racial possível enquanto o povo negro continuar sendo tratado como mão de obra descartável. É importante dizer: defender o fim da escala 6×1 não significa ignorar a importância do trabalho, mas sim defender que o trabalho seja digno, com direitos e que não adoeça física e emocionalmente as pessoas.

Quem é contra a redução da jornada quase sempre parte do lugar de quem nunca precisou escolher entre descansar ou garantir o alimento do mês. Mas a trabalhadora do supermercado, o entregador, a auxiliar de serviços gerais, a atendente e a mãe solo periférica conhecem.

Como mulher preta e periférica, eu aprendi cedo que o racismo no Brasil também se organiza pelo controle do tempo da população negra. Nos tiraram o direito à terra, depois o direito às oportunidades e agora seguem tentando nos tirar até o direito ao descanso.

Por isso, a luta pelo fim da escala 6×1 também é uma luta abolicionista. Uma abolição verdadeira exige condições reais de viver com dignidade.

Leia mais: Erika Hilton sobre escala 6×1: ‘O trabalho não pode sugar a vida do indivíduo’

O 13 de maio não pode ser tratado como ponto final da escravidão enquanto milhões de pessoas negras continuarem submetidas a jornadas desumanas, salários insuficientes e ausência de perspectiva. A abolição segue inacabada porque a liberdade sem justiça social é apenas outra forma de abandono. E enfrentar isso exige coragem para mexer nas estruturas que mantêm privilégios históricos intactos.

O Brasil tem uma dívida histórica com o povo negro, que não será paga com homenagens vazias ou discursos protocolares. Será paga com reparação, distribuição de direitos e valorização da vida de quem sempre carregou este país nas costas.

A editoria Quilombo reúne textos opinativos. Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a visão da Alma Preta sobre quaisquer temas.

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  • Andreia de Jesus
    Andreia de Jesus é advogada, educadora popular, mãe solo, deputada estadual pelo PT e vice-presidenta da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais.

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