A União Africana (UA) declarou, nesta quarta-feira (30), que não reconhece a formação de um governo paralelo pelas Forças de Apoio Rápido (RSF) no Sudão. A medida foi apresentada como resposta direta à nomeação de um novo primeiro-ministro e à criação de um conselho presidencial por parte do grupo armado, em meio à guerra civil que já dura dois anos.
O Conselho de Paz e Segurança da UA aconselhou todos os Estados-membros e a comunidade internacional a rejeitarem o que classificou como “fragmentação do Sudão”, alertando para as consequências negativas sobre os esforços de paz e o futuro do país.
Quer receber nossa newsletter?
Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!
O Sudão se encontra dividido entre áreas controladas pelo Exército – incluindo o norte, leste, centro e a capital Cartum – e territórios sob domínio da RSF, como Darfur e partes de Kordofan. A retomada da capital pelo Exército ocorreu recentemente. Segundo organizações locais de direitos humanos, centenas de pessoas foram mortas nos últimos ataques.
A guerra teve início em abril de 2023, após a escalada de tensões entre o general Abdel Fattah al-Burhan, chefe das Forças Armadas, e Mohamed Hamdan Dagalo, líder da RSF. Ambos foram aliados na derrubada do ditador Omar al-Bashir em 2019 e no golpe de 2021 que suspendeu a transição para o governo civil.
Em maio deste ano, foi formado o atual governo reconhecido internacionalmente, liderado por Kamil Idris, ex-oficial da Organização das Nações Unidas (ONU). No último sábado, a RSF respondeu com o anúncio de sua própria administração, intitulada “governo de paz e unidade”, sob a liderança de Mohamed Hassan al-Ta’ayshi como primeiro-ministro.
Interferência externa e riscos diplomáticos
A União Africana também condenou todas as formas de interferência externa, apontadas como combustível para o agravamento da guerra no Sudão. A ONU já havia emitido alertas semelhantes, inclusive sobre denúncias envolvendo o envio de armas à RSF.
Os Emirados Árabes Unidos têm sido acusados de fornecer armamento ao grupo, em violação ao embargo da ONU sobre a região de Darfur. Abu Dhabi, no entanto, nega as acusações, apesar de relatórios de especialistas da ONU, diplomatas, políticos norte-americanos e outras organizações internacionais.
Desde o início do conflito, dezenas de milhares de pessoas morreram. O país vive atualmente a maior crise global de fome e deslocamento. Representantes da ONU alertam que a criação de um governo paralelo pode intensificar a fragmentação do Sudão e dificultar ainda mais os esforços diplomáticos em curso.