Nas favelas do Complexo do Alemão, Complexo da Penha, Conjunto de Favelas da Maré e Rocinha, a percepção sobre as operações policiais é majoritariamente negativa. Segundo a pesquisa “Por que moradores de favelas aprovam ou reprovam operações policiais com confronto armado?”, 73% dos moradores discordam das ações realizadas nesses territórios, enquanto 91% afirmam que há excessos e ilegalidades por parte da polícia, percepção compartilhada até mesmo por 85% daqueles que apoiam as operações.
A rejeição ao modelo atual também é ampla: 92% desaprovam a forma como essas ações são conduzidas, e 95% consideram que elas não contribuem para aumentar a segurança das famílias.
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Esses são alguns achados do estudo realizado pela Fala Roça (Rocinha), Frente Penha, Instituto Papo Reto (Alemão), Instituto Raízes em Movimento (Alemão), Redes da Maré e A Rocinha Resiste, organizações da sociedade civil com atuação direta nos territórios pesquisados.
Na etapa qualitativa, a primeira delas, foram realizados oito grupos focais, com a participação de 79 moradores. Na etapa quantitativa, foram feitas entrevistas estruturadas presenciais com 4.080 moradores, entre os dias 13 e 31 de janeiro de 2026, distribuídas de forma igualitária entre as quatro localidades (1.020 entrevistas em cada).
As seis organizações da sociedade civil foram responsáveis por definir o desenho, a elaboração dos instrumentos de coleta, a mobilização dos participantes, a realização do trabalho de campo, a sistematização e a publicação do material. Da mesma forma, o trabalho de campo foi conduzido por pesquisadores moradores dos próprios territórios investigados, indo presencialmente nas ruas e residências para realizar as entrevistas.
O objetivo da pesquisa é lançar luz sobre a vivência e a opinião daqueles que são os principais atingidos pelo modelo atual de operação policial centrado no enfrentamento bélico, entendendo suas percepções e sentimentos, pontos de crítica e desejos de mudanças.
“A proposta do estudo é buscar entender o que está por trás das percepções dos moradores sobre as operações policiais, as motivações e influências de suas opiniões, as críticas, os desejos de mudança, os sentimentos e as sensações despertadas pela atuação das forças policiais onde vivem. Ao dar voz a quem é diretamente impactado, acessamos dimensões fundamentais da vida cotidiana do morador de favela em dias de operação policial”, aponta a diretora fundadora da Redes da Maré, Eliana Sousa Silva, que coordenou o estudo.
Segundo Eliana, “as respostas mostram que há um quadro de esgotamento da população por conta das operações violentas, o reconhecimento dos excessos dos policiais e uma evidente falta de legitimidade dessa que se tornou, ao longo dos anos, a única política de segurança em favelas e também a única forma das polícias atuarem nesses territórios.”
A pesquisa também tratou diretamente da percepção sobre operações policiais com alto número de mortos, mostrando que há uma forte rejeição à violência extrema. Quando perguntados se operações policiais como a que aconteceu no Complexo do Alemão e no Complexo da Penha, com 122 mortos, precisam acontecer outras vezes, 85% dos moradores dizem que não, 7% consideram que às vezes e 7% afirmam que sim.
Uma pessoa que mora, por exemplo, na Maré conviveu com 92 operações policiais entre 2023 e 2025, segundo dados da Redes da Maré – média superior a 30 operações por ano. Em 2025, o número de operações policiais nas favelas da Maré foi menor do que em outros anos, porém, a letalidade proporcional aumentou 58% em relação ao ano anterior.
O resultado da pesquisa chama a atenção para uma discussão necessária e urgente em ano eleitoral, convocando todos os entes federativos a refletirem sobre alternativas ativas de segurança pública que não se resumam a conflitos e confrontos violentos e que possam, de fato, dar uma solução ao problema, garantindo a vida da população.
“Queremos que haja uma nova política de segurança pública que preserve a vida dos moradores de favelas sem que a presença de grupos armados seja a justificativa para lançar mão de uma única possibilidade de atuação da polícia, com confrontos com alto índice de risco e letalidade para a população. É também direito dos moradores desses territórios experienciar uma política de segurança pública que os respeite”, reforça Osvaldo Lopes, do Fala Roça.
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Discordância das operações é maior entre jovens e pessoas pretas
Ao todo, 73% dos moradores do Complexo do Alemão, Complexo da Penha, Maré e Rocinha se posicionam contrários às operações policiais realizadas em seus territórios, enquanto 25% são a favor e 2% não responderam.
Quando perguntados se as operações devem ser realizadas da maneira como são hoje, a crítica se amplia: 92% reprovam o modelo atual. Entre os entrevistados, 68% afirmam que as operações “precisam ser realizadas de outra forma” e 24% dizem que “não deveriam ser realizadas operações policiais em favelas”. Mesmo entre os que concordam com as operações, apenas 20% defendem o modelo atual.
A discordância das operações policiais é mais elevada entre os mais jovens: entre aqueles de 18 a 29 anos, atinge 79%. Esse número pode estar relacionado à maior exposição — direta ou indireta — às dinâmicas da violência motivadas pelas operações policiais. Seja porque são eles que estão nos espaços públicos no momento em que a polícia entra, seja porque são alvos de processos de criminalização, ou ainda pela proximidade com outros jovens, faixa etária que concentra a maioria das vítimas nesses casos.
Também merece destaque o recorte racial dos entrevistados. A discordância às operações policiais é majoritária em todos os grupos raciais, mas chega a 81% entre as pessoas pretas. Entre as pessoas brancas, observou-se o maior percentual de concordância, chegando a 30%.
Assim como entre os jovens, a maior discordância entre pessoas pretas pode estar associada a experiências mais recorrentes de exposição à violência policial, direta ou indiretamente. A seletividade racial nas abordagens pelas forças de segurança apareceu nos grupos focais:
Da mesma forma, a pesquisa mostra que a percepção de racismo nas operações policiais é majoritária. Quando questionados sobre se acham que há racismo no modo em que as operações são planejadas e realizadas nas favelas, 61% dizem que sim, 13% às vezes e 25% que não.

Mais de 90% já vivenciaram operações ou têm familiares que vivenciaram
As operações não são eventos excepcionais para quem vive nos territórios pesquisados. São uma dimensão estruturante da vida dos moradores, atravessam rotinas, relações sociais e formas de organização social. Quase todos os moradores entrevistados (93%) afirmam ter vivenciado diretamente, ou ter um familiar que vivenciou operações policiais.
Esse padrão se mantém independentemente da posição em relação às operações, com percentuais elevados tanto entre aqueles que discordam (94%) quanto entre aqueles que concordam (91%) com elas.
Quem disse que já vivenciou operações foi perguntado sobre os impactos mais frequentes delas em suas vidas. A restrição de circulação aparece como o mais recorrente, apontado por 51% dos que discordam das operações e 41,5% entre os que concordam.
Em seguida aparece a invasão ou violação de domicílio, estabelecimento comercial ou veículo, mencionado por 37,5% entre os que discordam e 22,9% entre os que concordam com as operações. A presença recorrente de tiroteios e de balas perdidas foi apontada por 30,5% dos que discordam e 20,7% dos que concordam com as operações.
“Os números mostram que as operações incidem em direitos fundamentais de grande parte dos moradores, como o direito de ir e vir, de ter acesso ao trabalho, à saúde e à educação. Vemos nos territórios que as crianças e adolescentes são os que sofrem mais com esse cerceamento de liberdade de circulação”, diz Thainã de Medeiros, do Instituto Papo Reto.
De acordo com um estudo da Redes da Maré, em dez anos de monitoramento de operações policiais, foram contabilizadas 1.538 violências e violações de direitos dos moradores da Maré, incluindo ameaças, tortura e cárcere privado. No mesmo período, por conta das ações policiais, houve 163 dias de unidades escolares públicas fechadas, o que equivale à perda de cerca de um ano letivo na trajetória educacional de crianças e adolescentes.
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Percepção da atuação da polícia e de grupos armados
Os entrevistados também responderam sobre a percepção da atuação da polícia em operações no Complexo do Alemão, Complexo da Penha, Maré e Rocinha. No total, 78% dos moradores declararam sentir medo da polícia nas operações. Pouco ou bastante medo é prevalente entre os dois grupos, sendo a resposta de 85% entre aqueles que são contrários às operações e 59% entre os favoráveis.
Há uma evidente inversão na percepção do papel do Estado na proteção do cidadão, que se repete quando são questionados sobre indignação ou revolta em relação às operações: 50% dos entrevistados disseram sentir bastante indignação, 25% um pouco e 24% afirmaram não sentir indignação ou revolta. Balas perdidas e desrespeito aos moradores são as principais razões citadas para terem esses sentimentos em relação aos policiais.
Por outro lado, quando os moradores foram perguntados sobre se a atuação dos grupos armados em seus territórios, houve menor incidência de medo e indignação: 52% afirmaram não se sentirem indignados e 59% responderam que não têm medo. A menor incidência de medo e revolta em relação aos grupos armados pode ser entendida pela natureza da experiência, devido ao convívio próximo e à presença cotidiana no mesmo território.
Entre os que concordam com as operações, é maior o número de pessoas que sentem indignação ou revolta em relação aos grupos armados (61%). No entanto, chama a atenção que, neste mesmo grupo, o medo das forças policiais (59%) seja maior do que o medo dos grupos armados (53%). Isso significa que, mesmo entre quem apoia as operações, a polícia é vista como fonte de medo mais frequente do que os próprios grupos armados que as operações afirmam combater. Essa aparente contradição foi resumida em um dos grupos focais:
Aqueles que declararam sentir indignação ou medo com a atuação dos grupos armados foram questionados sobre o que causa esses sentimentos, destacando o desrespeito aos moradores, balas perdidas e a presença de armas.
“É evidente que a população dessas favelas vive sob tensão permanente, pressionada por dois lados. Grupos armados que controlam os territórios e o Estado que deveria protegê-la. A indignação e o medo, em diferentes graus, são respostas compartilhadas por quem apoia e por quem rejeita as operações, isto é, independentemente do posicionamento, ninguém se sente seguro”, afirma Vilson Luiz, do Coletivo Frente Penha.

Consenso sobre o caráter violento das operações
A pesquisa revela ainda um consenso sobre o caráter violento das operações. Ao serem perguntados se a polícia comete excessos e ilegalidades durante as operações, 91% dos entrevistados responderam que “sim” ou que “sim, às vezes”.
Os entrevistados reconhecem os abusos e os rejeitam: 90% consideram os excessos inaceitáveis, alcançando 95% entre aqueles que discordam das operações policiais. Entre os que concordam com as operações, 74% consideram as práticas ilegais e inaceitáveis. Ou seja, concordar com as operações não significa aceitar violência.
Há também rejeição à letalidade deliberada, que é vista pela maioria dos entrevistados como parte dos confrontos armados, mas apenas 3% concordam com a afirmação “geralmente, nas operações, a polícia precisa matar”. Do total, 41% afirmam que “nunca está certo matar durante as operações” e 54% concordam que “deve ser evitado matar, mas há situações em que não há como evitar”.
Entre os que são favoráveis às operações, a concordância com “geralmente, nas operações, a polícia precisa matar” sobe para 8% dos entrevistados. Vale notar que, mesmo neste grupo, 21% defendem que nunca está certo matar durante as operações.
A letalidade não se apresenta, para a maior parte dos moradores, como valor positivo. Nos grupos focais surgiu como resultado de uma combinação de desesperança, resignação e naturalização de um padrão violento já consolidado no território.
Segundo as organizações responsáveis pelo estudo, os dados mostram a urgência da revisão estrutural da política de segurança pública vigente. Hoje, como mostraram as respostas, o principal argumento usado para legitimar as operações policiais, que é a proteção das famílias, não encontra respaldo entre os moradores.
“As seis organizações de base comunitária que produziram o estudo defendem que é preciso mudar urgentemente o modelo que define a relação das forças de segurança com os territórios favelados. Os dados mostram que o morador de favela não aguenta mais que a presença estatal seja associada ao medo e à violência em seus territórios. É preciso garantir direitos e transformar de fato a vida de quem vive hoje sob este medo e violência constantes, vindos de todos os lados”, finaliza Arthur Dóring, do Instituto Raízes em Movimento.