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Vídeo mostra PM acusar diretora de escola de ‘ditar ideologia’ em caso envolvendo desenho de orixá

Tenente Ronald Camacho acusou diretora da EMEI Antônio Bento de doutrinação durante abordagem; pai que chamou a polícia foi indiciado por intolerância religiosa
Mural com desenhos feitos por alunos do EMEI Antônio Bento, em atividades sobre orixás.

Mural com desenhos feitos por alunos do EMEI Antônio Bento, em atividades sobre orixás.

— Reprodução/Metrópoles

23 de junho de 2026

Câmeras corporais dos policiais militares que atenderam à ocorrência na Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI) Antônio Bento, em novembro de 2025, registraram o momento em que o tenente Ronald Camacho acusou a diretora Aline Aparecida Floriano Nogueira de querer “ditar sua ideologia”. 

As imagens, obtidas em primeira mão pelo Metrópoles, mostram a tensão da abordagem e os argumentos usados por ambas as partes.

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O caso ocorreu no dia 12 de novembro. Um pai de uma aluna de 4 anos chamou a Polícia Militar após a criança desenhar a orixá Iansã em uma  atividade escolar. O homem, que também é policial, afirmou que a filha era obrigada a ter aula de religião africana. 

No dia anterior, ele havia entrado na escola, rasgado o mural de desenhos e coagido a professora com gritos e dedo apontado ao rosto, segundo relato da diretora registrado pelas bodycams (câmeras corporais).

A atividade fazia parte de um projeto pedagógico baseado no livro “Ciranda em Aruanda”, de Liu Olivina, que integra o acervo oficial da rede municipal de São Paulo e tem o selo Altamente Recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. 

As crianças ouviram a história e, em seguida, produziram desenhos livres. A escola não ofereceu orientação religiosa, conforme a direção e a Diretoria Regional de Educação Butantã.

PMs entram armados em escola e diretora é acusada de doutrinação

Quatro policiais militares chegaram à escola em três viaturas. Um deles portava metralhadora, o que assustou crianças e funcionários, segundo relatos colhidos pelo Metrópoles. Os agentes entraram pela parte de trás do prédio, já armados, depois de serem contidos na portaria pela direção.

Na época, a diretora Aline Aparecida Floriano Nogueira, mulher negra, relatou à Alma Preta que havia solicitado apoio da Guarda Civil Municipal no dia anterior, por causa da agressividade do pai. O efetivo que chegou, no entanto, não pertencia à ronda escolar. Ela afirmou que se sentiu vulnerável durante a abordagem. 

Pais de alunos descreveram a ação como “grosseira” e “hostil”. A diretora demonstrou surpresa ao descobrir que os policiais vieram a pedido do pai, não da escola.

A diretora explicou aos policiais que a escola segue a lei federal 10.639/2003, que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira. O tenente Ronald a interrompeu e citou a lei federal 13.796/2019, que torna facultativo o ensino religioso. 

Funcionárias insistiram que a escola não ensina religião. O policial rebateu: “Como não? Eu vi um desenho escrito Iansã. É uma entidade da cultura afro.” A diretora tentou explicar a natureza literária da atividade, mas o tenente rejeitou: “Isso que a senhora está falando que ‘é cultura’, e tal… Não [é], estamos falando de uma religião.”

A diretora convidou os policiais e o pai para uma reunião do conselho escolar. Os PMs recusaram. O tenente Ronald classificou a situação como “uma ocorrência”. A educadora afirmou que o pai promovia “uma coação para a escola”. O policial expulsou um agente que defendeu o direito do pai. A diretora perguntou se os PMs eram advogados do pai. 

O tenente Ronald, então, insinuou que a diretora estava nervosa e que não queria ouvi-lo. Ele deixou o corredor e afirmou: “A senhora quis impor e ditar as suas regras, ditar seu pensamento, ditar a sua ideologia. Não vou conversar com a senhora agora. E, se tiver alguma medida, eu tomarei; voltarei aqui com a medida administrativa.”

Leia mais: PMs entram armados em escola após pai denunciar desenho de orixá; ‘Me senti vulnerável’, diz diretora

Pai de aluna indiciado por intolerância religiosa 

A Polícia Civil indiciou o pai da aluna por intolerância religiosa. A Polícia Militar abriu Inquérito Policial Militar para investigar a conduta dos agentes. A Secretaria da Segurança Pública informou, em nota, que as imagens das câmeras corporais foram analisadas, os depoimentos colhidos e o inquérito encaminhado ao Tribunal de Justiça Militar.

A Diretoria Regional de Educação Butantã defendeu a escola em nota oficial. “A EMEI Antonio Bento agiu no estrito cumprimento da Lei”, afirmou. O comunicado disse que as experiências promovidas às crianças “não possuem caráter doutrinário, mas pedagógico e cultural”. O texto pediu apuração rigorosa das autoridades e reafirmou o compromisso com a educação pública, laica e antirracista.

Pais e responsáveis registraram boletim de ocorrência e denunciaram na Ouvidoria da Polícia Militar. A comunidade escolar realizou ato de apoio à escola. A autora do livro “Ciranda em Aruanda”, Liu Olivina, lamentou o episódio.

Leia mais: Erika Hilton pede à Corregedoria expulsão de PMs que invadiram escola infantil após desenho de orixá

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  • Giovanne Ramos

    Jornalista multimídia formado pela UNESP. Atua com gestão e produção de conteúdos para redes sociais. Enxerga na comunicação um papel emancipatório quando exercida com responsabilidade, criticidade, paixão e representatividade.

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