No dia 28 de outubro, o Brasil acordou com a maior chacina em uma operação policial de sua história, vitimando mais de 120 de pessoas, entre elas adolescentes, jovens, civis e profissionais de segurança pública. O fracasso das operações realizadas no Complexo da Penha e no Complexo do Alemão ressoa nos relatórios que registram um número maior de vítimas do que fuzis apreendidos. Em mais um episódio marcado pelo despreparo das forças policiais e ausência de serviços qualificados de inteligência, a ação policial segue atingindo os níveis mais baixos do tráfico, produzindo corpos exibidos como troféus por uma extrema direita desarticulada, dependente e sem projeto de país.
Revela-se assim um dos problemas complexos da disputa política nacional: o debate da Segurança Pública retomado como forma de pré-campanha da extrema-direita, ao tratar a população negra e periférica como descartável diante dos objetivos de interesses para o controle político social dos territórios. Uma estratégia que alia o punitivismo e o populismo penal aos objetivos eleitorais em tentativa de rearticulação de lideranças da extrema-direita nacionalmente.
Quer receber nossa newsletter?
Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!
Sob as cortinas ainda fechadas, inicia-se o espetáculo promovido por Cláudio Castro e referendado por demais governadores de direita. O renascimento político do campo de extrema-direita, agora sob controle da agenda de Segurança Pública, retoma a morte como prática política cotidiana explorada em ações como a Operação Verão no litoral paulista, conduzida pelo governador Tarcísio de Freitas e iniciada em 2024.
E assim é posto em cena o espetáculo da violência como política pública de segurança. As cenas que deveriam chocar geram apoio entre a população que se vê refém da insegurança. A despeito da opinião pública popular, inequívoca é a atuação criminosa de Cláudio Castro, que acumula sob sua gestão taxas recordes de homicídio por intervenção de agentes de segurança, abuso de autoridade, improbidade administrativa, além de se opor frontalmente a ADPF das Favelas e ao mesmo passo que justifica o mal funcionamento das mais de 2 mil câmeras policiais utilizadas na operação policial.
Do lado de cá da plateia, nos cabe fazer algumas perguntas importantes: por quais razões o governo do Rio de Janeiro optou por conduzir de forma independente uma operação com altos índices de letalidade sem apoio dos setores de inteligência da Polícia Federal? Ou uso de equipamentos militares?
A resposta para esses questionamentos reacendem dúvidas do real propósito do governo de Cláudio Castro ao conduzir operações recorrentemente denúncias em diferentes organismos internacionais. O conflito armado alimentado por redes transnacionais que ligam o tráfico de drogas acontece para além das fronteiras nacionais e chama atenção ao revelar a articulação de setores do governo de Cláudio Castro para a classificação do Comando Vermelho como “grupo narco-terrorista”, abrindo portas para mais um capítulo de intervenções internacionais, mobilizado pela “guerra às drogas” e conduzido por Donald Trump pela política intervencionista na América Latina. Traz consigo consequências como sanções econômicas, intervenção militar, influxo de agências estrangeiras e o recrudescimento de pressões diplomáticas.
Ao qualificar as facções brasileiras como “narco-terroristas”, Cláudio Castro revela estratégia da extrema-direita colocada para a disputa de 2026. Um projeto alinhado à política externa estadunidense de intervencionismo como recentemente observamos no caso da Venezuela, onde as operações militares e de inteligência conduzidas pelos Estados Unidos têm sido denunciadas como violações diretas do direito internacional.
Ao expandir essa lógica, a extrema-direita brasileira assume o compromisso com a transformação das áreas de segurança doméstica no palco da guerra internacional à “narcoviolência”, responsável por fragilizar democracias. Sob justificativa do combate ao terrorismo, utiliza o medo como ferramenta política para deslegitimação de organizações e movimentos sociais, diluindo assim a soberania nacional e submetendo à agenda doméstica marcos externos de segurança que historicamente visam moldar regimes, alinhar políticas e redefinir alianças regionais.
Para a nossa juventude resta a voz ativa para defender qual é a política de segurança pública que nós queremos. Através da realização de ações de combate às organizações criminosas por meio do uso de inteligência policial, é urgente o foco na identificação da cadeia de controle das facções, cujo a atuação não se dá na periferia mas sim nos grandes centros do capital financeiro – tendo como exemplo a Operação Carbono Oculto, responsável por recuperar para os cofres públicos bilhões de reais sem derramar uma gota de sangue. Isso demonstra que a resposta para o combate às organizações está no uso integrado e interfederativo da inteligência, bem como estrangulamento e rastreio dos recursos utilizados por grupos ilegais.
Diante dos tantos que se foram vítimas dessa guerra, cabe a nós denunciar e exigir a criação de um novo horizonte da política da segurança pública, com foco em inibir a cadeia econômica do crime, responsabilizando o alto escalão do comando para assim libertar os sonhos de uma juventude negra viva.