Quem conhece José do Patrocínio? Foi essa a pergunta disparadora que resolvemos trazer para aula de História sobre pós-abolição. A surpresa não foi apenas que os alunos do Ensino Médio não o conheciam, mas que alguns tinham estudado em uma escola pública que leva o nome deste reconhecido, não pelos adolescentes e jovens, abolicionista negro. É fato que vários docentes desta referida escola, provavelmente, fizeram projetos ensinando quem foi o cidadão que dá nome a instituição educacional, no entanto, a questão que fica é: por que isso não ficou marcado nos estudantes?
A historiografia brasileira feita por pessoas negras tem avançado muito, revelando inúmeros materiais que podem ser produzidos e/ou usados em sala de aula (fotos, transcrições, mapas, relatos, dentre outros) para qualificar e analisar as experiências negras nos anos após a abolição da escravatura. Tais fontes colaboram diretamente na compreensão da presença negra nos eventos históricos que marcaram a história brasileira e, principalmente, instituem os sujeitos negros como sujeitos históricos.
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Frente a esta realidade acreditamos que a construção de uma sociedade efetivamente antirracista apresenta desafios como: alargar cronologicamente o que denominamos de “pós-abolição” e problematizar o desconhecimento de adolescentes e jovens sobre quem foi José do Patrocínio. Nesse sentido, a compreensão dos efeitos transgeracionais de um país escravocrata precisa ir além do fundamental questionamento da Princesa Isabel como Redentora.
É urgente reconhecer que há uma atenuação sistemática das histórias negras e suas contribuições para o desenvolvimento do país, mesmo quando elas foram inscritas em monumentos públicos e na paisagem urbana. Parece que os sujeitos negros deixaram de existir na história do Brasil e, junto com eles, todas as heranças da escravidão. Dessa maneira, é urgente pensarmos: as políticas públicas ausentes na Lei Áurea enfim chegaram? Elas são capazes de superar os legados escravistas presentes no país?
Quando perguntamos aos estudantes o que eles acham que aconteceu no dia seguinte à abolição, a resposta em geral é que os ex-escravizados ficaram muito felizes e foram embora. Como proposta reflexiva apresentamos as nossas turmas duas músicas, a saber: 1) “Meu Deus, Meu Deus, Está Extinta A Escravidão?” Canção da G.R.E.S. Paraíso do Tuiutí, Grazzi Brasil e Nino do Milênio de 2017 e 2) “14 de Maio”, Canção de Lazzo Matumbi ‧ de 2019.
Das referidas canções destacamos os seguintes trechos:
“E assim quando a lei foi assinada
Uma lua atordoada assistiu fogos no céu
Áurea feito o ouro da bandeira
Fui rezar na cachoeira contra bondade cruel”
(Meu Deus, Meu Deus, Está Extinta A Escravidão?)
“No dia 14 de maio, eu saí por aí
Não tinha trabalho, nem casa, nem pra onde ir
Levando a senzala na alma, subi a favela
Pensando em um dia descer, mas eu nunca desci”
(14 de maio)
O que seria esta bondade cruel? Como o dia seguinte da abolição refletiu a ausência de políticas públicas ecoando nas demandas de reparação histórica até os dias atuais? São questionamentos que sendo feitos aos educandos refletem também como nós, docentes da disciplina de História decidimos abordar esta temática em nossas aulas.
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Nos anos posteriores à abolição, ocorreu uma série de movimentações para que o Brasil se tornasse uma nação civilizada, o que naquele contexto significava embranquecer a nação. O projeto não limitou-se apenas ao fomento da imigração europeia, mas também incluiu políticas de marginalização da população negra, excluindo-a de oportunidades de trabalho e educação após a abolição.
Também é importante denunciar a escrita de uma história nacional que compreende os sujeitos negros restritamente à condição servil, enquanto o sujeito universal branco foi responsável pela construção da civilização brasileira. Vemos assim que os legados da escravidão estão perenes na “bondade cruel” de parte da sociedade brasileira que reverencia o mito da democracia racial, enquanto ignora a exclusão social imposta às populações negras e a violência cotidiana vivenciada pelos negros no Brasil.
Este artigo é um convite à reflexão: o pós abolição é um recorte temporal ou um posicionamento para analisar a experiência negra na República? Se for um período, ele vai até quando? Se for uma forma de estudar, ele está confrontando o quê? Como escreveu Bertolt Brecht “tantas histórias, tantas questões”.
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