A 33ª edição do Festival de Cinema de Vitória, que ocorreu entre os dias 18 e 25 de julho, reafirmou o seu papel na democratização do audiovisual e na formação de plateias no Espírito Santo.
Com uma programação que reuniu exibições gratuitas, debates e masterclasses, o evento se consolidou no estado como uma das principais janelas para a produção nacional fora do circuito comercial tradicional.
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Em entrevista à Alma Preta, a produtora executiva do festival, Larissa Delbone, afirmou que a conexão com a comunidade local é o elemento central que sustenta mais de três décadas de história.
“O maior ativo do Festival do Cinema de Vitória é o público. A nossa maior conquista é saber que o público do Espírito Santo gosta, precisa e frequenta um festival inteiramente brasileiro. Não existe nada mais importante para a gente do que essa relação com o público”, destacou.
Para a produtora, a experiência coletiva do cinema permanece insubstituível. “A catarse do cinema, na nossa visão, é uma catarse individual que se prolifera no coletivo. Quando a luz apaga e o filme começa, é a relação do diretor com a plateia. E isso, para a gente, é impagável. Então, acho que é um festival feito com muito amor, com muito cuidado e com muita brasilidade”, completou.

Cultura descentralizada e cinema itinerante
À reportagem, a executiva explicou ainda como a estrutura é organizada para oferecer espaço a produções que muitas vezes não chegam ao circuito comercial tradicional.
“O festival é dividido em 11 mostras, sendo mostras temáticas e algumas competitivas, como a Mostra Nacional de Curtas, que é a nossa mostra mais longeva, e a Mostra de Longas. O mais legal do festival são as oportunidades de janela para esses filmes que, no Espírito Santo, não frequentariam as salas de cinema convencional”, contou.
A inclusão e a garantia de direitos na sala de cinema também ganharam centralidade nesta edição.
“Um dos desafios desse ano foi que as medidas de acessibilidade já não são mais uma escolha, elas são uma realidade. E ter um festival inclusivo faz parte do nosso DNA. Estamos bem felizes em promover sessões que tenham contemplado a maior parte das acessibilidades, não faz sentido exibir quase 100 filmes se não forem acessíveis”, detalhou.
Além das exibições na capital, o circuito também se desdobra em outras atividades durante o ano, com o intuito de levar a experiência cinematográfica até o litoral capixaba.
“A gente tem uma edição itinerante que replica a experiência da sala de cinema nas praias do Espírito Santo. Este ano vamos circular em quatro praias do litoral, aproveitando essa dobradinha entre cultura e turismo”, relatou.
Larissa pontuou ainda a importância econômica e o papel formador que o evento exerce na região.
“Cultura precisa ser sustentável. É uma economia muito forte e o cinema tem vários ativos que contribuem para a economia criativa do estado. Os profissionais que atuam aqui, eu arrisco dizer que 100% deles passaram pelo festival de alguma maneira, sejam pelas formações ou pelo encantamento da sala escura”, apontou a produtora.
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A arte como compromisso social
Um dos momentos mais emocionantes da edição foi a homenagem à atriz Camila Morgado, cuja carreira é marcada por personagens marcantes da teledramaturgia e do cinema nacional.
Em conversa com a Alma Preta, a artista refletiu sobre a entrega exigida pela profissão e a responsabilidade social da arte.
“Eu tive a sorte de contar histórias muito importantes que podem criar uma identificação com outras mulheres e que podem até trazer alguma mudança real na vida de outras pessoas, como fizeram na minha. A gente tem essa ideia que o ator faz o personagem, mas às vezes é o personagem que faz o ator também, sabe? É como uma relação, ela é a mão dupla”.

Relembrando papéis marcantes, como a protagonista do filme “Olga” (2004) e a personagem Janete na série “Bom Dia, Verônica” (2020), Morgado reforçou a importância do olhar crítico sobre a sociedade.
“Foi muito importante para mim fazer, por exemplo, atuar como Janete para começar a entender e dar nome para as coisas que eu passava, que eu já tinha passado, revisitar lugares que a gente não tinha ideia. Ao fazer personagens como a Olga, também aprendi muito sobre o quanto é importante lutarmos por um Estado democrático”, compartilhou a homenageada.
A atriz também citou como a repercussão desses personagens a conectou com o público feminino.
“Várias mulheres me param na rua para falar o quanto esses trabalhos foram importantes. Eu acho importante quando criamos esse lugar do comprometimento com o social que a arte proporciona. A responsabilidade que a gente tem nos personagens e na obra que estamos fazendo, porque somos um corpo social”, destacou.
“Nós somos mulheres, a gente sabe que é bem difícil. A gente vive num país extremamente machista e racista, estruturalmente racista e machista. Então, a gente tem que estar sempre com os olhos bem abertos, lutando”, concluiu a atriz.
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