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Fim da ação afirmativa reduz matrícula de negros nas universidades mais seletivas dos EUA

Estudo da Class Action com dados de mais de 3 mil instituições revela migração de estudantes negros para faculdades com taxas de graduação mais baixas; matrículas aumentaram em universidades públicas
Imagem do prédio da escola de direito de Harvard. A instituição registrou o menor número de matrículas de estudantes negros desde 1960, após decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos.

Imagem do prédio da escola de direito de Harvard. A instituição registrou o menor número de matrículas de estudantes negros desde 1960, após decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos.

— Reprodução/Harvard Law School

21 de fevereiro de 2026

A decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos que eliminou o uso de políticas de admissão com recorte racial no ensino superior provocou uma queda significativa na matrícula de estudantes negros nas instituições mais seletivas do país. É o que revela um relatório divulgado pela organização Class Action, que analisou dados de mais de 3 mil faculdades e universidades antes e depois do julgamento do caso Students for Fair Admissions v. Harvard (SFFA), em 2023.

O documento, intitulado “The Future of Fair Admissions” (O Futuro das Admissões Justas), compara as matrículas de 2024 com a média dos dois anos anteriores e identifica padrões distintos conforme o tipo de instituição. Os maiores declínios ocorreram entre estudantes negros.

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“Tanto o número quanto a porcentagem de estudantes de cor subrepresentados diminuíram significativamente em instituições altamente seletivas e ainda mais acentuadamente nas escolas Ivy Plus”, afirma o relatório. 

O grupo Ivy Plus inclui as oito universidades da Ivy League (como Harvard, Yale e Princeton), além de Duke, MIT, Stanford e Universidade de Chicago.

A análise mostra que a participação de estudantes negros nas universidades Ivy Plus caiu dois pontos percentuais, o que representa uma redução de 25% em relação a uma base já baixa. O percentual de estudantes hispânicos no mesmo grupo encolheu 1,5 ponto percentual, uma queda de 16%.

Entre as 50 universidades mais seletivas do país, quase um terço registrou estabilidade ou aumento nas matrículas de alunos negros e hispânicos. A maioria, porém, apresentou declínio. A variação nos resultados reflete diferenças nas políticas institucionais, como a manutenção de preferências para filhos de ex-alunos.

Instituições que continuaram a adotar o chamado “legacy preference” (vantagem para parentes de ex-alunos) após a decisão da Suprema Corte registraram queda na participação de estudantes hispânicos. Naquelas que eliminaram essa prática, a matrícula de hispânicos aumentou. Para estudantes negros, a presença ou ausência de legacy preference não alterou significativamente o resultado.

Queda nas universidades historicamente negras e avanço do setor com fins lucrativos

O relatório identificou uma redução agregada nas matrículas totais e de estudantes negros nas faculdades e universidades historicamente negras (HBCUs). O resultado contraria expectativas iniciais de que essas instituições pudessem absorver parte dos estudantes negros afetados pela decisão da Suprema Corte.

Outro dado que chamou a atenção dos pesquisadores foi o aumento de aproximadamente 15 mil matrículas de estudantes negros no setor com fins lucrativos em 2024. O crescimento ocorre em um segmento frequentemente associado a piores resultados educacionais e maiores taxas de endividamento.

A migração de estudantes negros e hispânicos para instituições menos seletivas tem implicações diretas sobre seus resultados acadêmicos e financeiros, segundo o estudo. A proporção de estudantes negros em faculdades com taxas de graduação superiores a 80% caiu 1,6 ponto percentual após a decisão. Entre hispânicos, a queda foi de 1 ponto percentual.

Os pesquisadores também calcularam a renda mediana ponderada dos estudantes quatro anos após a formatura. Para estudantes negros, a renda média nas instituições frequentadas caiu de US$ 49,4 mil para US$ 48,7 mil. Para hispânicos, a redução foi de US$ 49,7 mil (R$ 258,4 mil) para US$ 48,9 mil (R$ 254,2 mil). Os valores para estudantes brancos e asiáticos permaneceram estáveis, em torno de US$ 54 mil (R$ 280 mil) e US$ 57 mil (R$ 296 mil), respectivamente.

“As disparidades de renda persistentes entre grupos raciais e étnicos certamente devem gerar preocupação”, afirma o documento.

Desafios para a pesquisa e transparência

O relatório ressalta as limitações dos dados disponíveis para avaliar o impacto completo da decisão. As informações do Departamento de Educação não incluem dados desagregados sobre candidatos ou admitidos, apenas sobre matrículas. A ausência desses dados torna impossível determinar com precisão como as mudanças nas políticas afetaram o processo seletivo em cada instituição.

O material também destaca o aumento no número de estudantes que optam por não declarar raça ou etnia em suas inscrições, o que pode obscurecer o impacto real da decisão sobre a diversidade nas universidades.

A Class Action anuncia que continuará a investigar os efeitos da decisão da Suprema Corte, com relatórios futuros sobre o impacto diferenciado por gênero, a situação dos estudantes que não declaram raça e análises específicas sobre HBCUs e instituições a serviço de minorias.

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  • Giovanne Ramos

    Jornalista multimídia formado pela UNESP. Atua com gestão e produção de conteúdos para redes sociais. Enxerga na comunicação um papel emancipatório quando exercida com responsabilidade, criticidade, paixão e representatividade.

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