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Anciã indígena é alvo de racismo religioso e ameaça de morte

O criminoso foi preso, mas pagou fiança e está em liberdade; organizações se mobilizam por proteção à líder espiritual indígena
Imagem mostra anciã indígena usando colar e sorrindo.

Foto: Divulgação

30 de outubro de 2023

A anciã Tereza Espíndola, de 87 anos, líder espiritual da terra indígena Bororó, localizada na cidade de Dourados, Mato Grosso do Sul, foi alvo de ameaças de morte.

A idosa, que faz parte da população indígena Guarani Kaiowá, vive dias de terror depois que um homem que a agrediu e prometeu matá-la pagou a fiança de um salário mínimo e foi solto menos de 24 horas depois de ter sido preso.

A vítima não teve seu depoimento registrado, já que a delegacia que recebeu o caso não conta com tradutores do idioma guarani.

O caso ocorreu depois que Tereza acolheu a própria neta, esposa do criminoso e que também foi agredida por ele. Além das ameaças de morte, o agressor ainda proferiu diversas ofensas de cunho religioso.

O homem também ameaçou queimar a casa de reza, onde a líder espiritual conduz os ritos tradicionais.

Mesmo com a gravidade das agressões, o caso é tratado como ocorrência doméstica, com concessão formal de medida protetiva, mas sem nenhum tipo de segurança especial para a vítima, que mora em um território indígena e afastado da cidade.

Jaqueline Gonçalves Kuña Aranduhá Kaiowá, integrante da Kuñangue Aty Guasu, a Grande Assembleia das Mulheres Kaiowá e Guarani, acompanha o caso. Ela ressalta que rezadeiras e rezadores sofrem violências recorrentes de fundamentalistas religiosos, que resultam com frequência em mortes.

“A Justiça do Mato Grosso do Sul não trata esse caso como intolerância religiosa. Não falam de racismo e fundamentalismo religioso e nos últimos anos temos registrado muitas vítimas e muitos ataques às casas de reza”, denuncia.

Violência recorrente

No mês de setembro, um casal de rezadores do povo Guarani e Kaiowá foram assassinados na aldeia Guassuty, em Aral Moreira, cidade na fronteira entre Brasil e Paraguai. Os corpos de Sebastiana e Rufino foram encontrados em meio às cinzas da casa onde moravam.

Meses antes, em dezembro de 2022, Ñandesy Estela Vera, de 67 anos, foi assassinada a tiros em Japorã, cidade também do Mato Grosso do Sul. Os casos se acumulam e as denúncias são repetidas à exaustão pelos povos Guarani Kaiowá.

Relatórios que compilam diversos tipos de casos de violência estão disponíveis no site Kuñangue Aty Guasu.

“Muitas mortes ocorrem e não há investigação ou encaminhamento. É preciso que as leis sejam mais rigorosas na apuração desse tipo de crime e que haja mais visibilidade para esse problema. Não tenho mais nem o que dizer depois do tanto que já denunciamos”, reivindica Jaqueline.

Mobilização pela proteção da anciã

Desde a semana passada, instituições de defesa dos direitos humanos e dos direitos das mulheres se mobilizam por proteção à Tereza. Uma nota pública pela proteção da líder espiritual já tem o apoio de 25 organizações coletivas.

A nota foi entregue pela equipe do Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfemea) à ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara, e para a ministra das Mulheres, Cida Gonçalves.

A deputada Célia Xakriabá também recebeu pessoalmente o documento. O caso foi denunciado à Comissão Nacional de Direitos Humanos e oficialmente comunicado aos Ministérios da Igualdade Racial, Povos Indígenas e Mulheres.

  • Patricia Santos

    Jornalista, poeta, fotógrafa e vídeomaker. Moradora do Jardim São Luis, zona sul de São Paulo, apaixonada por conversas sobre territórios, arte periférica e séries investigativas.

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