PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

ONU acusa Nigéria de violações sistemáticas contra mulheres e meninas após década de sequestros em massa

Relatório aponta falhas do Estado em proteger vítimas, resgatar desaparecidas e garantir direito à educação
Pais e parentes de estudantes sequestrados da Faculdade Federal de Mecanização Florestal em Kaduna seguram faixas e cartazes durante uma manifestação em Abuja, na Nigéria, em 4 de maio de 2021.

Pais e parentes de estudantes sequestrados da Faculdade Federal de Mecanização Florestal em Kaduna seguram faixas e cartazes durante uma manifestação em Abuja, na Nigéria, em 4 de maio de 2021.

— Kola Sulaimon/AFP

18 de setembro de 2025

O Comitê para a Eliminação da Discriminação contra a Mulher (CEDAW, na sigla em inglês), da Organização das Nações Unidas (ONU), responsabilizou a Nigéria por violações graves e sistemáticas dos direitos de mulheres e meninas em meio a sequestros em massa. O relatório divulgado nesta quinta-feira (18) destaca que 91 meninas sequestradas em Chibok há dez anos continuam desaparecidas ou em cativeiro.

A investigação ocorreu após uma missão confidencial de duas semanas ao país em dezembro de 2023. A delegação visitou Abuja e os estados de Adamawa, Borno, Enugu e Kaduna, incluindo a Escola Secundária de Chibok, cenário do sequestro de 276 meninas em 2014 por combatentes do Boko Haram. Foi a primeira vez que representantes da ONU estiveram no local desde o episódio.

Quer receber nossa newsletter?

Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!

Segundo o relatório, o ataque de Chibok inaugurou um padrão de sequestros em massa de estudantes e comunidades no norte da Nigéria. Pelo menos 1.400 alunos foram raptados desde então, em ações atribuídas tanto ao Boko Haram quanto a outros grupos armados. As vítimas foram usadas como moeda de troca por prisioneiros, forçadas a casar, traficadas ou submetidas a violência sexual.

Das 276 meninas levadas de Chibok, 82 escaparam por conta própria e 103 foram libertadas entre 2016 e 2017 mediante negociações. Ao menos 91 permanecem desaparecidas.

Condições no cativeiro e estigma após a libertação

O relatório descreve as condições de detenção impostas pelo Boko Haram como degradantes. As meninas sofriam violência física, restrição alimentar, conversões religiosas forçadas e casamentos compulsórios. Algumas tiveram filhos em cativeiro.

As que conseguiram escapar não puderam regressar às suas comunidades devido ao estigma associado ao contato com os sequestradores. Muitas não tiveram acesso a apoio psicológico ou retorno escolar. Entre as libertadas por negociação, algumas receberam bolsas de estudo na American University of Nigeria e em instituições no exterior.

A presidente do Comitê, Nahla Haidar, afirmou em nota que essas meninas foram “duas vezes abandonadas: primeiro quando sequestradas, depois quando retornaram sem assistência adequada”.

Falhas do Estado e recomendações da ONU

O CEDAW concluiu que a Nigéria falhou em prevenir ataques contra escolas e comunidades, em garantir o direito à educação e em oferecer proteção efetiva contra sequestros. O Comitê também apontou a ausência de políticas de combate ao estigma contra sobreviventes de estupro e seus filhos.

Outra falha destacada foi a inexistência de tipificação uniforme para sequestro e estupro conjugal nos 36 estados do país.

O Comitê solicitou à Nigéria a retomar as negociações e operações de resgate para localizar as 91 meninas ainda desaparecidas e outras mulheres em poder de grupos armados. Recomendou ainda o fortalecimento da Polícia e das Forças Armadas para proteger mulheres e meninas de novos sequestros.

Apoie jornalismo preto e livre!

O funcionamento da nossa redação e a produção de conteúdos dependem do apoio de pessoas que acreditam no nosso trabalho. Boa parte da nossa renda é da arrecadação mensal de financiamento coletivo.

Todo o dinheiro que entra é importante e nos ajuda a manter o pagamento da equipe e dos colaboradores em dia, a financiar os deslocamentos para as coberturas, a adquirir novos equipamentos e a sonhar com projetos maiores para um trabalho cada vez melhor.

O resultado final é um jornalismo preto, livre e de qualidade.

  • Giovanne Ramos

    Jornalista multimídia formado pela UNESP. Atua com gestão e produção de conteúdos para redes sociais. Enxerga na comunicação um papel emancipatório quando exercida com responsabilidade, criticidade, paixão e representatividade.

Leia mais

PUBLICIDADE

Destaques

Cotidiano