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Especial Nina Rodrigues: o que eu vi acompanhando a rotina do IML de Salvador

Jornalista da Alma Preta passou três anos observando a dinâmica da violência urbana na capital baiana.
Arte: Daniel Pereira/Alma Preta.

Síntese do diário de três anos de apuração acompanhando o trabalho do IML de Salvador.

— Arte: Daniel Pereira/Alma Preta.

7 de outubro de 2025

Homem decapitado. Noite de segunda-feira de agosto de 2021

Eu cheguei ao Instituto Médico-Legal Nina Rodrigues, localizado na Avenida Centenário em Salvador, com a ideia de que seria uma noite tranquila. Era uma segunda-feira, pensei. 

Na minha cabeça, as situações de maior violência ficariam restritas aos finais de semana.

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Estava errado. 

Às 20h, recebi a informação de que ocorrera um caso que me poderia interessar. “Um homem foi esquartejado”, me disse um funcionário do IML com bastante naturalidade, e um pouco de empolgação. Parecia que aquela seria uma segunda-feira premiada.

O motorista, que infelizmente havia sido escalado para estar comigo naquela noite, me perguntou: “mas a gente precisa ir nessa?”. Respondi que sim, mas ele poderia ficar dentro do carro, para não ver a cena.

Saímos do Nina Rodrigues e logo chegamos ao local. Fica próximo ao Dique do Tororó, em um bar que sempre me chamou a atenção enquanto passeava de carro pela cidade. Na parte de fora, havia o escudo dos dois principais clubes de futebol da cidade, o Bahia e o Vitória.

Quando saí do carro, pedi para o motorista ficar ligado. Deveríamos sair rápido assim que eu conseguisse todas as imagens. Encontrei uma cena repleta de policiais civis e militares. 

“Não foi um esquartejamento. Decapitaram mesmo”, contou o funcionário do IML, com um uma olhar de decepção, como se o assassinato tivesse perdido um pouco do brilho. 

Como de costume, me deixei ser visto pelos policiais. Um homem negro, com uma câmera na mão, que pode ser confundida com uma arma, é um risco. Por isso, independente do calor soteropolitano, sempre trabalhei de camisa social. O crachá de imprensa visível à altura do tórax.

Comecei então a gravar as imagens. Não demorou para um policial perguntar se eu estava filmando o rosto dos agentes de segurança. “A situação está feia”. 

Essa foi uma das primeiras vezes em que fui abordado por um policial durante uma operação. O objetivo não era o de intimidar. Ele parecia ter medo de ser vinculado àquelas imagens brutais.

A conversa com o policial seguiu. Ele explicou a ocorrência. Um homem havia sido decapitado e corpo, assim como a cabeça, haviam sido colocados em um saco. Pessoas em situação de rua, que ficam na região, acharam estranho e chamaram a polícia. Para o agente de segurança, a suspeita era a de que alguma facção criminosa de Salvador estivesse envolvida.

“Quer matar? Mata. Mas não precisa disso”, me disse o policial. 

Aquelas palavras que jamais saíram da minha cabeça.

Funcionários da polícia técnica da Bahia levam ao IML jovem negro vítima da violência em Salvador
Violência nas noites em Salvador. Foto: Pedro Borges/Alma Preta.

Os funcionários do IML pegaram primeiro o corpo, uma pessoa o segurou pelos braços, e o outro pelas pernas. Logo colocaram em uma das gavetas do rabecão, que consegue transportar até seis cadáveres.

Ainda faltava a cabeça. O morto era cabeludo. O funcionário do IML pegou a cabeça pelos cabelos, que com a boca e os olhos bem abertos parecia olhar diretamente para os meus próprios olhos. Ele a colocou em um saco. O serviço estava feito.

Descobri que mais uma remoção seria feita, um caso de violência policial no Hospital Geral de Salvador, no bairro de Santo Agostinho, perto da Arena Fonte Nova.

Em todo esse período em que acompanhei o trabalho da equipe do IML, nunca encontrei uma morte causada por policiais que tivesse sido removida na rua. As vítimas dos policiais sempre eram levadas ao hospital, sob a justificativa de que ainda estavam com vida, no momento em que foram baleadas.

Em alguns minutos, chegamos ao Hospital Geral, que também parecia mais uma segunda feira normal. Poucas barracas de comida, poucos carros no estacionamento, alguns familiares apreensivos com a saúde dos internados. 

À distância, atrás das grades que separam as dependências do prédio, gravei a chegada do rabecão. A retirada do corpo de mais uma vítima da violência demorou vinte minutos. O carro anunciou a sua saída com as luzes vermelha e azul do giroflex para seguir os trabalhos na madrugada de Salvador.

De lá, fui direto para o hotel.  Tinha comigo uma fotografia do rosto decapitado. Parecia o registro de um homem assustado.

Naquela noite, antes de dormir, precisei beber um pouco para que o sono viesse.

Cabeça exposta. Janeiro de 2024

O calor não perdoava vivos e mortos. Eu usava camisa social, meu uniforme naqueles dias, e me sentia desconfortável.

Parecia ser um dia parado. Aos finais de semana, costumava chegar ao Nina Rodrigues depois do almoço. Diferente do horário comercial, quando o estacionamento fica repleto de carros, os sábados e domingos permitem procurar uma sombra.

Por mais que os números da violência na Bahia sejam assustadores, a morte não costuma seguir muito as regras estatísticas. Ele surgia aos finais de semana em que eu chegava às 14h e ficava até as 2h da manhã do dia seguinte.

O que era uma monotonia inútil para mim, se apresentava como um alívio para os motoristas. 

Todos falavam que o dia estava calmo, sem muitas ocorrências.

Aquele parecia mais um sábado em que ficaria conversando com o motorista sobre o desempenho de Bahia e Vitória. Gosto da dupla BaVi. Mais ainda de futebol.

Salvador é imprevisível, ainda mais durante um sábado.

Às 16h, com um sol ainda muito forte, recebemos uma chamada. Era uma morte violenta.

O bairro era Brotas, região central, o que me chamou atenção. O cenário era de um bairro de classe média, sem pessoas nas ruas, sem comércio, bares. Sem vida. 

Carro do IML se prepara para remover mais um corpo em Salvador. Foto: Pedro Borges/Alma Preta.

Em um dado momento, perdemos de vista os motoristas do IML. Em algumas situações, ficava com a impressão que eles corriam mais do que os pilotos do Samu.

A solução foi procurar os carros de polícia na avenida que tínhamos como referência. Depois de poucos minutos, localizamos as viaturas.

Faltou encontrar a cena do crime. Diferente do que eu estava acostumado, com um amontoado de curiosos e a revolta de familiares, só ouvia o ronco dos carros.

Os funcionários do Nina Rodrigues então desceram do rabecão, procuraram, procuraram e procuraram. Nada. Cheguei a achar que estávamos no local errado.

Minutos depois, os funcionários do Nina Rodrigues localizaram uma cabeça acima de três sacos de lixo. Só a cabeça, sem o corpo.

Com bastante naturalidade, de uma maneira bastante prática, pegaram o crânio, colocaram em um saco. Logo, retornaram ao IML, na expectativa de mais um chamado.

Uma briga de marido e mulher. Tarde de domingo de agosto de 2021

Já estava acostumado com a violência da noite de Salvador. Decidi testar a cidade em um domingo à tarde. Imaginava que a cidade, tão bela, deixaria a violência para a noite, quando parte da sua beleza é ofuscada.

O calor nos cozinhava no carro quando descobri que o rabecão sairia para Canabrava, para a Avenida Mário Sérgio Pontes, para remover uma vítima da violência urbana da cidade.

Durante o trajeto, percebi o óbvio, a grandeza da cidade de Salvador. Era rua, avenida, estrada, motorista acelerando, e nada de chegar. 

Era uma Salvador que mesclava áreas de mata e favela, uma cidade distante, em todos os sentidos, dos seus cartões postais. 

Depois de 40 minutos de caminho, foi possível avistar um amontoado de carros da polícia no acostamento, o sinal de que havia chegado à cena.

Uma faixa da estrada estava fechada, o que não impossibilitava de ouvir o som de corta vento do outro sentido, quase como um grito. 

Desci do carro com os cuidados de sempre, com a câmera abaixada, na expectativa de enxergarem minha camisa social e meu crachá. 

Quando me integrei à cena, reparei que aquele homem, de pele negra, estava estirado em um escadão. As escadas quase infinitas estavam banhadas com o sangue dele. 

Nenhum vivo, para além dos que ali trabalhavam, estava no local. 

O rapaz foi removido pelos funcionários do Nina Rodrigues. Depois de colocado na gaveta, apenas o seu pé esquerdo ficou destacado para fora.

No caminho para o carro, perguntei aos policiais o que havia ocorrido. Sem olhar nos meus olhos, um dos agentes me disse que foi uma “briga de marido e mulher”. O colega que o acompanhava abriu um sorriso contido, mas suficientemente irônico.

Devem ter pensado, “enganamos esse otário”, imaginei.

Uma noite com jogos. Sábado de maio de 2023

O Nina Rodrigues é um espaço assustador à noite. Não é difícil ver muitos ratos correndo de um lado para o outro. 

Em alguns casos, é necessário se trancar no carro, fechar as janelas e torcer para que os ratos não tenham curiosidade com o que se passa dentro.

O vento das árvores, a sombra da lua e as luzes falhas do prédio do Nina Rodrigues criam um clima de que algo está para acontecer.

Ajeitava o microfone, testava a câmera “áudio, som, ei, ei”, e começava a narrar. “É noite em Salvador e estamos indo sentido bairro da Cidade Nova”.

A violência em Salvador não é democrática, mas é ampliada. Sempre me chamou atenção como em bairros considerados centrais, ou muito próximos do centro, lidam de maneira natural com a “morte matada”.

“Você encosta, eu desço, gravo, e partimos, beleza?”, avisei ao motorista, já com o roteiro decorado de todas ações.

A gente chegou pela Avenida Centenário, quando entramos no bairro da Cidade Nova.

As luzes do rabecão, em ruas estreitas, avisam todos, de maneira silenciosa, que uma tragédia rotineira ocorreu. 

“Ih, o carro da morte”, disse um menino na rua.

Carro da morte pelas ruas de Salvador. Foto: Pedro Borges/Alma Preta.

As ruas estreitas exigiam trafegá-las em uma menor velocidade.

As pessoas estavam fora de casa, vivendo um sábado à noite de calor.

Um bar, repleto de homens com mais de cinquenta anos, estava cheio, com música alta de fundo, naquele tom que demanda maior desgaste da voz, mas não impossibilita o diálogo.

Bem à frente estavam os carros da polícia.

No chão jazia um rapaz negro, de camiseta e bermuda, parecia descalço. Nos pés, o seu único calçado era a tornozeleira eletrônica.

Como não houve um isolamento da área, os pedestres passavam, chegavam perto. Uma pessoa até tirou o fone de ouvido para ver do que se tratava. 

Aqueles que estavam no bar pareciam pouco interessados.

A remoção foi rápida, sem choro, ou lamento. Nenhum familiar apareceu.

Na volta, decidimos parar em um lugar para comprar água. O local escolhido foi um bar próximo à Fonte Nova, onde estavam concentrados alguns vendedores ambulantes.

Pedimos algo para comer, bebemos água, e o grande assunto era o jogo do Bahia, que tinha terminado em empate. O resultado manteve o time próximo à zona de rebaixamento. O clima era de derrota.

Menandro de Farias. Noite de sexta-feira de março de 2024

Passei a conhecer Salvador por meio dos hospitais.

O Menandro de Farias, localizado em Lauro de Freitas, é o que mais frequentei. O hospital atende as regiões Pitangueiras e Vilas do Atlântico de Salvador, bairros de muita presença negra, áreas em que o Estado mata ou deixa morrer.

Essa foi a sexta-feira mais agitada que tive, desde o início do trabalho. As corridas eram muitas.

Naquela semana, um policial havia sido morto em Lauro de Freitas. Em muitas partes do país, isso significa retaliação, vingança por parte das forças policiais.

A agitação foi por ali mesmo, com a chegada e saída de muitos carros da polícia. Alguns da famosa Chocolate, os agentes da Rondesp, a chamada tropa de elite da polícia baiana.

Chocolate por conta da cor do carro que usam, um marrom mais escuro. Em muitos casos, os policiais também são homens negros.

As mortes causadas por policiais dificilmente ficam nas ruas. Os chamados AR, como são ditos na linguagem dos trabalhadores da segurança, ou os Autos de Resistência, são concluídos nos hospitais.

Vítimas de violência policial costumam ter o corpo removido em hospitais. Foto: Pedro Borges/Alma Preta.

Eu ficava do lado de fora, separado por uma grade vazada, próximo de um arbusto, com a minha câmera. De lá, conseguia ver a chegada e a saída da emergência, sem ser muito notado.

Registrei a chegada de um carro da polícia, que abriu o porta malas, retirou dali um jovem. Na sequência, uma pessoa limpou com uma vassoura a parte de trás do carro.

Os policiais circularam o olhar para fazer uma varredura de quem estava ali. Logo cruzaram o olhar comigo.

Um policial de fuzil então deu a volta pelo muro do hospital e passou a andar na minha direção. Liguei e abaixei a câmera, para captar o áudio da conversa.

“Boa noite. Quem é você?”

“Meu nome é Pedro, sou jornalista.”

“Trabalha para onde?”

“Para uma mídia independente chamada Alma Preta.” 

O policial voltou para o estacionamento. Eu não permaneci por muito tempo. Queria localizar, na manhã seguinte, os familiares daquele jovem.

Urubus. Manhã de sábado de março de 2024

O meu trabalho consistia em acompanhar as mortes nas noites em Salvador. Acompanhar as remoções dos corpos de pessoas assassinadas e priorizar a apuração de casos de violência policial.

Queria registrar o ciclo da morte de jovens negros e o luto dessas famílias.

À tarde e à noite, acompanhava as mortes. Pelas manhãs, independente do horário que tivesse ido dormir, chegava às 8h ao Nina Rodrigues.

O Nina Rodrigues fica em um grande complexo, que para além do IML, tem o Departamento de Polícia Técnica (DPT) e o Instituto de Identificação Pedro Mello. Durante a semana, quase não há vagas para estacionar. Aos finais de semana, é possível escolher onde parar.

O complexo, cercado por muros verdes vazados e árvores grandes e barulhentas durante ventos fortes, tem uma entrada lateral à esquerda para a chegada das vítimas. 

No fim do prédio, à direita, há uma rampa, que parece as ladeiras de Salvador.

Ao final dela, uma porta de vidro. Quem passa por ela, recebe um sopro gelado, de ar condicionado.

Na porta, está escrito que é proibida a entrada de agentes de funerárias. O que não é um impeditivo para o trabalho deles.

Não é difícil para esses vendedores encontrarem seus clientes. Quem aparece em um IML pela manhã que não seja alguém que perdeu um familiar?

A disputa do mercado ocorre pelo bom e velho “quem chega primeiro”. Então os funerários ficam cada vez mais próximos da entrada, para logo conversar com as famílias e oferecer os melhores caixões.

Da parte deles, eu não sentia qualquer constrangimento. Chegavam, ofereciam e logo caminhavam com as famílias. 

Remoção de corpos em Salvador em um sábado à noite. Foto: Pedro Borges/Alma Preta.

Quando tentava conversar com uma família, que estava em diálogo com um agente funerário, logo recebia um olhar atravessado, como um “cheguei primeiro”. 

Com o tempo, pasei a sacar com quais famílias eu deveria puxar conversa, para tentar ouvir o relato sobre o que havia acontecido. 

À noite, acompanhava a morte de jovens homens negros. Pela manhã, me guiava por grupos de mulheres negras. 

E quando elas eram familiares de um jovem vítima de violência, o olhar era sempre o mesmo: a cabeça baixa, as roupas pretas, o abatimento quase total, o choro anunciado. 

Conversar com elas durante esse momento era sempre muito delicado. Na grande maioria dos casos, recebi negativas. Os motivos eram variados. Algumas mães, namoradas, e poucos pais, não queriam falar porque tinham outro filho ou conhecido, que poderia ser o próximo. Ou mesmo elas.

Em outros, a recusa era pela falta de condições de conversar com alguém sobre a tragédia que havia acabado de acontecer.

As pessoas que toparam falar comigo, dar entrevista, denunciar o caso, foram duas mães: as mãos de Jesus e de Senegal.

As mortes de Jesus e Senegal:

Afinal, ninguém tem mais coragem do que uma mãe para defender seus filhos, mesmo que seja para defender o nome deles.

Sempre deixava abatido do Nina Rodrigues. As manhãs de qualquer dia eram sempre mais duras do que as noites, por mais violentas que fossem.

Ao final, apesar dos cuidados e dos propósitos, ficava na dúvida se eu era muito diferente dos agentes funerários. 

Quando encerrei esse trabalho, tive a sensação de ter fechado um ciclo. Queria estar em Salvador por outros motivos. Queria estar pelos vivos.

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  • Pedro Borges

    Pedro Borges é cofundador, editor-chefe da Alma Preta. Formado pela UNESP, Pedro Borges compôs a equipe do Profissão Repórter e é co-autor do livro "AI-5 50 ANOS - Ainda não terminou de acabar", vencedor do Prêmio Jabuti em 2020 na categoria Artes.

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