Há atores que esperam a vida inteira por um grande papel. Bukassa Kabengele está vivendo três ao mesmo tempo. Em 2026, o ator congolês vive personagens que estão no ar, simultaneamente, no catálogo de dois streamings — a Netflix e a Max — e na novela das seis da TV Globo, “A Nobreza do Amor”.
“Parece que eu tenho esse desafio de pegar muitos projetos ao mesmo tempo. Cada um tem sua cara, suas narrativas e contextos de existência”, compartilha Kabengele em entrevista à Alma Preta.
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Aos 53 anos e com quase quatro décadas de estrada, Kabengele não aponta um único “ponto de partida” para a carreira, mas uma sucessão de experiências de vida desde a infância que o levaram à arte.
Ou, como ele prefere resumir: “A atuação me escolheu. Eu me disponibilizei a ela e deu jogo.”
Da dança no Congo ao teatro no Brasil
“Eu digo que sou um ser humano com alma artística desde muito novo”, afirma.
A dança veio primeiro, ainda na infância, na República Democrática do Congo. Nascido em Bruxelas, na Bélgica, ele viveu no país africano até os dez anos, quando se mudou para o Brasil em 1975 ao lado do pai, o antropólogo Kabengele Munanga, professor titular da Universidade de São Paulo.
Já no Brasil, o desenho virou abrigo contra a timidez. “Era algo que fazia dos 12 aos 16 anos, em média de 3 a 4 horas por dia”, lembra. A música entrou logo em seguida: aos 13 anos, pegou no violão e nunca mais largou. Aos 16, já circulava profissionalmente entre o canto e a dança.
O teatro apareceu quase por acaso, como consequência desse percurso múltiplo. “Fiz teatro sem compromisso no clube AABB [Associação Atlética Banco do Brasil] por ser tímido e, quando me vi, fiz o musical ‘Cazas de Cazuza’“, conta.
O audiovisual como destino
A virada definitiva, porém, veio com o audiovisual. Para ele, o divisor de águas de sua carreira foi o longa-metragem Pacificado (2019), que lhe rendeu reconhecimento internacional no Festival de San Sebastián, na Espanha.
“Foi meu primeiro protagonista e alcancei resultados que me colocaram em outro patamar de atuação”, lembra. “Isso me fez ver que também posso vencer se tiver a oportunidade de trabalhar em bons papéis.”
Kabenguele conta que, desde o longa-metragem “Sonhos Tropicais” (2021), não parou mais, emendando um trabalho no outro.
Sem formação acadêmica tradicional na área, ele transforma cada set em sala de aula. “Sou um tanto autodidata, mas também fiz cursos livres de interpretação, com muita observação e prática. Cada projeto, para quem mergulha fundo, é uma faculdade.”
Mas talvez a semente de tudo tenha sido plantada muito antes, diante de uma tela, na imagem de Sidney Poitier em Ao Mestre com Carinho.
“A dignidade dele em cena me impactou de forma arrebatadora. Talvez tenha sido minha primeira atração por essa arte. Quando vi esse filme, mudei para sempre.”
Evanildo em ‘Emergência Radioativa’
Um dos trabalhos de Bukassa que está no ar é a série Emergência Radioativa, da Netflix, lançada em março deste ano. A produção revisita o acidente com o Césio-137, em Goiânia, em 1987. Foi o maior acidente radioativo de todos os tempos, no Brasil e no mundo, ocorrido fora das usinas nucleares.
Na trama, ele dá vida a Evanildo, dono do ferro-velho que se conecta aos primeiros desdobramentos da tragédia.
Para Bukassa, encenar uma tragédia real exige responsabilidade com quem a viveu. “A história está viva, sim, na memória, no corpo e na alma das vítimas que sobreviveram e de seus parentes até hoje.”
Ainda assim, ele faz questão de marcar o terreno da ficção. “Não é um documentário, e sim uma obra audiovisual muito bem escrita e produzida, para tocar as pessoas e o mundo.”
Fiel a esse princípio, o ator recusa a cópia. “Sou ator e não me interessa a imitação, e sim investigar os assuntos para dar minha versão artística de um ser humano plausível”, explica.
Para construir Evanildo, apoiou-se em pesquisas, conversas com a equipe e material jornalístico — e escolheu deliberadamente a complexidade. “Optei por caminhos que mostram como eram felizes em suas buscas e as consequências das perdas para além da saúde, dentro desse contexto social.”
O ator estava em outro projeto quando começou a gravar a série. “Eu fiz teste na época em que fazia a novela “Mania de Você”, na TV Globo. Depois veio o resultado, mas ainda rodei um filme antes de começar a série”, relata. O resultado foi uma sequência ininterrupta de gravações: “Emendei três trabalhos distintos.”
Três personagens, três mundos
Na TV Globo, Bukassa integra atualmente o elenco da novela das seis “A Nobreza do Amor”, que estreou em 16 de março deste ano. Ele vive José dos Santos, peça-chave na engrenagem que liga os diferentes núcleos da história. Nascido como Zambi, é o irmão mais velho de Cayman II (vivido pelo ator Welket Bungué), a quem renuncia ao trono de Batanga após uma temporada de estudos no Brasil. É nesse intervalo que se envolve com Teresa (vivida pela atriz Ana Cecília Costa), decisão que redesenha sua trajetória e desestabiliza o equilíbrio da trama.
No remake de Dona Beja, produção da Max que estreou em fevereiro deste ano, ele interpreta o Coronel Paulo Sampaio, contracenando com as atrizes Grazi Massafera e Deborah Evelyn em uma narrativa que revisita conflitos sociais e encara de frente o racismo.
Transitar entre universos tão distintos é, segundo ele, um desafio permanente, que ele enfrenta escutando cada mundo separadamente. “Os roteiros me dão material para iniciar as pesquisas de cada personagem. O que há em comum sou eu e minha experiência como ator, mas cada personagem tem sua própria vida e alma.”
A herança de Kabengele Munanga
Filho do renomado antropólogo Kabengele Munanga, Bukassa reconhece que a história pessoal alimenta diretamente a construção artística. A base, garante, está nos afetos que o formaram.
“Minha força e brilho estão, sim, na minha formação como ser humano, e isso vem do meu pai, da educação em casa, da minha segunda mãe, Irene Kabengele, e das minhas memórias com minha mãe biológica, Yombo Masanga”, diz.
Essa origem reverbera no modo como encara cada trabalho. “Sou fruto de ter estudado em boas escolas e de ter senso crítico para me aperfeiçoar a cada projeto.”
O risco que move o ator
Questionado sobre as histórias que o atraem hoje, o ator é direto: o que o move é o risco. “As histórias que me desafiam artisticamente me atraem”, resume.
Mais do que isso, ele enxerga o audiovisual como ferramenta de circulação cultural e transformação. Por isso, deixa um recado ao público:
“Consumam cada vez mais filmes, séries e produtos audiovisuais que valorizem a diversidade e a pluralidade humana. A arte transforma e pode ser muito positiva se usada com responsabilidade”, recomenda Kabengele.