Câmeras corporais dos policiais militares que atenderam à ocorrência na Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI) Antônio Bento, em novembro de 2025, registraram o momento em que o tenente Ronald Camacho acusou a diretora Aline Aparecida Floriano Nogueira de querer “ditar sua ideologia”.
As imagens, obtidas em primeira mão pelo Metrópoles, mostram a tensão da abordagem e os argumentos usados por ambas as partes.
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O caso ocorreu no dia 12 de novembro. Um pai de uma aluna de 4 anos chamou a Polícia Militar após a criança desenhar a orixá Iansã em uma atividade escolar. O homem, que também é policial, afirmou que a filha era obrigada a ter aula de religião africana.
No dia anterior, ele havia entrado na escola, rasgado o mural de desenhos e coagido a professora com gritos e dedo apontado ao rosto, segundo relato da diretora registrado pelas bodycams (câmeras corporais).
A atividade fazia parte de um projeto pedagógico baseado no livro “Ciranda em Aruanda”, de Liu Olivina, que integra o acervo oficial da rede municipal de São Paulo e tem o selo Altamente Recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil.
As crianças ouviram a história e, em seguida, produziram desenhos livres. A escola não ofereceu orientação religiosa, conforme a direção e a Diretoria Regional de Educação Butantã.
⏯️ Desenho de Orixá: PM disse a diretora que ela queria “ditar ideologia” pic.twitter.com/ugU4ViaU85
— Metrópoles (@Metropoles) June 22, 2026
PMs entram armados em escola e diretora é acusada de doutrinação
Quatro policiais militares chegaram à escola em três viaturas. Um deles portava metralhadora, o que assustou crianças e funcionários, segundo relatos colhidos pelo Metrópoles. Os agentes entraram pela parte de trás do prédio, já armados, depois de serem contidos na portaria pela direção.
Na época, a diretora Aline Aparecida Floriano Nogueira, mulher negra, relatou à Alma Preta que havia solicitado apoio da Guarda Civil Municipal no dia anterior, por causa da agressividade do pai. O efetivo que chegou, no entanto, não pertencia à ronda escolar. Ela afirmou que se sentiu vulnerável durante a abordagem.
Pais de alunos descreveram a ação como “grosseira” e “hostil”. A diretora demonstrou surpresa ao descobrir que os policiais vieram a pedido do pai, não da escola.
A diretora explicou aos policiais que a escola segue a lei federal 10.639/2003, que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira. O tenente Ronald a interrompeu e citou a lei federal 13.796/2019, que torna facultativo o ensino religioso.
Funcionárias insistiram que a escola não ensina religião. O policial rebateu: “Como não? Eu vi um desenho escrito Iansã. É uma entidade da cultura afro.” A diretora tentou explicar a natureza literária da atividade, mas o tenente rejeitou: “Isso que a senhora está falando que ‘é cultura’, e tal… Não [é], estamos falando de uma religião.”
A diretora convidou os policiais e o pai para uma reunião do conselho escolar. Os PMs recusaram. O tenente Ronald classificou a situação como “uma ocorrência”. A educadora afirmou que o pai promovia “uma coação para a escola”. O policial expulsou um agente que defendeu o direito do pai. A diretora perguntou se os PMs eram advogados do pai.
O tenente Ronald, então, insinuou que a diretora estava nervosa e que não queria ouvi-lo. Ele deixou o corredor e afirmou: “A senhora quis impor e ditar as suas regras, ditar seu pensamento, ditar a sua ideologia. Não vou conversar com a senhora agora. E, se tiver alguma medida, eu tomarei; voltarei aqui com a medida administrativa.”
Pai de aluna indiciado por intolerância religiosa
A Polícia Civil indiciou o pai da aluna por intolerância religiosa. A Polícia Militar abriu Inquérito Policial Militar para investigar a conduta dos agentes. A Secretaria da Segurança Pública informou, em nota, que as imagens das câmeras corporais foram analisadas, os depoimentos colhidos e o inquérito encaminhado ao Tribunal de Justiça Militar.
A Diretoria Regional de Educação Butantã defendeu a escola em nota oficial. “A EMEI Antonio Bento agiu no estrito cumprimento da Lei”, afirmou. O comunicado disse que as experiências promovidas às crianças “não possuem caráter doutrinário, mas pedagógico e cultural”. O texto pediu apuração rigorosa das autoridades e reafirmou o compromisso com a educação pública, laica e antirracista.
Pais e responsáveis registraram boletim de ocorrência e denunciaram na Ouvidoria da Polícia Militar. A comunidade escolar realizou ato de apoio à escola. A autora do livro “Ciranda em Aruanda”, Liu Olivina, lamentou o episódio.
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