O Brasil registrou ao menos 624 ocorrências de desastres hidrometeorológicos entre janeiro e abril de 2026, segundo os boletins mensais do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). Ao longo dos primeiros meses do ano, diferentes estados brasileiros enfrentaram episódios severos de enchentes amplamente noticiados pela imprensa.
No Rio de Janeiro, fortes chuvas atingiram bairros da Zona Norte e municípios da Baixada Fluminense, provocando alagamentos, interrupção de serviços públicos e deixando famílias desalojadas. Em Pernambuco, comunidades da Região Metropolitana do Recife voltaram a conviver com o medo das enchentes, quatro anos após a tragédia climática de 2022.
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Casos semelhantes também foram registrados no Rio Grande do Sul, que voltou a sofrer com temporais e inundações após a tragédia histórica de 2024, e em São Paulo, onde alagamentos em regiões periféricas comprometeram a mobilidade urbana e afetaram milhares de moradores. Em comum, os episódios revelam um padrão recorrente: as populações pobres, negras e periféricas seguem expostas aos maiores riscos climáticos, convivendo com ausência de saneamento, infraestrutura insuficiente e respostas públicas limitadas diante das emergências.
De acordo com o Instituto Decodifica, organização da sociedade civil referência em Geração Cidadã de Dados e com atuação em justiça climática, as ocorrências de 2026 ilustram como territórios com alto índice de vulnerabilidade socioambiental são os mais afetados.
“Quando falamos de enchentes nas periferias, estamos falando de uma crise climática atravessada por desigualdades raciais e sociais históricas. Os dados oficiais muitas vezes não conseguem capturar a totalidade dos impactos vividos nesses territórios, e isso compromete diretamente a elaboração de respostas públicas efetivas”, afirma Marina de Paula, diretora-executiva do instituto.
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A favela gerando dados
Para enfrentar essa lacuna de informações, o Instituto Decodifica desenvolve o projeto Retratos das Enchentes, iniciativa de Geração Cidadã de Dados voltada ao monitoramento, mobilização e incidência política sobre justiça climática e ambiental.
O projeto atua em Recife (PE), Rio de Janeiro (RJ) e Maranhão (MA), territórios marcados por recorrência de enchentes, vulnerabilidade socioambiental e ausência de dados qualificados.
A iniciativa capacita moradores para coletar e analisar dados ambientais e sociais em seus próprios territórios, formando agentes comunitários de dados e fortalecendo lideranças locais. Entre os objetivos do projeto estão mapear riscos e impactos das enchentes, ampliar a participação social, construir bancos de dados territorializados e promover diálogos entre comunidades, pesquisadores e gestores públicos. Novas publicações da pesquisa serão lançadas ao longo de 2026.
“Nós trabalhamos para que moradores e moradoras das periferias possam produzir seus próprios dados, criando autonomia comunitária e fortalecendo lideranças locais. É fundamental que essas populações sejam protagonistas na construção das soluções para os desafios climáticos”, destaca Thiago Nascimento, diretor-executivo do instituto.
Os resultados iniciais do levantamento revelam um cenário alarmante. Foram ouvidas 718 famílias em quatro territórios: Acari e Kennedy, no Rio de Janeiro, e Passarinho e Dois Carneiros, em Pernambuco. Segundo o estudo, 70,5% dos moradores afirmaram viver em ruas que alagam com frequência. Além disso, 43% das famílias não possuem tratamento de esgoto, 21% vivem sem água encanada e quase metade relata adoecer após períodos de chuva, com sintomas como febre, dor de cabeça e diarreia.
Em Pernambuco, os impactos das enchentes seguem profundamente presentes na memória coletiva das comunidades afetadas pela tragédia de 2022. Em Dois Carneiros, no município de Jaboatão dos Guararapes, 73,5% das famílias afirmaram que suas ruas alagam frequentemente e mais de 60% relataram perda de eletrodomésticos após enchentes. Em Passarinho, no Recife, 80,6% dos moradores disseram não ter recebido qualquer auxílio após os desastres climáticos.
“Foi terrível para a gente. A água chegou no teto das casas, pessoas perderam móveis, documentos e as crianças ficaram com medo de entrar em casa”, relata uma moradora da comunidade ouvida pela pesquisa.
As enchentes também deixam marcas permanentes na saúde física, mental e econômica das famílias. Em Dois Carneiros, mais da metade dos entrevistados classificou a atuação do poder público como “péssima”, refletindo uma crise de confiança diante da ausência de políticas estruturantes de prevenção e resposta.
O projeto foi reconhecido recentemente no Prêmio Josué de Castro de Impacto Social, promovido pelo Fórum Brazil UK 2026, na categoria “Inovação, Tecnologia e Empreendedorismo de Impacto”. Para o Instituto Decodifica, o reconhecimento reforça a importância da geração cidadã de dados como ferramenta de incidência política e justiça climática.
Racismo ambiental
Ainda segundo a organização, os eventos climáticos extremos que marcaram o início deste ano reforçam a urgência de incorporar o conceito de racismo ambiental ao debate público. A expressão se refere à forma desigual como populações negras, periféricas e vulnerabilizadas são mais expostas aos impactos ambientais e menos atendidas por políticas de prevenção e proteção.
Em um contexto de agravamento da crise climática, especialistas apontam que enfrentar as enchentes passa também por enfrentar desigualdades históricas relacionadas ao acesso à infraestrutura, moradia digna, saneamento básico e participação social.
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