Dados do Atlas da Violência 2026, divulgado nesta terça-feira (26) pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), mostram que a população negra aparece no centro dos registros de violência contra pessoas LGTBQIAPN+ no Brasil.
De acordo com o estudo, raça e identidade de gênero se cruzam e ampliam a exposição à violência, sobretudo entre pessoas trans e travestis negras.
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O levantamento identificou crescimento das notificações de violência contra pessoas LGBTQIAPN+ em diferentes grupos. Entre 2023 e 2024, os casos registrados contra pessoas homossexuais e bissexuais aumentaram 5,5%, chegando a 10.250 ocorrências. Entre pessoas trans e travestis, o número subiu 2,6%, alcançando 5.575 registros.
Entre travestis vítimas de violência, pessoas negras representam 67% dos registros. Entre mulheres trans, o índice alcança 61%. Entre homens trans, a população negra responde por 55% das notificações. Em todos os grupos analisados, negros aparecem como maioria entre as vítimas.
Segundo o Atlas, esse padrão confirma que a violência não atua apenas a partir da identidade de gênero ou da orientação sexual. Ela se organiza a partir da sobreposição de marcadores sociais, nos quais racismo e transfobia produzem camadas adicionais de vulnerabilidade.
Os pesquisadores afirmam que a população trans negra ocupa uma posição de maior exposição à violência por causa da intersecção entre discriminação racial e violência motivada pela identidade de gênero. O estudo aponta que esse cruzamento amplia riscos e restringe o acesso a mecanismos de proteção e justiça.
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Subnotificação cria “invisibilidade institucional”
O Atlas afirma que o Estado brasileiro ainda falha no registro sistemático da motivação dos crimes contra a população LGBTQIAPN+. A ausência desse tipo de informação produz o que os autores classificam como uma “invisibilidade institucional”, situação que dificulta a formulação de políticas públicas.
Sem a identificação precisa das razões que motivam agressões e homicídios, o poder público enfrenta obstáculos para compreender a dimensão do problema e responder a ele de forma direcionada.
Os pesquisadores observam que os dados disponíveis provavelmente representam apenas parte da realidade. Casos de violência contra pessoas LGBTQIAPN+ costumam ocorrer em contextos marcados por subnotificação, ausência de classificação adequada e lacunas institucionais nos sistemas de informação.
O Atlas ressalta que o aumento dos registros pode resultar de uma combinação de fatores. Entre eles estão a ampliação do número de pessoas que se identificam como dissidentes sexuais e de gênero e a expansão do sistema de notificações do Ministério da Saúde.
Ainda assim, os autores afirmam que a dimensão do crescimento sugere aumento da violência para além da melhoria dos registros.
Violência contra pessoas bissexuais cresce mais de 700%
Entre 2015 e 2024, os registros de violência contra homossexuais e bissexuais aumentaram 212,7%. O avanço foi mais intenso entre pessoas bissexuais, grupo que registrou alta de 781%.
Entre homossexuais, o crescimento ficou em 149,9%. No período, o sistema de saúde registrou 59.790 casos de violência contra pessoas homossexuais e bissexuais.
No caso de pessoas trans e travestis, o país registrou ao menos 35.779 notificações em dez anos. Mulheres trans concentram o maior número absoluto de casos. Já entre travestis ocorreu a maior variação recente proporcional, com aumento de 4,1% entre 2023 e 2024.
Para os autores, os dados reforçam um padrão, já identificado em outros capítulos do Atlas, de que grupos historicamente marginalizados seguem mais expostos à violência.
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