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Pesquisa aponta exclusão racial em negociações climáticas e questiona quem fala pelo Brasil nas COPs

Tese da pesquisadora Marina Marçal mostra baixa participação de pessoas negras e quilombolas em espaços de decisão sobre o clima, apesar de serem as mais afetadas pela crise climática
Apresentação da pesquisadora Marina Marçal no TEDxAmazônia Salon - Mulheres pelo Clima, no Pará.

Apresentação da pesquisadora Marina Marçal no TEDxAmazônia Salon - Mulheres pelo Clima, no Pará.

— Lorena Fadul/Divulgação

18 de junho de 2026

Enchentes, ondas de calor, secas e outros eventos associados às mudanças climáticas atingem de forma desproporcional populações negras, quilombolas, indígenas e comunidades tradicionais. No entanto, esses grupos seguem com participação limitada nos espaços responsáveis pela formulação das políticas climáticas nacionais e internacionais.

Essa é a principal conclusão da tese de doutorado da advogada, pesquisadora e ativista Marina Marçal do Nascimento, defendida na Universidade Federal Fluminense (UFF). 

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O trabalho reúne dados sobre a composição racial das delegações brasileiras nas Conferências das Partes da Convenção do Clima da ONU (COPs) e investiga as barreiras que dificultam a presença dessas populações nos fóruns onde são definidas estratégias de enfrentamento da crise climática.

A pesquisa foi apresentada pela autora durante o TEDxAmazônia Salon – Mulheres pelo Clima, realizado no Pará, evento que reuniu, em 11 de junho, lideranças e pesquisadoras envolvidas em debates sobre sustentabilidade, territórios e justiça climática.

Entre os resultados levantados pela pesquisa, um dos mais expressivos diz respeito à participação de representantes quilombolas nas delegações brasileiras das conferências climáticas da Organização das Nações Unidas (ONU).

Antes de transformar o tema em objeto de pesquisa, Marina acompanhou três edições das conferências climáticas da ONU (COP26, COP27 e COP28). Foto: Lorena Fadul/Divulgação

Segundo o estudo, apenas uma pessoa quilombola integrou a delegação brasileira na COP25, realizada em Madri, em 2019. O número subiu para quatro participantes na COP26, em Glasgow, alcançou 11 representantes nas edições realizadas em Sharm El-Sheikh e Dubai, em 2022 e 2023, mas voltou a cair para quatro pessoas nas COPs de Baku e Belém, realizadas em 2024 e 2025.

A redução registrada em Belém chamou a atenção da pesquisadora por ocorrer justamente na primeira conferência climática da ONU sediada na Amazônia brasileira.

O levantamento também aponta que pessoas negras permanecem em posição minoritária nas delegações oficiais do país, apesar de integrarem parcela significativa da população brasileira e estarem entre os grupos mais expostos aos efeitos da emergência climática.

“Uma governança climática que não representa o perfil racial e de gênero do Brasil não tem legitimidade para falar em nome do país e não produzirá as melhores soluções”, afirma Marina em nota à imprensa.

Leia mais: COP30 no Brasil: 5 acontecimentos que marcaram a conferência do clima

Racismo ambiental entra no centro do debate climático

A tese de Marina Marçal parte do conceito de racismo ambiental para analisar como desigualdades raciais influenciam tanto a distribuição dos impactos climáticos quanto à participação política nas instâncias de decisão.

O estudo argumenta que a exclusão desses grupos não representa apenas um problema de representatividade, mas também afeta a construção das políticas públicas voltadas ao clima. 

Segundo a pesquisadora, a ausência de diversidade racial e territorial nos espaços de negociação limita a incorporação de experiências e conhecimentos produzidos por comunidades diretamente afetadas pelos efeitos das mudanças climáticas.

Durante sua apresentação no TEDxAmazônia, Marina defendeu que comunidades negras, quilombolas, indígenas e tradicionais não devem ser vistas apenas como grupos impactados pela crise climática, mas também como produtoras de conhecimento e de práticas relacionadas à conservação ambiental, ao manejo dos territórios e à adaptação climática.

Propostas para ampliar a participação nos espaços climáticos

A pesquisa apresenta um conjunto de medidas para enfrentar a exclusão racial nas instâncias de governança climática. Entre elas estão a adoção de critérios raciais nos processos de participação, a ampliação da presença de comunidades vulnerabilizadas nos espaços de decisão, o financiamento direto para organizações de base e a criação de mecanismos que facilitem o acesso dessas populações a eventos internacionais como as COPs.

Para Marina Marçal, a discussão sobre clima não pode ser dissociada da discussão sobre representação política. Em sua avaliação, a legitimidade das políticas climáticas depende da participação dos grupos que convivem diariamente com os impactos da degradação ambiental e das mudanças climáticas.

Leia mais: Geledés denuncia boicote de europeus ao reconhecimento de afrodescendentes em documentos oficiais da COP30

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  • Giovanne Ramos

    Jornalista multimídia formado pela UNESP. Atua com gestão e produção de conteúdos para redes sociais. Enxerga na comunicação um papel emancipatório quando exercida com responsabilidade, criticidade, paixão e representatividade.

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