Imagens das câmeras de segurança da casa de Rosimilck Rick Maciel Amorim registraram, em detalhes, a dinâmica da operação policial que terminou na morte do jovem de 22 anos, no dia 7 de novembro de 2024, em Oeiras do Pará, nordeste do estado.
Segundo a família, parte dos equipamentos de vigilância da casa de Rosimilck foi danificada ou retirada. O HD com as gravações completas foi preservado pela família e mantido fora do município. As imagens foram publicadas pela Alma Preta.
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A operação, liderada pelo então delegado de Oeiras do Pará, Marcello Henrique Carvalho Cunha, foi motivada por uma suposta denúncia anônima de que Rosimilck estaria “guardando drogas e armas de fogo” a mando de uma organização criminosa. A casa foi invadida pela equipe policial sem autorização da Justiça paraense.
As gravações mostram desde a chegada da equipe policial à casa. Ao entrar pela varanda, um dos policiais chuta violentamente o portão, atingindo um cachorro, que era o único ser vivo presente no local naquele momento.
O registro contradiz o que foi relatado pelo investigador da Polícia Civil, Alysson Viana Guedes, responsável pelos disparos que mataram Rosimilck. Em depoimento, ele afirmou que o jovem estava na frente da casa e correu para se esconder lá dentro ao avistar os agentes.
Na sequência, as imagens mostram a movimentação constante de policiais entrando e saindo do quarto de Rosimilck, local onde o jovem foi morto e descrito no processo como o único ambiente da casa sem câmeras.
Pela porta entreaberta, é possível ver os agentes revirando os móveis e itens do cômodo durante a busca.

Um dos trechos mais emblemáticos mostra o policial Alysson, com apoio de pelo menos outros dois agentes, levando o jovem para dentro do quarto onde foi morto sob um golpe conhecido como “mata-leão”, completamente imobilizado.
Nos vídeos, o policial Alysson aparece encapuzado, acompanhado de outros dois agentes identificados no processo como sargento da PM Natal e cabo da PM Tavares.
No depoimento, o investigador Alysson afirma que Rosimilck levou os agentes ao quarto para supostamente mostrar onde estavam escondidas armas.
Já dentro do quarto, o policial disse que a equipe foi surpreendida pela reação de Rosimilck, que teria sacado uma arma escondida ao lado da cama e atirado na direção dos agentes, acertando a parede. Alysson conta que precisou agir em legítima defesa e disparar seguidas vezes contra o jovem. Rosimilck foi morto a tiros dentro do cômodo.
A defesa da mãe de Rosimilck, porém, afirma que, mais uma vez, a versão oficial entra em contradição com os registros das câmeras de segurança, principalmente porque é perceptível, nas imagens, que a vítima estava completamente dominada no momento em que foi levada ao quarto.
Inclusive, foi observado por familiares um golpe na testa de Rosimilck, provavelmente provocado por forte coronhada, o que pode ter contribuído para a impossibilidade de reação.
A defesa também questiona como os policiais não encontraram a arma que supostamente estava escondida ao lado da cama e teria sido utilizada por Rosimilck, já que o quarto foi revirado pelos agentes minutos antes da entrada no quarto do jovem imobilizado pelos policiais.
“O fato é que o festival de versões é completamente desmontado pela cruel imagem que mostra a vítima fatal, Rosimilck Rick Maciel Amorim, completamente imobilizada, sendo levada para o matadouro por seus assassinos. A situação eternizada na imagem mostra que Rosimilck jamais poderia apresentar qualquer tipo de reação, quanto mais a improvável hipótese de fazer uso de um revólver calibre 32 para atirar diversas vezes contra os policiais sem acertar tiro algum”, diz a defesa da família de Rosimilck, representada pelo advogado Hercílio de Azevedo Aquino, em manifestação à Justiça.
Imagens mostram servidor não policial armado atuando na operação
Um outro aspecto sensível do caso é a participação de um servidor público chamado Allan Souza Siqueira na operação. Ele não é policial; no processo, é descrito como servidor administrativo cedido pela Prefeitura de Oeiras do Pará.
No depoimento prestado no inquérito, o delegado Marcello Henrique Carvalho Cunha, que chefiou a operação, afirma que Allan teria acompanhado a equipe apenas para indicar o endereço, já que os policiais não conheciam a cidade.
Segundo ele, Allan permaneceu na viatura e, por um “equívoco”, acabou descendo do veículo, sem autorização, já depois do início da operação.
O próprio Allan, em seu depoimento, segue a mesma linha. Diz que ficou no carro enquanto os policiais faziam o cerco e que só saiu depois, ao ouvir disparos, pegando uma arma longa, que, segundo ele, não tinha munição, apenas para “fazer número” e ajudar a conter a situação.
As imagens, no entanto, mostram outro cenário.
Desde os primeiros momentos da ação, Allan aparece fora da viatura, armado, acompanhando a dinâmica da operação e parte da equipe desde a invasão da casa. Ele surge ativo, circulando pela área interna e externa da residência.
Em um dos registros, ele permanece na frente da residência no mesmo momento em que a equipe policial está no quarto com Rosimilck, aparentemente vigiando o local e com a arma em mãos.
Em outro momento, aparece diretamente envolvido em uma abordagem violenta ao padrasto de Rosimilck. O padrasto tenta entrar na casa, mas é segurado e empurrado por Allan.
Para a defesa, a contradição entre o que foi dito em depoimento e o que foi registrado em vídeo levanta a hipótese de alinhamento prévio de versões.
“O curioso é que a declaração do Allan está em consonância com o depoimento do delegado Marcello Henrique Carvalho Cunha, indicando que houve ajuste. A historinha combinada, no sentido de que Allan teria ido com a equipe policial apenas para indicar o local, teria dado certo, se não fossem as imagens das câmeras que registraram a presença do intruso ativamente na dinâmica da desastrosa operação policial”.
Embora o delegado Marcello tenha chefiado a operação e seu nome apareça de forma recorrente nas manifestações da família da vítima, ele nunca foi formalmente responsabilizado. Allan foi o único indiciado no caso e apenas por porte ilegal de arma de fogo.

Inconsistência temporal na versão policial
Outro ponto é a inconsistência temporal na versão policial. Enquanto os agentes afirmam que receberam denúncia anônima por volta das 19h30 e realizaram diligências antes da abordagem, as imagens mostram que a entrada na casa ocorreu às 19h27, antes do horário indicado para o recebimento da denúncia.
Para a defesa, essa discrepância torna a narrativa policial “impossível” e sem respaldo nos autos.
“Como poderiam ter recebido denúncia anônima às 19h30, realizado diligências e campanas e ingressado na casa às 19h27 do mesmo dia, isto é, no mesmo horário do recebimento da denúncia? Além da impossibilidade temporal, nada foi trazido aos autos que confirme a alegação da existência de diligências preliminares para corroborar a alegada denúncia anônima”.
A defesa também aponta que as imagens captadas pelas câmeras da casa não foram consideradas no relatório final do inquérito.
Parte dos equipamentos teria sido destruída, mas HD foi preservado
Segundo a família, parte dos equipamentos de vigilância da casa de Rosimilck foi danificada ou retirada. Mas o HD com as gravações completas foi recuperado pela família, preservado e mantido fora do município, à espera de uma perícia independente.
“Talvez os policiais estejam acostumados a matar e a ficar por isso mesmo sem responsabilização alguma, por isso mataram com requinte de crueldade, acreditando na impunidade. Ocorre que desta vez, apesar de a casa invadida pelos matadores ser extremamente humilde, ela continha câmeras de vigilância que registraram todas as atrocidades. Os policiais acreditaram que seus crimes não seriam descobertos, pois destruíram as câmeras de vigilância e se apossaram do monitor. Ocorre que esqueceram de subtrair o HD, que foi arrecadado pela família e guardado em lugar seguro, fora de Oeiras. Ele contém todas as imagens na íntegra e em tempo real. Quando for para realizar perícia idônea, será disponibilizada cópia integral do HD, que contém todas as imagens que registraram, inclusive, a demora proposital para socorrer a vítima, após os diversos disparos”.
Desde então, o caso passou por um período de arquivamento, posteriormente revertido após a atuação de advogados. Agora, a família aguarda o andamento judicial.
Edição: Flávio V. M. Costa.