Os quase 400 anos de escravização no Brasil deixaram, além de danos profundos, uma herança escondida na arquitetura das casas, o “quarto de empregada”. O tema foi o centro de um estudo desenvolvido a partir de 2017 pela cineasta Karol Maia e se transformou no embrião do documentário “Aqui não entra luz”, que venceu dois prêmios no Festival de Brasília de 2025, inclusive o de melhor direção.
O título do filme, que chega aos cinemas brasileiros em 7 de maio pela Embaúba Filmes, segundo a diretora, é uma referência ao espaço destinado aos trabalhadores dentro das “casas de família”: apertado, isolado e mal iluminado, geralmente localizado junto às cozinhas e lavanderias.
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Segundo estudos sobre a história do trabalho doméstico no Brasil, o quarto de empregada surge como uma adaptação urbana da lógica da senzala e da Casa Grande, concentrando em um único espaço a proximidade e o controle sobre a trabalhadora.
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Esse cômodo mantém a herança servil do século XIX ao limitar sua autonomia, estender sua disponibilidade ao trabalho e afastá-la do convívio familiar, muitas vezes em condições precárias e insalubres.
Dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informam que o Brasil ainda tem cerca de 5,9 milhões de trabalhadores domésticos, dos quais 91,9% são mulheres (69% delas, negras).
Esta realidade inspirou Karol Maia a mover o foco de suas pesquisas da arquitetura dos quartos para as pessoas que os ocuparam durante boa parte de suas vidas — e de suas relações com esses espaços. Foi também uma oportunidade para a diretora revisitar suas origens como filha de uma ex-empregada doméstica, o que, segundo o crítico Luiz Zanin Oricchio, no Estadão, garante particularidade ao filme: “há um diferencial em relação a obras anteriores, muitas delas dirigidas por pessoas de classe média, pois aqui a narrativa é assumida por alguém diretamente atravessado por essa experiência”. Essa virada de chave permite uma conexão natural da cineasta com suas entrevistadas.
Além de registrar as histórias destas mulheres que viveram por anos nesses cubículos, o documentário convoca uma discussão maior sobre este modelo incrustado na sociedade brasileira que molda o destino de milhares de famílias.
“Eu sou parte de uma geração que teve acesso ao Prouni (Programa Universidade para Todos), a primeira da família a se formar na universidade. O fato de ser eu dirigindo o filme, ser a minha história, já é um dado político”, declarou Karol Maia à Rádio Brasil de Fato.
“Eu acredito que o Aqui Não Entra Luz é um filme sobre a história do Brasil porque, sem o trabalho doméstico, sem as trabalhadoras domésticas, sem as amas de leite, sem as babás, esse país sequer existiria como é hoje. O trabalho doméstico é uma espinha dorsal do Brasil. O trabalho doméstico está no nosso imaginário, mas também está no cotidiano”.
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