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Especial Nina Rodrigues: PM baiana matou Jesus no dia do aniversário do irmão

Caso ocorreu no dia 27 de março de 2024, em Salvador, no bairro do Iapi; Caique de Jesus tinha saído de casa para comprar um cachorro quente.
Arte: Daniel Pereira/Alma Preta

Policiais militares executaram Caique de Jesus, de 20 anos de idade, em 27 de março de 2024, no bairro do Iapi, em Salvador. 

— Arte: Daniel Pereira/Alma Preta

30 de setembro de 2025

Jovem, homem negro, morador de periferia. Policiais militares executaram Caique de Jesus, de 20 anos de idade, no dia 27 de março de 2024, no bairro do Iapi, perto da Liberdade, em Salvador. 

Os agentes de segurança eram da viatura 3720, da 37 companhia do Pelotão de Emprego Tático Operacional (PETO).

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O jovem Jesus foi morto no dia do aniversário do irmão, Matheus de Jesus, de 22 anos, que não quer mais comemorar a data de nascimento. Não vê mais motivo para isso.

“No dia, era o aniversário do meu outro filho, irmão dele. Na outra semana, o meu aniversário. Não tem como comemorar assim. É horrível. Meu filho falou que não vai comemorar mais, porque ao mesmo tempo que é uma alegria, é uma tristeza”, relata Jamile Reis dos Santos, de 39 anos. Ela é a mãe de Jesus e hoje tem um olhar abatido, uma voz baixa e cansada.

Com a voz triste, ela relata que no dia o jovem saiu de casa para comprar um cachorro quente, quando os policiais do PETO entraram na comunidade. 

Com o susto, os jovens começaram a correr. Todos conseguiram fugir, menos Jesus. Ele caiu no chão. Os policiais atiraram no peito e no abdômen do jovem. Depois disso, enquanto o jovem agonizava, os agentes públicos o enforcaram, segundo relato da mãe.

Um site local, chamado de Alô Juca, conta a história usando apenas a versão policial. Assim, o texto afirma que traficantes receberam os policiais a tiros e que Jesus era um criminoso. Reis dos Santos nega qualquer envolvimento do filho.

Jesus teria sido socorrido para o Hospital Ernesto Simões, que fica a 5 minutos da localidade. “Tiraram a vida dele no meio do caminho”, conta Reis dos Santos. A casa dela é a última, quase no limite do terreno do Hospital Pedro Simões.

Especial Nina Rodrigues

Para ela, se houvesse vontade, a vida de Jesus poderia ter sido poupada, por conta da proximidade do hospital. “Eles se acham deuses, com o direito de tirar a vida. Eles entram aqui e falam que não querem mais prender, que eles querem matar”.

A reportagem buscou a Polícia Civil da Bahia para confirmar o caso na localidade, mas a instituição respondeu que não localizou nenhuma ocorrência com essas informações. A resposta indica que nenhuma investigação sobre o caso foi aberta.

Ela fala que depois do assassinato os policiais cantaram, em uma interpretação macabra, a música “Menino de Vó”. A letra da canção diz que “O menino de vó vai deixar vovó”. 

“Ele era um menino grande. Ele só tinha tamanho, não tinha maldade”, conta Reis dos Santos.

Ela se recorda dos gostos do filho. “Ele gostava muito de futebol, gostava do Flamengo, gostava de tocar, desde pequeno tocava percussão. Era um menino alegre. Ele realmente gostava de ficar na rua, com os amigos”.

A reportagem entrou em contato com a Secretaria de Segurança Pública (SSP) e o Ministério Público da Bahia (MP-BA) para saber se houve alguma investigação sobre as circunstâncias da morte e a conduta dos agentes de segurança. A SSP não enviou nenhuma resposta até a publicação desta reportagem.

O MP-BA não localizou informações sobre o caso de Caique de Jesus no sistema do órgão.

Violência generalizada em Salvador

A violência contra Jesus não foi pontual para a comunidade do Iapi. Dados do Fogo Cruzado mostram que 29 casos de tiroteio aconteceram na região em 2023 e 30, em 2024. 

Em 2023, foram 8 tiroteios envolvendo policiais militares, com 12 mortos. No ano passado, 13 ações policiais com tiros e 11 mortos.

A situação de violência em Salvador, contudo, não é restrita ao bairro. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2021, a polícia baiana, somente em Salvador, matou 300 pessoas, número que subiu para 438 em 2022, 457 em 2023 e reduziu para 420 em 2024. Nesses quatro anos, as mortes violentas na cidade somaram 6.019 vítimas.

Reis dos Santos critica a abordagem policial. Para ela, é necessário investigar os agentes de segurança.

“A polícia deveria investigar, tirar os corruptos e deixar os certos, porque eles matam tanto. Todo santo dia a gente vê na televisão mais um jovem morto. Todos atiraram? Todos estão com arma e droga? Tem algo de errado nisso, mas querendo ou não, eles são protegidos pela lei”, afirma. 

Passados meses da morte do filho, nenhuma pessoa da Polícia Civil, Ministério Público ou qualquer outra instituição do governo estadual entrou em contato.

“Não tem investigação, fica por isso mesmo. O que ele falou está falado, e é aquilo mesmo, ninguém pergunta. Fica como a história dele mesmo e pronto. Ninguém me procurou, nada”, diz.

Ela contou que, no dia anterior à entrevista, dias depois da morte de Jesus, uma nova ação policial ocorreu no bairro. “Ontem foi difícil dormir. A polícia desceu aqui até perto da porta onde eu moro”.

Seletividade policial

Para ela, as famílias carregam uma cruz durante toda a vida. “A gente fica com o nome dos filhos da gente sujo, porque fica como vagabundo. As pessoas olham para a sua cara e falam ‘eu não sabia que seu filho era envolvido’. É ruim você ouvir aquilo, porque você sabe a criação que você fez para os seus filhos”.

Reis dos Santos ainda acredita que Jesus estaria vivo se fosse um homem branco. “Se meu filho fosse branco, talvez não tirassem a vida. Só pegariam, prenderiam e levariam. A polícia é mais violenta com os jovens negros”, avalia.

Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública apontam a Bahia como líder no número de mortos por intervenção policial, com total de 1.699 vítimas.

Das dez cidades com maiores taxas de mortalidade por intervenção policial, metade está na Bahia. São elas: Jequié, Eunápolis, Simões Filho, Salvador e Luís Eduardo Magalhães.

Jesus tem o perfil da maioria das pessoas que a polícia mata no Brasil. Segundo o Anuário, a maioria são homens (99,3%), com idades entre 18 a 24 anos (41,5%) e negros (82,7%).

A casa ficou silenciosa, chorosa

Meses depois, em outubro de 2024, a reportagem visitou novamente a casa. A casa dela fica no bairro do Iapi. Quando a encontrei, marcamos no clube do Iapi. Do outro lado, havia uma lixeira, que estava escondida pela pilha de lixo.

O bairro parece uma comunidade familiar, com as pessoas na rua, interação entre as pessoas, cadeiras colocadas do lado de fora das casas, som alto de algumas residências. 

Do caminho da avenida até a casa de Jamile, as vias vão ficando mais estreitas. A avenida, com carros nos dois sentidos, dão lugar para ruas, com motos, vielas, com pessoas, e uma entrada mais estreita. 

Por conta das vielas estreitas, a casa é escura, mesmo durante o dia. 

No intervalo de pouco mais de oito meses, a residência seguiu diferente do habitual da família, parecida com o primeiro contato da equipe da Alma Preta.

“A casa fica mais silenciosa. Ele era o alegre, quem brincava, era bem alegre mesmo”. 

O caso de violência gerou impactos nos demais filhos. O menino é descrito como mais calado, e a menina, mais alegre. Cada um a sua maneira, ambos sentem a partida de Jesus. “A irmã mais nova deu uma choradinha, ela tem dez anos. Ela falou que, de olhar para os cachorros, lembra de Caique, e aí começou a chorar”. 

“A gente acabou ficando todo mundo mais reservado. E quando a gente sai, é para algum lugar distante, aqui é muito raro. Eu não deixo mais meus filhos ficarem na rua”. 

O silêncio e a tristeza fazem a família querer sair do bairro. “Eu estou pensando em sair daqui. Aqui tudo lembra ele, o convívio foi muito”. 

Desde o assassinato, os dias têm sido difíceis, um luto constante, que fica mais pesado em alguns períodos.

“À noite é mais complicado, porque é só você e ela. Durante o dia você ainda trabalha, distrai a cabeça. Mas a gente começa a aceitar, não tem mais o que fazer, trazer de volta”.

Reis dos Santos explica a situação difícil que uma mãe fica nesse momento, ela que também sinaliza a dor nas redes sociais, com fotos e mensagens de luto.

“Tem que ser forte, para não passar que está triste. É doloroso o papel de mãe, porque você tem que segurar. As pessoas falam, parece que você está forte, mas só por fora. Por dentro estou destruída”.

Um dos aspectos que mais pesa para ela é uma briga que teve com o filho. Na época em que os policiais mataram Jesus, os dois estavam sem conversar.

“Eu ainda sinto culpa, passam coisas na cabeça. A gente poderia ter conversado mais, falado mais, mas não teve aquela oportunidade”.

Alô, assessoria

O jornalismo, com letra tão minúscula quanto uma assessoria de imprensa mal feita, também tratou de matar Caique de Jesus.

O site Alô, Juca publicou uma notícia com as sub informações de que viaturas foram “atacadas por traficantes” e que “um bandido morreu durante o confronto”. 

Apresentador de um programa chamado Alô Juca, do SBT, Marcelo Castro e outras pessoas são acusadas de desviar dinheiro de doações para ajudar pessoas que estavam em situação de vulnerabilidade. 

Nenhum diálogo com os moradores do bairro ou com a família foi feito para apurar a informação.

“O site de notícias sempre coloca as pessoas como erradas, eles colocam sempre a polícia como certo e os outros como errados, sendo que eles não procuram investigar de verdade se foi aquilo que aconteceu”, explica Jamile.

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  • Pedro Borges

    Pedro Borges é cofundador, editor-chefe da Alma Preta. Formado pela UNESP, Pedro Borges compôs a equipe do Profissão Repórter e é co-autor do livro "AI-5 50 ANOS - Ainda não terminou de acabar", vencedor do Prêmio Jabuti em 2020 na categoria Artes.

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