A estrutura do sistema de saúde brasileiro ainda reproduz desigualdades históricas que impactam diretamente o acesso, o diagnóstico e o tratamento de populações minorizadas. Foi a partir desse diagnóstico que profissionais da saúde, pesquisadores e lideranças se reuniram, no último dia 28 de abril, na sede da Sanofi, em São Paulo, para o workshop “Narrativas de Diálogos”, iniciativa que integra o projeto global Um Milhão de Diálogos.
O encontro propôs uma inversão de lógica: em vez de discutir apenas protocolos clínicos, colocou no centro as experiências vividas por pessoas negras, indígenas e LGBTQIA+ no sistema de saúde. A partir dessas narrativas, o debate evidenciou como o racismo estrutural, a transfobia institucional e a invisibilização de saberes tradicionais seguem operando dentro das práticas médicas.
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Quando o erro não é técnico, é estrutural
Relatos apresentados durante o workshop demonstraram que falhas no atendimento não podem ser analisadas apenas como erros individuais, mas como reflexo de uma estrutura que, historicamente, desumaniza determinados corpos.
Jaqueline Goes de Jesus, cientista que liderou o sequenciamento do genoma da COVID-19 no Brasil, exemplificou como o racismo atravessa o cuidado mesmo em casos de alto nível de escolaridade e reconhecimento profissional. “A minha pele, a cor da minha pele e a textura do meu cabelo chegam muito antes dos meus títulos”, afirmou.
A doutora também compartilhou a experiência de ter recebido um diagnóstico incorreto durante um exame de ultrassom, apesar de possuir um histórico clínico conhecido: “Um momento que era para ser de super acolhimento… saímos do consultório e ficamos esperando o resultado. Quando eu olhei, percebi que tinha algo errado. Eu não tenho um dos ovários e o exame dizia que estava tudo normal.” Segundo ela, a situação só foi revista após afirmar sua posição profissional na área da saúde.
A resistência intelectual negra também foi pautada pela Dra. Merllin Batista, pesquisadora vinculada à Harvard University. Ela destacou como o racismo tenta silenciar a excelência técnica de corpos negros, reduzindo-os apenas ao debate sobre a dor.
“Fiz da força social a minha matriz para poder fazer as mudanças por onde eu passo”, afirmou. Para ela, ocupar esses espaços é uma forma de honrar quem veio antes: “Nunca me senti sozinha nesse processo, porque para cada pessoa negra no mundo, tem mais de 2.400 ancestrais atrás dela”.
Merllin reforçou que sua atuação na ciência é uma recusa ao sofrimento passivo: “Eu me recuso a falar de racismo, eu não falo de dores… e eu me recuso a falar de sofrimento sem resolução”.
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Ancestralidade e ciência: a recusa ao silenciamento intelectual
Os casos relatados pelas profissionais evidenciam como o racismo institucional pode comprometer práticas clínicas, impactando diretamente a qualidade do atendimento e colocando vidas em risco.
A discussão também avançou para a forma como protocolos clínicos, muitas vezes tratados como neutros, carregam vieses históricos. Ao desconsiderar marcadores sociais como raça, território, identidade de gênero e condição socioeconômica, a prática médica pode reforçar desigualdades já existentes. Nesse contexto, os participantes destacaram que equidade não significa tratar todos de forma igual, mas reconhecer diferenças e adaptar o cuidado a partir delas.
Outro ponto levantado foi a ausência de formação adequada sobre diversidade nos cursos da área da saúde. Apesar de avanços recentes no debate, a educação médica ainda se mostra distante das realidades vividas por populações minorizadas. Isso se reflete em atendimentos despreparados, que vão desde a dificuldade em abordar questões de identidade de gênero até a incapacidade de reconhecer sintomas em corpos historicamente negligenciados, como o de pessoas negras.
Saúde indígena e a ruptura com o modelo único de cuidado
O médico e pesquisador indígena Alceu dos Santos Silva Karipuna trouxe ao debate a necessidade de romper com a ideia de que existe um único modelo legítimo de cuidado em saúde.
Segundo ele, a medicina ocidental frequentemente ignora dimensões fundamentais para os povos indígenas.“A saúde não é simplesmente o ter um quadro de doença instalado. Às vezes, é estar em desarmonia com o que é importante no sentido de vida, de valores, de princípios.”
Ele também destacou que o conceito de saúde, para povos indígenas, está diretamente ligado à coletividade e ao território: “A gente costuma falar que, dentro desse conceito de saúde, a gente está em harmonia com tudo isso, com a família, com aquilo que o meu povo tem de valor.” A fala reforça uma crítica recorrente: o sistema de saúde ainda opera com base em uma lógica universalizante, que não contempla a diversidade cultural do país.
O profissional também reforçou a importância de incluir as próprias comunidades na construção de soluções. Em vez de pensar políticas “para” esses grupos, o debate aponta para a necessidade de construir caminhos “com” eles. Essa mudança de perspectiva desloca o lugar de fala dentro da saúde e reconhece que o conhecimento não está restrito às instituições, mas também nas experiências e vivências de quem acessa, ou tenta acessar, o sistema.
Entre estigma e negligência: o cuidado à população LGBTQIA+
A discussão sobre saúde LGBTQIA+ evidenciou como o preconceito ainda molda tanto o acesso quanto a abordagem clínica. O infectologista Marcos Vinicius Borges Tadeu, também conhecido como Doutor Maravilha nas redes sociais, destacou que práticas básicas de acolhimento seguem sendo negligenciadas: “É sempre importante perguntar os pronomes, qual é a identidade de gênero, e não pressupor pela aparência.”
Ele também chamou atenção para o peso do julgamento moral nos atendimentos, especialmente em casos relacionados a infecções sexualmente transmissíveis, em que a escuta é frequentemente atravessada por estigmas históricos.“Quando uma pessoa recebe um diagnóstico, o primeiro julgamento ainda é que ela é promíscua. Isso afasta as pessoas do cuidado.”
A fala evidencia como o estigma não apenas impacta emocionalmente os pacientes, mas também atua como uma barreira concreta ao acesso à saúde. Ao se sentirem julgadas, muitas pessoas evitam retornar aos serviços, interrompem tratamentos ou sequer buscam atendimento, aprofundando situações que poderiam ser prevenidas ou tratadas precocemente.
Complementando a visão clínica, a psicóloga Jaque Fantinelli trouxe a urgência de despatologizar e profissionalizar o atendimento à população trans, retirando-o do campo da “caridade”. Ela alertou que a saúde trans é frequentemente reduzida a hormônios e cirurgias, ignorando as complexas necessidades clínicas e sociais dessa população.
“O atendimento para grupos minorizados ainda tem muito a ver com pena e dó, com caridade. E não é sobre isso, porque a gente precisa entender que existem especificidades clínicas de necessidades que essas populações têm”, explicou.
Fantinelli ressaltou que a falta de preparo técnico afasta as pessoas dos consultórios por medo da revitimização. Para ela, a solução não reside na “boa vontade” individual, mas na estruturação de processos: “A gente precisa de protocolos, de fluxos bem estruturados… tem método para atender, tem um modo de fazer perguntas e avaliar a situação clínica desses pacientes”.
Nesse sentido, foi apontado que a comunicação em saúde, quando mal formulada, pode produzir o efeito contrário ao desejado, reforçando desinformações e ampliando a vulnerabilidade coletiva. A ideia de que determinadas doenças pertencem a grupos específicos não apenas estigmatiza, mas também dificulta estratégias mais amplas e eficazes de prevenção.
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Um milhão de diálogos contra o silêncio estrutural
O workshop faz parte do Narrativas de Diálogos, uma das iniciativas do programa global Um Milhão de Diálogos (UMD), da Sanofi. Lançado em 2023 em países como Brasil, França, Japão, Reino Unido e Estados Unidos, o programa tem como objetivo ampliar a confiança de grupos minorizados no sistema de saúde, com um investimento global de 50 milhões de euros até 2030.
Voltado especificamente para o letramento de profissionais de saúde, o workshop busca enfrentar barreiras históricas no acesso ao cuidado por meio da escuta ativa e da formação. A proposta parte de um reconhecimento central: o silêncio institucional sobre desigualdades também é uma forma de violência. Ao promover espaços de troca, a iniciativa tenta deslocar a lógica tradicional da medicina para incorporar experiências, territórios e identidades.
Por fim, o encontro deixou evidente que promover diversidade e inclusão na saúde não é uma pauta acessória, mas estruturante. Em um país marcado por desigualdades profundas, repensar o cuidado é também repensar o próprio sistema. Iniciativas como o Narrativas de Diálogos, dentro do Um Milhão de Diálogos, apontam que esse processo passa, necessariamente, por reconhecer falhas, abrir espaço para múltiplas vozes e transformar escuta em prática.
Ao reunir diferentes vozes e experiências, o workshop evidencia que a transformação do cuidado em saúde passa necessariamente por reconhecer desigualdades, enfrentar estruturas e, sobretudo, escutar quem historicamente foi silenciado.