A corrida pela colonização do espaço no futuro está distante da colonização de povos no passado? Para responder essas e outras perguntas a Alma Preta acaba de lançar “Entre Deuses e Astronautas”, podcast narrativo em quatro episódios que pergunta quem tem o direito de explicar o universo.
Apresentado e roteirizado pelo jornalista e co-fundador da agência de jornalismo, Vinícius Martins, a série olha para o céu a partir das cosmovisões de povos africanos e afro-brasileiros e parte de uma constatação: a ciência que aprendemos na escola apagou outras formas, igualmente antigas e sofisticadas, de compreender o cosmos.
Quer receber nossa newsletter?
Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!
A série parte da astronomia para chegar ao racismo científico e investiga por que os saberes africanos sobre o céu foram tratados como mito enquanto o conhecimento europeu virou sinônimo de ciência.
Entre Deuses e Astronautas apresenta as cosmologias negras, das tradições bakongo às iorubá, dogon e egípcia, e evidencia a disputa sobre quem pode produzir conhecimento olhando para o espaço. Tudo a partir das reflexões e dos sonhos de cientistas e pesquisadores negros do Brasil que veem no céu o sentido do nosso mundo.
O primeiro episódio começa pela história da criação do universo segundo os bakongo, povo da África Central, uma narrativa ausente das escolas e da TV justamente porque o cânone científico se construiu sem ela. Sem forçar equivalências, o episódio investiga por que essa história dialoga de perto com a teoria do Big Bang e apresenta o principal modelo cosmológico da ciência atual em conversa com outras formas de explicar o começo de tudo.
Leia mais: Documentário percorre trajetória de professor referência em astronomia indígena
É a vez dos cientistas negros
A astronomia é uma das áreas mais brancas da ciência brasileira, e é desse lugar que a série tira sua urgência. Colocar pesquisadores negros para narrar o céu não é questão só de representatividade, mas também a oportunidade de disputar o que conta como conhecimento.
“Quando a gente traz outras cosmologias, a gente está tensionando o conceito hegemônico do que é a ciência. O que é ciência? O que é tecnologia? O que significa a palavra desenvolvimento? O que é inovação?”
A fala é de Alan Alves Brito, astrofísico e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Ele estuda a composição química de estrelas da Via-Láctea e investiga como o colonialismo e o racismo afetaram as perspectivas não europeias sobre o céu e a Terra. Alan também é autor de “Cosmologias e Cosmopolíticas Afropindorâmicas” e idealizador do curta animado “Jeguatá Xirê”, que apresenta o céu como um arquivo infinito de narrativas ancestrais e está disponível gratuitamente no YouTube.
O primeiro episódio reúne ainda outros pesquisadores que tratam o céu como arquivo de memória e ancestralidade negra. Gabriel Pereira, também pesquisador da UFRGS, estuda a relação entre a cosmologia bakongo e as infâncias negras brasileiras e é coautor do artigo “Performance e Ancestralidade: o que a cosmologia bakongo ensina sobre a infância negra brasileira?”. Tiganá Santana é um dos principais pesquisadores da cosmologia bakongo no Brasil e traduziu o “Livro Africano Sem Título”, do antropólogo e historiador congolês Bunseki Fu-Kiau.
O podcast foi selecionado no Camp Serrapilheira 2025, chamada do Instituto Serrapilheira voltada exclusivamente a podcasts de ciência liderados por pessoas negras e indígenas. Pessoas negras são maioria no Brasil, 55,9% da população, mas quem decide o que vira jornalismo e o áudio ainda é, em geral, branco. A chamada existe para mudar este cenário.
O primeiro episódio do podcast já está disponível no Youtube e no Spotify. Novos episódios vão ao ar a cada duas semanas nas principais plataformas de áudio.