No último sábado (6), o Festival Piauí de Jornalismo iniciou suas atividades com Selam Gebrekidan, repórter de investigações do The New York Times sediada em Hong Kong. Ela participou de um dos projetos jornalísticos mais ambiciosos dos últimos anos: “The Ransom”, que detalha como o Haiti foi forçado a pagar à França uma dívida extorsiva logo após a Revolução Haitiana (1791-1804).
O Haiti foi o primeiro país da região do Caribe e da América Latina a se tornar independente por meio de uma revolta bem-sucedida. Mas o preço por desafiar a ordem colonial foi alto. Em 17 de abril de 1825, sitiado por navios de guerra franceses, o país concordou em pagar uma indenização de 150 milhões de francos-ouro à potência europeia.
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Em 1914, o país usava mais de três quartos do orçamento nacional para pagar os bancos franceses. O Haiti quitou sua dívida somente em 1947, mais de 140 anos após a independência.
A série de reportagens do The New York Times, publicada em 2022, não apenas escancarou um capítulo pouco conhecido da história colonial, mas também gerou um debate internacional sobre reparação histórica à escravidão.
Gebrekidan, uma das principais repórteres do projeto, revelou os bastidores, os desafios e as consequências pessoais e profissionais de se fazer um jornalismo histórico de fôlego.
A mediação da conversa foi de Guilherme Henrique, editor digital da revista piauí, e de Flávia Marreiro, chefe do escritório da BBC Brasil em São Paulo.
O medo de trazer só o óbvio
A repórter revela que o projeto envolveu quatro repórteres e “um exército de pesquisadores”, inclusive no Haiti e na França, que foram fundamentais para conseguir acesso a documentos cruciais.
“Estávamos muito nervosos sobre qual seria a análise, se a gente não traria nada novo”, revelou Gebrekidan.
A equipe começou mergulhando na pesquisa para ver o que conseguiriam e encontraram foi uma história sistematicamente apagada, principalmente na França.
“A França, que é um país obcecado por sua história, não tem nada sobre essa história. Não se ensina nada sobre isso”, disse a jornalista.
Gebrekidan destacou o privilégio de trabalhar em um veículo como o NYT que oferece o tempo necessário para esse tipo de investigação. “Dois dos repórteres estavam exclusivos nesse projeto. Eu me dediquei exclusivamente um mês antes de publicar”, reconheceu.
Inspirado pelo espírito do “1619 Project” (que revisita o legado da escravidão nos EUA), o “Projeto Haiti” inovou ao publicar toda a sua bibliografia e dados de pesquisa.
“Era fundamental que os documentos ficassem disponíveis a todos que quisessem. Publicamos essa bibliografia, que foi inédito, porque queríamos transparência”. Para ela, a concordância dos editores com essa abordagem foi “uma grande vitória”.
A recepção entre historiadores foi positiva, mas não isenta de críticas. Alguns questionaram a bibliografia e a forma como os achados foram listados e tabulados.
Raça, um fator predominante
Questionada sobre o papel da raça na decisão de países do “ocidente” de ocupar e subjugar o Haiti, Gebrekidan foi categórica: “Nossas pesquisas apontam que raça é um fator predominante”.
Ela explicou que o Haiti, como a primeira república negra do mundo, foi colocado em uma posição deliberadamente difícil, boicotado por outras nações.
“A França conseguiu uma subjugação econômica. O ganhador pagou para o perdedor”, resumiu, referindo-se ao absurdo histórico da dívida.
Nos Estados Unidos, o “contágio moral” da Revolução Haitiana assustava as elites escravocratas do sul. “Raça é um fator predominante considerando o ganho econômico que se tinha escravizando outras pessoas”, analisa a jornalista.
Legado e expectativas
Sobre o legado da série de reportagens, a jornalista é cautelosa. “Eu tento não ter expectativa de resultado dos projetos”, afirma, sobre todas as reportagens que faz e já fez.
No Haiti, por exemplo, ela disse que muitas pessoas leram a reportagem. Além disso, até hoje, ela ainda recebe mensagens – tanto de agradecimento, quanto de ódio.
Gebrekidan vê que o projeto gerou um debate e que as fontes primárias ficaram disponíveis, mas ressalta que declarações de políticos, como as do presidente francês Emmanuel Macron, ainda são apenas promessas. “A gente não sabe o que vai acontecer”.
Ela se referiu ao anúncio do presidente francês, Emmanuel Macron, sobre uma comissão conjunta com o Haiti para examinar o passado partilhado dos países, em abril deste ano.
Fritz Deshommes, presidente do Comitê Nacional Haitiano sobre Restituição e Reparações, estima que o valor convertido do pagamento hoje pode ficar entre US$ 38 bilhões e US$ 135 bilhões.
Quanto à possibilidade de um projeto similar acontecer hoje, em contexto de governo Donald Trump, Gebrekidan acredita que talvez sim. No entanto, pondera que isso provavelmente não seria feito por conta da atual demanda de recursos para cobrir os grandes conflitos atuais, como as guerras na Ucrânia e em Gaza.
“Acho que não aconteceria por conta de outros fatos no mundo que estão demandando muitos recursos”, aposta.
Cobertura no seu país natal, Etiópia
A conversa também mergulhou em experiências pessoais difíceis de Gebrekidan. Ao cobrir o acidente da Boeing na Ethiopian Airlines, ela, que nasceu na Etiópia, enfrentou hostilidade extrema das autoridades e do público.
“Recebi ameaças do governo, de civis… Começaram a perseguir minha família, minha irmã, meus pais”, relembrou.
Ela teve que fugir do país assim que a reportagem foi publicada. “Nunca me senti tão insegura na vida profissional”.
Para encerrar a conversa, os mediadores perguntaram em qual reportagem Gebrekidan investiria seus recursos se tivesse todo o dinheiro do mundo. “Acho que eu investiria o dinheiro no trabalho dos meus colegas jornalistas que não têm recurso para fazer o seu trabalho.”