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Quando a oferta é grande, até o santo desconfia

Enfraquecida, Igreja Católica pede desculpas pelo envolvimento e apoio à escravidão
Papa Leão XIV acena ao chegar para sua audiência geral semanal na Praça de São Pedro, no Vaticano, em 27 de maio de 2026.

Papa Leão XIV acena ao chegar para sua audiência geral semanal na Praça de São Pedro, no Vaticano, em 27 de maio de 2026.

— AP/Alessandra Tarantino

27 de maio de 2026

A Igreja Católica é um dos símbolos de poder mais expressivos do mundo. Ao longo da história, também foi fundamental para perpetuar práticas condenáveis e desumanas, entre elas a escravidão, em diferentes tempos e contextos. Mais do que uma instituição religiosa, a Igreja atua na organização de valores morais, estruturas de autoridade e formas de poder que atravessaram séculos.

Festa de Santa Rosália, padroeira dos negros, em ilustração de 1835. (Créditos: Reprodução/Arquivo Nacional)

Segundo o professor Sergio Sezino Douets Vasconcelos, no artigo “Igreja Católica e a escravidão no Brasil Colônia: uma abordagem cultural”, “[…] A história da presença do cristianismo no continente latino-americano, do seu relacionamento com os negros e negras, é marcada por grandes ambiguidades. Milhões de homens e mulheres foram barbaramente escravizados e sumariamente introduzidos no cristianismo e no projeto colonial europeu. Através da catequese e do batismo cristão, foram obrigados a abandonar sua cultura e religião ancestral e a ‘converterem-se’ ao cristianismo. Salvo raras exceções, ela foi conivente com a escravidão, utilizando ela própria da mão de obra escrava para sua sustentação econômica, tendo também servido de base ideológica para a justificação religiosa da escravidão”.

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Essa constatação é fundamental, inclusive no mês em que se celebra a tardia e incompleta abolição da escravidão no Brasil, assinada em 13 de maio de 1888.

A escravidão ajudou a estruturar desigualdades que permanecem organizando o presente. E a Igreja Católica teve participação direta nesse processo, seja pelo silêncio, pela legitimação moral ou pela própria atuação institucional em diferentes territórios colonizados, cujo a escravidão se colocou como sistema de dominação e exercício de poder.

Nesta semana, a principal liderança da instituição fez um pedido de desculpas. Leão XIV — o primeiro pontífice a fazer um reconhecimento tão explícito sobre o tema — admitiu publicamente o envolvimento histórico da Igreja Católica com a escravidão.

“É impossível não sentir profunda dor ao considerar o enorme sofrimento e humilhação que a escravatura significou para tantas pessoas, em contraste com a sua ilimitada dignidade, amada infinitamente pelo Senhor. Assim sendo, em nome da Igreja, peço sinceramente perdão”, afirmou.

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A fala do papa é, sem dúvida, importante e deve ser celebrada como um avanço, entretanto, é preciso refletir sobre o momento atual da Igreja e perguntar se esse aceno pode ter relação com o declínio do catolicismo no mundo e quais serão os próximos passos da instituição diante desse reconhecimento. Porque, ao sair da ignorância e do silêncio, espera-se, no mínimo, alguma atitude de reparação e promoção da equidade para os descendentes daqueles que sofreram com a mão — ou com a chibata — da Igreja ao longo de séculos.

No Brasil, o último Censo revelou que, de 2010 a 2022, houve “[…] redução do percentual de católicos apostólicos romanos (56,7%) e aumento de evangélicos (26,9%) e pessoas sem religião (9,3%). Em 2010, os católicos eram 65,1% da população de 10 anos ou mais; os evangélicos, 21,6%; enquanto os sem religião correspondiam a 7,9% dos declarantes”.

Em diferentes partes do mundo, também se observa o declínio do número de adeptos da Igreja Católica. Em um cenário de perda de influência institucional, o pedido de desculpas também pode ser lido como tentativa de reaproximação com territórios historicamente atravessados pela violência colonial, racial e escravocrata.

Portanto, o que precisamos observar é o que acontece depois desse pedido de desculpas. A Igreja vai rever sua forma de atuar no mundo? Vai discutir o papel que teve na consolidação da escravidão e das hierarquias raciais em países da América Latina, do Caribe e do continente africano?

Vamos crer que o pedido de desculpas seja apenas o começo de uma discussão muito maior sobre a presença — ou o declínio — da Igreja Católica ou uma tentativa apenas de reaproximação em territórios onde atuou de forma direta e/ou conivente com os horrores da escravidão.

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A editoria Quilombo reúne textos opinativos. Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a visão da Alma Preta sobre quaisquer temas.

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  • Jornalista e escritora, atuando na imprensa negra desde 1996. Autora de "Negra Percepção: Sobre Mim e Nós na Pandemia", escreve sobre literatura, memória e experiência negra, articulando crítica cultural, política e trajetória pessoal. Também atua como consultora em planejamento estratégico e comunicação. Nesta coluna na Alma Preta, compartilha leituras e reflexões que ajudam a pensar o Brasil a partir da palavra escrita.

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