A Etiópia inaugurou nesta terça-feira (9) a maior hidrelétrica da África, a Barragem do Renascimento (GERD, na sigla em inglês), construída no rio Nilo Azul, próximo à fronteira com o Sudão. O primeiro-ministro Abiy Ahmed classificou o empreendimento como “um grande feito para todos os povos negros”.
Com 170 metros de altura, quase dois quilômetros de extensão e capacidade para armazenar 74 bilhões de metros cúbicos de água, a estrutura de US$ 4 bilhões (R$ 21.7 bilhões) deve gerar 5.150 megawatts de eletricidade — mais que o dobro da atual capacidade instalada do país.
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A inauguração contou com a presença de líderes regionais, como os presidentes William Ruto, do Quênia, e Hassan Sheikh Mohamud, da Somália.
Segundo o Banco Mundial, cerca de 45% dos 130 milhões de etíopes não têm acesso à eletricidade. O governo espera que a barragem reduza a dependência de geradores e impulsione a produção industrial, além de permitir a exportação de energia para países vizinhos por meio de linhas de transmissão que já chegam à Tanzânia.
A construção, iniciada em 2011, enfrentou dificuldades de financiamento, disputas diplomáticas e a guerra civil entre 2020 e 2022, mas foi concluída sob liderança da empreiteira italiana Webuild.

Protesto egípcio
O Egito, que depende do Nilo para 97% de sua água, protestou contra a inauguração. Em carta enviada ao Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), o governo de Abdel Fattah al-Sisi classificou o ato como “medida unilateral que viola o direito internacional” e afirmou que defenderá os “interesses existenciais” de sua população.
O país considera o projeto uma ameaça à sua segurança hídrica, enquanto Adis Abeba insiste que a barragem não afetará o fluxo do rio. “A GERD é um exemplo de conquista que não prejudicará o desenvolvimento dos países a jusante”, disse Abiy.
O Nilo Azul fornece até 85% da água que forma o rio Nilo, que segue por Sudão e Egito até o Mediterrâneo. Para especialistas, além da questão hídrica, a disputa envolve segurança nacional.
“Uma queda significativa no fornecimento ameaça a estabilidade interna do Egito”, disse Mohamed Mohey el-Deen, ex-integrante da equipe que avaliava o impacto da obra no Cairo.
Tentativas de mediação lideradas por Estados Unidos, Banco Mundial, Rússia, Emirados Árabes Unidos e União Africana fracassaram ao longo da última década.
Segundo a agência francesa de notícias AFP, analistas afirmam que, apesar da pressão internacional, o governo etíope utiliza o projeto como símbolo de unidade em meio a conflitos internos.
“Com fragilidade política crescente, a barragem e a disputa com os vizinhos servem como estratégia de coesão nacional”, avaliou Alex Vines, do Conselho Europeu de Relações Exteriores.