Mais de 1,3 milhão de pessoas que haviam fugido dos combates no Sudão retornaram às suas casas nos últimos meses, segundo comunicado divulgado nesta sexta-feira (25) por agências da ONU. Entre os retornos, estão mais de 1 milhão de deslocados internos e cerca de 320 mil refugiados vindos, principalmente, do Egito e do Sudão do Sul.
A ONU alerta que, embora os deslocamentos estejam ocorrendo em “bolsões de relativa segurança”, o contexto geral permanece altamente instável. O conflito entre o chefe do Exército, Abdel Fattah al-Burhan, e o comandante das Forças de Apoio Rápido (RSF), Mohamed Hamdan Daglo, iniciado em abril de 2023, já matou dezenas de milhares de pessoas.
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Atualmente, o Exército controla o centro, norte e leste do Sudão, após retomar a capital Cartum em março. A região oeste de Darfur continua sob domínio das RSF, e o sul do país, em Kordofan, tornou-se o novo epicentro dos confrontos.
Em nota conjunta, as agências Organização Internacional para as Migrações (IOM), Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) destacaram que as operações humanitárias estão “massivamente subfinanciadas” e pediram aumento urgente do apoio internacional. O Sudão contabiliza cerca de 10 milhões de deslocados internos, sendo 7,7 milhões expulsos de suas casas apenas no atual conflito.
O diretor regional da IOM, Othman Belbeisi, afirmou que 71% dos retornos ocorreram no estado de Al-Jazira, 8% em Cartum e a maioria restante no estado de Sennar, todos ao sudeste da capital. Ele projeta que, até o fim do ano, 2,1 milhões devem retornar a Cartum, dependendo da situação de segurança e da capacidade de restauração dos serviços básicos.
Belbeisi classificou o conflito como uma “guerra civil brutal que continua tirando vidas com impunidade” e denunciou o esquecimento da crise humanitária no Sudão.”O Sudão é um pesadelo vivo. A violência precisa parar.”
Destruição e minas no caminho de volta
Segundo Mamadou Dian Balde, coordenador regional da ACNUR para a crise sudanesa, muitos dos que voltam ao país, especialmente vindos do Egito, retornam “de mãos vazias” e encontram infraestrutura pública destruída, o que dificulta a reconstrução de suas vidas.
Luca Renda, representante do PNUD no Sudão, alertou para o risco de novos surtos de cólera em Cartum caso os serviços básicos não sejam rapidamente restaurados. Ele afirmou que cerca de 1.700 poços precisam ser reabilitados, além de pelo menos seis hospitais e 35 escolas que necessitam de reparos urgentes.
Renda também soou o alarme sobre a grande quantidade de artefatos explosivos não detonados encontrados em Cartum. Segundo ele, já foram localizadas minas antipessoais em pelo menos cinco pontos da cidade. “Levará anos para descontaminar totalmente a cidade.”
As agências das Nações Unidas reforçam que a reconstrução dos territórios devastados só será possível com o aumento imediato da cooperação internacional. Sem esse apoio, os milhões de sudaneses que tentam voltar para casa continuarão expostos à violência, à contaminação e à falta de condições básicas de vida.