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Exposição em Fortaleza debate colonialidade a partir do terror

Com curadoria de Lucas Dilacerda e obras de artistas LGBTQIA+, a mostra aborda a história da colonialidade como a história de um filme de terror
Pedra Silva, Assombro 02, da série "Toda cidade grande é um cemitério de vidas orgânicas", 2025.

Pedra Silva, Assombro 02, da série "Toda cidade grande é um cemitério de vidas orgânicas", 2025.

— Giovelli Flowers

5 de julho de 2026

O Museu de Arte Contemporânea (MAC Dragão), em Fortaleza, no Ceará, inaugura em 18 de julho a exposição “Terror celestial”, com curadoria de Lucas Dilacerda. A mostra apresenta obras de artistas LGBTQIA+ para discutir o terror.

A exposição parte da ideia de que a história da colonialidade é a história de um filme de terror. Historicamente, as existências de pessoas LGBTQIA+ têm sido associadas às figuras do terror, sendo chamadas de “monstros”, “queer”, “estranhas”, “assustadoras”, “freak“, “aberrações” e demais figuras que causam medo na cis-heteronormatividade-compulsória e em seus ideais sócio-políticos-regulatórios de normalidade.

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A montagem lança um olhar para a produção de artistas LGBTQIA+ a partir da ótica do terror: tanto o gênero do terror como também o terror do gênero. A exposição busca discutir como o imaginário do medo e do terror é reelaborado por esses artistas enquanto força de criação e, portanto, de cura.

Segundo a psicanálise, uma das formas que o ser humano encontra para aliviar os seus medos inconscientes é descarregar esse sentimento negativo no “outro”, projetando na população LGBT+ a imagem de “anormal” para se autoafirmar como “normal”. Os filmes do gênero terror são um exemplo dessa transfiguração do medo inconsciente em monstros para o alívio da humanidade.

Leia mais: Violência contra população LGBTQIAPN+ cresce 212% em 11 anos; maioria das vítimas são negras

Paradoxalmente, corpos LGBTQIA+ sofrem cotidianamente acompanhados pelo afeto do medo: o medo de sofrer preconceito, o medo de apanhar na rua, o medo de sair de casa, inclusive o medo de ficar em casa, pois é justamente no ambiente familiar onde ocorrem a maioria dos casos de violência.

Não à toa esse medo se transforma em diversos traumas e estruturas psíquicas na vida adulta, como a baixa autoestima, a necessidade da legitimação externa, o perfeccionismo etc. Esses corpos sem lar, sem espaço seguro, experimentam a vida como um filme de terror.

É muitas vezes na arte que as pessoas LGBTQIA+ encontram um lugar seguro para se apropriarem daquilo que lhes oprime, transfigurando o medo em coragem, ressignificando os xingamentos em expressão cultural. Se o “monstro” é aquilo transcende o humano e cria outras maneiras de existir, encontramos essa ebulição criativa na arte dessa comunidade: transformistas, perucas, asas, unhas, drag queens, glitter, brilho, cores vibrantes, formas orgânicas, livres e exuberantes.

Nesse sentido, Terror celestial discute a ressignificação do terror em arte. A mostra reúne artistas LGBT+ (em sua interseccionalidade de raça, território e geração: mulheres queer, pessoas negras queer etc.) que fazem da sua arte uma reelaboração dos medos de infância e a apropriação do terror como uma categoria estética.

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Como é a exposição ‘Terror celestial’

A exposição é elaborada com três linhas curatoriais: Monstros e quimeras; Espiritualidade terrena; e Terror das formas.

Monstros e quimeras apresenta obras que discutem a monstruosidade como aquilo que transcende o nosso entendimento de humano (cis-heteronormativo). Nesse sentido, são obras mais-que-humanas que abordam o cruzamento dos reinos dos animais, das plantas, dos minerais, dos encantados e das forças sobre-humanas, tais como nas obras de Davi Ângelo, Higo Jose, insiranomeaqui, Jonas Van, Juno B, Luciana Magno, Maurício Coutinho e Trojany, que revelam um imaginário de seres híbridos, quimeras, místicos e fabulosos.

Espiritualidade terrena aborda a temática da religião, tão marcante na vida de pessoas  LGBT+. Historicamente, a religião cristã propagou a ideia de céu e inferno, na qual essas pessoas foram associadas a demônios e pecadores. Se por um lado a religião foi um espaço de violência, por outro lado pessoas LGBT+ buscam outras religiões para se conectar com a sua espiritualidade, tais como Charles Lessa, Isadora Ravena, Georgia Vitrilis, Honório Félix, Nicolas Gondim, Pedra Silva e Sérgio Gurgel. Nesse sentido, são obras que discutem a espiritualidade como um local de cura, apresentando raízes com saberes de matriz africana, tradições populares, cosmovisões indígenas e outras formas de conexão com a natureza espiritual.

Terror das formas parte do conceito de “terrorismo de gênero”, que reflete como a performance de gênero de pessoas LGBT+ provoca um terrorismo nas normas da cis-heteronormatividade. Terrorismo aqui é sinônimo de desobediência e, portanto, de criação de outras formas de existir. Nesse sentido, as obras de Antonio Breno, Bárbara Banida, Camila Albuquerque, Céu Vasconcelos, Gi Monteiro, Jonas Pinheiro e plantomorpho assustam a gramática normativa das artes e criam outras visualidades e expressões que resistem às categorias e classificações normativas.

A exposição conta com recursos de acessibilidade que favorecem a fruição de diferentes públicos durante a visita. Os recursos estão disponíveis em uma plataforma digital e podem ser acessados por meio de QR Code ou com o auxílio da equipe educativa. Entre as opções disponíveis estão textos em Libras, audiodescrição, prancha de comunicação alternativa e a possibilidade de agendamento de visitas acompanhadas por intérprete de Libras.

Serviço

Exposição: “Terror celestial”

Abertura: Sábado, 18 de julho de 2026, das 14h às 19h

Endereço: Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura – Rua Dragão do Mar, 81 – Praia de Iracema, Fortaleza (CE)

Período em cartaz: até 4 de outubro de 2026

Horário de funcionamento: Quarta a sábado – 9h às 19h (acesso até 18h30) | Domingo e feriados – 10h às 19h (acesso até 18h30)

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