Maior evento de cinema e audiovisual do Espírito Santo, o 33º Festival de Cinema de Vitória ocorre de forma gratuita até 25 de julho, no Sesc Glória. O evento cinematográfico é considerado um dos mais tradicionais do estado e uma das principais janelas de exibição do audiovisual brasileiro no país.
Durante a semana de exibição, são apresentados 80 curtas e sete longas-metragens selecionados pela cineasta e produtora Flavia Candida, o mestre em Cinema e Artes do Vídeo Waldir e a pesquisadora e crítica de cinema Viviane Pistache.
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Entre as produções escolhidas, obras com protagonistas transsexuais foram destaque na 30ª Mostra Competitiva Nacional de Curtas e na 15ª Mostra Foco Capixaba, que compõem o festival ao lado da 16ª Mostra Quatro Estações, 15ª Mostra Corsária e 13ª Mostra Outros Olhares, que também possuem a assinatura do trio de curadores.
“Fazer um filme para os meus é incrível, é gigante”
O curta metragem “Irmã”, do diretor Anderson Bardot, tem como protagonista Iara (Kaiow), uma mulher negra e transsexual, que convida sua irmã para uma jornada interior com o intuito de quebrar um ciclo de violência doméstica que a aprisionou longe de sua própria identidade por muito tempo.
Em entrevista à Alma Preta, Kaiow compartilhou a importância de abordar as pautas LGBTQIAPN+ em espaços como o Festival de Vitória, após ter a sua identidade negada por diversas vezes.
“O ‘Irmã’ foi o trabalho da minha vida. Aquele choro [em cena], eu não estava atuando ali, porque aquela cena me deu um gatilho enorme. De coisas já vividas, sabe? E aí, retratar isso na arte, no audiovisual, no meu trabalho, é muito gratificante. Tinha dias que eu chegava em casa e eu chorava muito, porque eu peguei uma dor e eu transformei em arte”, revela.

Durante a apresentação que antecedeu a exibição do curta, a atriz foi até o meio do palco, e, em um gesto emocionante, repetiu seu nome em voz alta para um teatro lotado, com a intenção de reafirmar a sua identidade.
“Fazer esse filme, que fala sobre a história da Iara, mas que também é a minha história, e poder me reafirmar enquanto Kaiow, e trazer os meus junto comigo, fazer um filme para os meus é incrível, é gigante. Ó, tô arrepiada”, expõe a protagonista.
“Eu não sei até quando ainda vou ser desrespeitada. Eu acredito que a minha vida inteira, mas eu vou me reafirmar até o último dia. Vou continuar me reafirmando”, acrescenta a estrela de Irmã.
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Nem todo mundo tem direito de envelhecer
O longa “Fronteriza”, de Nay Mendl e Rosa Caldeira, conta a história de Lucca (Nay Mendl), um jovem homem trans da periferia de São Paulo, que viaja até a fronteira do Brasil com o Paraguai e a Argentina em busca do pai que nunca conheceu.
Ao lado do amigo paraguaio Diego (Diegoló), ele descobre semelhanças e diferenças em seus modos de vida que vão além dos binarismos de gênero, identidade e território.
Já o curta “Salve, Rainha!”, dirigido por Estevão Ribeiro e Fabio Carvalho, conta a história de Madalena (Valéria Barcellos), uma mulher transsexual que volta para a vila de onde foi expulsa para refazer os laços com a irmã e decide concorrer ao cargo de Rainha da Banda de Congo do falecido pai.

No Festival de Vitória, o capixaba Ribeiro compartilhou com a reportagem que a história o filme possui “detalhes muito importantes de pertencimento” para ele, que vive em São Paulo há 18 anos.
“Eu sou uma pessoa de 47 anos, sou mais capixaba do que parte do que eu vivo fora daqui, mas todos os dias os meus pensamentos me trazem ao Espírito Santo. A forma de celebrar isso é através da cultura, da arte e da literatura”, explica.
Questionado sobre a recepção do público, o diretor relata como tem sido a experiência no evento. “Ontem foi muito bonito porque eu encontrei uma mulher trans que nos agradeceu pelo filme e disse que se sentiu muito representada. Então, para mim, essa é a coisa mais importante”, conta.
“Eu, sendo um homem negro e cisgênero, tive muita consciência do que podia ou não podia fazer. Estava muito preparado para ouvir a Valéria, para que ela estivesse muito confortável no que escrevi. Porque eu também, como uma pessoa que, de certa forma, é tratada à margem da sociedade, estou em uma situação de vulnerabilidade”, analisa.
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O diretor também pontuou como a sua perspectiva ajudou na construção da protagonista. “Sendo um homem negro, a gente é visto como uma ameaça para a polícia. Somos a classe que mais morre assassinada e, muitas vezes, não chega a envelhecer”, pontua.
“Eu peguei um pouco desse instinto, desse respeito e transferi para essa personagem. De certa forma, a personagem da Valéria, Madalena, sou eu”, reflete.
Edição: Nataly Simões