O Instituto Nacional de Câncer (INCA) lançou, na segunda-feira (2), a cartilha “Saúde com Axé: mulheres negras e prevenção do câncer”. A publicação é uma iniciativa da Divisão de Detecção Precoce e Apoio à Organização de Rede do INCA. O material promove um diálogo entre os saberes técnicos da saúde e os conhecimentos ancestrais dos terreiros de candomblé.
A cartilha é um produto da pesquisa “Promoção da Saúde e Prevenção do Câncer em Mulheres Negras”, desenvolvida pelo INCA em parceria com o Ministério da Saúde. O material está disponível para acesso gratuito na Biblioteca Virtual em Saúde Prevenção e Controle de Câncer e no portal do INCA.
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A elaboração ocorreu de forma compartilhada com mulheres de terreiros do Rio de Janeiro. O trabalho contou com a colaboração de ialorixás e iaôs dos terreiros Ilê Axé Obá Labí, em Pedra de Guaratiba, e Ilê Axé Egbé Iyalodê Oxum Karê Adê Omi Arô, em Nova Iguaçu.
A publicação reconhece os terreiros como espaços de acolhimento, cuidado, solidariedade, cultura e religiosidade afro-brasileira. A proposta é que a fé, a espiritualidade, os rituais e os saberes ancestrais atuem como um apoio para o autocuidado e as práticas de promoção da saúde.
A cartilha aborda diretamente o racismo como um determinante social da saúde. Um trecho afirma: “O racismo aumenta o risco de adoecer, dificulta o acesso aos serviços de saúde e até mesmo influencia na qualidade do atendimento. Isso expõe as mulheres negras a maior carga de adoecimento e morte por várias doenças, inclusive o câncer, quando comparadas às mulheres brancas”.
A publicação também cita a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN), de 2009.
O conteúdo sobre prevenção e os cânceres abordados
O material educativo traz informações sobre a prevenção e a detecção precoce de três tipos de câncer: mama, colo do útero e intestino (colorretal). As orientações são apresentadas de forma contextualizada, com referências à cultura afro-brasileira.
Para o câncer de mama, a cartilha lista os sinais de alerta, como nódulo fixo e endurecido, e reforça a recomendação da mamografia de rastreamento para mulheres de 50 a 74 anos, a cada dois anos. O texto também alerta que mulheres negras fazem menos mamografia do que mulheres brancas e têm menor acesso ao tratamento.
Sobre o câncer do colo do útero, a publicação destaca que ele é “quase 100% evitável”, relacionado à infecção pelo HPV. A cartilha recomenda a vacinação de meninas e meninos de 9 a 14 anos e o exame preventivo (Papanicolau) para mulheres e pessoas com útero de 25 a 64 anos, a cada três anos. Também menciona a futura oferta do teste de DNA-HPV no SUS.
Para o câncer de intestino, a cartilha lista fatores de risco, como consumo de carnes processadas e sedentarismo, e sinais de alerta, como sangue nas fezes e alteração no hábito intestinal.
A cartilha utiliza a figura das Yabás, orixás femininas, para inspirar o autocuidado. Ela relaciona Nanã à sabedoria ancestral, Obá à força da união entre mulheres, Iansã à força guerreira, Oxum ao autoamor, Ewá à intuição e Iemanjá ao acolhimento.
A linguagem é acessível e direta, com perguntas como “Você já sofreu racismo?” e “Como enfrentar isso, Iyá?!”. A publicação também inclui sessões práticas, como uma lista de instituições que oferecem apoio jurídico e social, como a Defensoria Pública do Rio de Janeiro, a ONG Criola e a Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde (Renafro).