Na última semana, foram registrados casos de racismo no futebol brasileiro e internacional. O historiador Danilo Pássaro, educador antirracista, fundador do Instituto Periferia Sem Fronteiras e liderança dos Gaviões da Fiel, comentou os episódios envolvendo o atacante do Real Madrid, Vini Jr., e o goleiro do Corinthians, Hugo Souza, além das mudanças e punições que considera necessárias.
Em entrevista à Alma Preta, Pássaro destacou a importância de modificar os protocolos antirracistas para proteger a vítima e punir imediatamente o agressor.
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“O que precisa mudar é o centro da decisão. A proteção do jogador vítima de racismo deve preceder a preservação do jogo. Duas mudanças são fundamentais: a palavra da vítima deve ter peso imediato e gerar consequência inicial concreta, além do encerramento da partida”, afirma.
Na terça-feira (17), Vini Jr. foi vítima de um novo episódio de racismo, por parte do atacante argentino Gianluca Prestianni, do Benfica, que chamou o brasileiro de “mono” (macaco, em espanhol). O caso ocorreu durante o jogo entre Real Madrid e Benfica, válido pelo mata-mata da Liga dos Campeões, no Estádio da Luz, em Lisboa, Portugal.
Cinco dias depois, o goleiro Hugo Souza foi alvo de ofensas racistas por parte de torcedores da Portuguesa, com expressões como “passa fome”, “vai cortar esse cabelo” e “favelado”, após a partida contra o Corinthians, no estádio do Canindé, em São Paulo, pelas quartas de final do Campeonato Paulista.
Danilo avalia que o futebol estruturou protocolos voltados mais à preservação da normalidade da competição do que ao enfrentamento do racismo.
“Enquanto o racismo for tratado como incidente disciplinar e não como violência estrutural, os protocolos permanecerão insuficientes, funcionando mais como mecanismos de contenção de danos do que como instrumentos de combate ao racismo no futebol”, enfatiza.

O atacante argentino do SL Benfica, Gianluca Prestianni, cobre a boca enquanto discute com o brasileiro do Real Madrid, Vinicius Junior, durante o jogo de ida da fase eliminatória da Liga dos Campeões no Estádio da Luz, em Lisboa, em 17 de fevereiro de 2026. (Foto: Patricia de Melo Moreira/AFP).
Punições imediatas e medidas institucionais são fundamentais
Em ambos os casos, as entidades dos clubes tiveram posicionamentos diferentes. Enquanto o Benfica apoiou a versão do jogador Gianluca Prestianni, a União das Associações Europeias de Futebol (Uefa) suspendeu o atacante provisoriamente. Ainda assim, houve questionamentos à denúncia de Vini Jr.
Nos últimos anos, o jogador sofreu mais de 20 casos de ataques racistas registrados na Espanha e teve a denúncia invalidada por técnicos, jogadores e pelo clube adversário.
O historiador ressalta que, além do reconhecimento da legitimidade da palavra da vítima, é fundamental adotar punições individuais imediatas e avançar na responsabilização institucional.
“A resposta não pode se limitar a sanções pontuais, como o afastamento do jogador por uma partida ou a perda de mando de campo. É necessário que existam multas e medidas de contrapartida institucional, como a implementação obrigatória de formações antirracistas para jogadores, funcionários e dirigentes, acompanhadas de compromissos públicos verificáveis”, afirma.
Passáro também defende que as multas aplicadas sejam integralmente revertidas para iniciativas de combate ao racismo, fortalecendo ações concretas de prevenção, educação e reparação.
“Considero pertinente a criação de um Fundo de Combate ao Racismo no Futebol, para o qual seriam destinados os recursos dessas multas, com a finalidade de financiar formações, pesquisas, campanhas educativas e iniciativas estruturais de enfrentamento ao racismo”, defende.
A medida se alinha à punição adotada pelo clube Red Bull Bragantino, que multou o jogador Gustavo Marques em 50% do total de seus vencimentos por conta de declarações machistas feitas contra a árbitra Daiane Muniz, com o valor destinado à ONG Rendar, que atende mulheres em situação de vulnerabilidade. O caso ocorreu no sábado (21) nas quartas de final do Paulistão.
Resposta institucional e combate ao racismo
Por outro lado, a Portuguesa identificou e excluiu os torcedores que proferiram ofensas racistas do quadro de sócio-torcedores do clube após o ocorrido e encaminhou as identidades às autoridades.
Para Danilo, respostas imediatas e estruturais não são apenas reações ao episódio, mas produzem impacto real ao transformar o posicionamento institucional em ação concreta e sinalizar que práticas racistas serão efetivamente responsabilizadas como forma de prevenção. “Isso rompe com a lógica histórica de impunidade e com a naturalização dessas violências como meros desvios individuais”.
Segundo o especialista, o clube já vinha promovendo oficinas de formação antirracista voltadas a jogadores, funcionários e dirigentes, com a participação dele como palestrante, além do goleiro Aranha, que também já foi vítima de racismo no futebol.
“Esse tipo de resposta também desloca o foco do indivíduo isolado para a responsabilidade institucional, elemento central para a prevenção. Quando o clube assume que o enfrentamento ao racismo e ao machismo faz parte da sua governança, contribui para a transformação da cultura institucional e reduz significativamente a possibilidade de reincidência”.
Edição: Nataly Simões