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Por que os bebês negros morrem?

Talvez a pergunta mais incômoda não seja quantos bebês negros morrem no Brasil, mas por que durante tanto tempo essa sequer foi uma pergunta central em muitas pesquisas demográficas
As pernas e os pés de um bebê deitado.

As pernas e os pés de um bebê deitado.

— Reprodução/Marcello Casal Jr./Agência Brasil

14 de junho de 2026

Quando pensamos em Demografia, geralmente imaginamos números, gráficos e tabelas. Mas, por trás deles, estão pessoas. Quem nasce. Quem morre. Quem envelhece. Quem permanece invisível nas estatísticas. É justamente sobre esses movimentos da população que a Demografia se debruça, buscando compreender os impactos que eles produzem na organização da sociedade.

Nosso país possui uma população estimada em mais de 55% de pessoas negras, considerando pretos e pardos, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Entretanto, esse recorte racial, durante muito tempo, esteve ausente de muitas análises demográficas.

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“Oh! Como assim?”

Eu explico.

Em uma turma de pós-graduação da Fundação João Pinhiero, discutíamos um texto sobre mortalidade infantil no Brasil. A Taxa de Mortalidade Infantil (TMI) é calculada dividindo-se o número de óbitos de crianças menores de um ano pelo total de nascidos vivos em uma determinada área e período, multiplicando-se o resultado por mil.

Mas por que essas crianças morreram?

Ou melhor: quais fatores contribuíram para essas mortes?

Leia mais: Crianças racializadas são mais propensas a problemas de desenvolvimento infantil

Diversos estudos demonstram que as condições de vida exercem influência direta sobre a mortalidade infantil. O acesso à saúde, à alimentação adequada, à moradia digna, ao saneamento básico e à infraestrutura urbana interfere significativamente nas chances de sobrevivência de uma criança.

Segundo dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), referentes ao ano de 2022, cerca de 44% da população brasileira ainda não possuía acesso à coleta de esgoto. Isso significa que milhões de pessoas continuam vivendo em condições que favorecem a proliferação de doenças evitáveis e outros agravos à saúde.

Logo, quando observamos indicadores como a mortalidade infantil, não basta saber quantas crianças morreram.

É preciso perguntar quem eram essas crianças.

Quais eram suas condições de existência.

E é justamente nesse ponto que a Demografia começa a revelar algo que, por muito tempo, permaneceu invisível.

Se a ausência de saneamento básico, de infraestrutura urbana e de serviços essenciais continua contribuindo para mortes evitáveis na infância, torna-se necessário perguntar quem são as populações mais expostas a essas condições.

No Brasil, a população negra está sobrerrepresentada nos territórios marcados pela precariedade habitacional, pela ausência de saneamento e pela insuficiência de políticas públicas. Estudos do IBGE e do Instituto Trata Brasil demonstram que pessoas pretas e pardas apresentam, historicamente, piores indicadores de acesso à coleta de esgoto, abastecimento de água tratada e demais serviços de infraestrutura urbana quando comparadas à população branca. Em outras palavras, os grupos mais expostos às consequências da falta de saneamento possuem, também, cor e endereço.

Quando determinadas parcelas da população permanecem historicamente mais vulneráveis à doença, ao adoecimento e à morte em razão do lugar onde vivem e das condições que lhes são impostas, não estamos diante de uma mera desigualdade estatística.

Trata-se de uma distribuição desigual do direito de viver.

É nesse contexto que o conceito de necropolítica, desenvolvido pelo filósofo camaronês Achille Mbembe, ajuda a compreender como determinadas vidas acabam sendo sistematicamente expostas a riscos que poderiam ser evitados, enquanto outras recebem proteção, infraestrutura e oportunidades. A morte deixa de ser apenas um evento biológico para revelar também escolhas políticas sobre quais corpos são protegidos e quais permanecem mais vulneráveis.

Foi então que compreendi que a Demografia não trata apenas de números.

Ela também trata de ausências, silêncios e desigualdades.

Saber quantas pessoas nascem ou morrem continua sendo importante, mas talvez a pergunta mais urgente seja outra: quem nasce, quem morre e sob quais condições?

Talvez a pergunta mais incômoda não seja quantos bebês negros morrem no Brasil, mas por que durante tanto tempo essa sequer foi uma pergunta central em muitas pesquisas demográficas. A ausência de dados racializados inclusive sobre isso não é neutra. Quando determinados fenômenos são medidos sem considerar raça, torna-se mais difícil identificar desigualdades, compreender suas causas e formular políticas públicas capazes de enfrentá-las.

Os números que temos sobre mortalidade infantil são importantes, mas, isoladamente, pouco dizem sobre quem são os corpos mais atingidos por esse fenômeno e sobre as condições sociais que tornam algumas vidas mais vulneráveis do que outras. O que não aparece nos indicadores tende também a aparecer menos nas prioridades do Estado. Afinal, toda ausência estatística também conta uma história.

É justamente por isso que a Demografia, assim como outras áreas do conhecimento, precisa ampliar suas lentes de observação. Em um país marcado por desigualdades históricas, compreender a realidade exige considerar, de forma articulada, raça, classe e gênero. Não para substituir os números, mas para permitir que eles revelem aquilo que, durante muito tempo, permaneceu invisível.

Quando as pesquisas demográficas dialogam com raça, território e acesso a direitos, elas deixam de contar apenas pessoas e passam a revelar histórias: histórias de vidas que foram protegidas e de outras que permaneceram expostas.

Por isso, o recorte racial não é um mero detalhe em uma pesquisa demográfica.

Ele é uma das chaves para compreender um país profundamente complexo e desigual.

Leia mais: Gestantes negras têm alta de mortalidade por hipertensão; taxa cai em outros grupos

A editoria Quilombo reúne textos opinativos. Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a visão da Alma Preta sobre quaisquer temas.

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  • Linguista e sociólogo, mestre em Linguística Aplicada pela UFMG e doutor em Estudos de Linguagens pelo CEFET, coordenador do Grupo de Estudos Críticos para as Relações Étnico-raciais e autor dos livros "Racismo Estético: decolonizando mentes e práticas educativas", "O homem de calcinha" e "O homem grávido".

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