Enchentes, ondas de calor, secas e outros eventos associados às mudanças climáticas atingem de forma desproporcional populações negras, quilombolas, indígenas e comunidades tradicionais. No entanto, esses grupos seguem com participação limitada nos espaços responsáveis pela formulação das políticas climáticas nacionais e internacionais.
Essa é a principal conclusão da tese de doutorado da advogada, pesquisadora e ativista Marina Marçal do Nascimento, defendida na Universidade Federal Fluminense (UFF).
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O trabalho reúne dados sobre a composição racial das delegações brasileiras nas Conferências das Partes da Convenção do Clima da ONU (COPs) e investiga as barreiras que dificultam a presença dessas populações nos fóruns onde são definidas estratégias de enfrentamento da crise climática.
A pesquisa foi apresentada pela autora durante o TEDxAmazônia Salon – Mulheres pelo Clima, realizado no Pará, evento que reuniu, em 11 de junho, lideranças e pesquisadoras envolvidas em debates sobre sustentabilidade, territórios e justiça climática.
Entre os resultados levantados pela pesquisa, um dos mais expressivos diz respeito à participação de representantes quilombolas nas delegações brasileiras das conferências climáticas da Organização das Nações Unidas (ONU).

Segundo o estudo, apenas uma pessoa quilombola integrou a delegação brasileira na COP25, realizada em Madri, em 2019. O número subiu para quatro participantes na COP26, em Glasgow, alcançou 11 representantes nas edições realizadas em Sharm El-Sheikh e Dubai, em 2022 e 2023, mas voltou a cair para quatro pessoas nas COPs de Baku e Belém, realizadas em 2024 e 2025.
A redução registrada em Belém chamou a atenção da pesquisadora por ocorrer justamente na primeira conferência climática da ONU sediada na Amazônia brasileira.
O levantamento também aponta que pessoas negras permanecem em posição minoritária nas delegações oficiais do país, apesar de integrarem parcela significativa da população brasileira e estarem entre os grupos mais expostos aos efeitos da emergência climática.
“Uma governança climática que não representa o perfil racial e de gênero do Brasil não tem legitimidade para falar em nome do país e não produzirá as melhores soluções”, afirma Marina em nota à imprensa.
Leia mais: COP30 no Brasil: 5 acontecimentos que marcaram a conferência do clima
Racismo ambiental entra no centro do debate climático
A tese de Marina Marçal parte do conceito de racismo ambiental para analisar como desigualdades raciais influenciam tanto a distribuição dos impactos climáticos quanto à participação política nas instâncias de decisão.
O estudo argumenta que a exclusão desses grupos não representa apenas um problema de representatividade, mas também afeta a construção das políticas públicas voltadas ao clima.
Segundo a pesquisadora, a ausência de diversidade racial e territorial nos espaços de negociação limita a incorporação de experiências e conhecimentos produzidos por comunidades diretamente afetadas pelos efeitos das mudanças climáticas.
Durante sua apresentação no TEDxAmazônia, Marina defendeu que comunidades negras, quilombolas, indígenas e tradicionais não devem ser vistas apenas como grupos impactados pela crise climática, mas também como produtoras de conhecimento e de práticas relacionadas à conservação ambiental, ao manejo dos territórios e à adaptação climática.
Propostas para ampliar a participação nos espaços climáticos
A pesquisa apresenta um conjunto de medidas para enfrentar a exclusão racial nas instâncias de governança climática. Entre elas estão a adoção de critérios raciais nos processos de participação, a ampliação da presença de comunidades vulnerabilizadas nos espaços de decisão, o financiamento direto para organizações de base e a criação de mecanismos que facilitem o acesso dessas populações a eventos internacionais como as COPs.
Para Marina Marçal, a discussão sobre clima não pode ser dissociada da discussão sobre representação política. Em sua avaliação, a legitimidade das políticas climáticas depende da participação dos grupos que convivem diariamente com os impactos da degradação ambiental e das mudanças climáticas.